Adolescente morre após parto e família alega negligência médica

Segundo familiares, jovem morreu após ter sido forçada a realizar parto normal. Susam afirma que parto ocorreu "sem registro de alterações" e que a morte foi causada por uma infecção

Stephane Simões / redacao@diarioam.com.br

Manaus – A família de Eunice Lopes de Souza, 16, acusa a Maternidade Ana Braga, na zona leste de Manaus, de negligência médica. A jovem morreu na unidade, nesta segunda-feira (8), após ter sido forçada a realizar parto normal. Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), afirma que o parto ocorreu “sem registro de alterações” e que a morte foi causada por uma infecção que se agravou ao longo da internação da jovem, que deu entrada na unidade na última sexta-feira (5).

De acordo com familiares, a adolescente deu entrada na maternidade, por volta das 3h da última sexta, acompanhada cunhada Beatriz da Silva. Conforme a acompanhante, Eunice ficou sentindo dores até a hora do parto, no início da tarde. “Ela foi ter o bebê já era 12h45. Eles ficaram aplicando injeção, e ela já estava ficando bem fraca. Foi quando perguntei se eles poderiam fazer uma cesárea, pois ela não iria aguentar. Eles responderam dizendo que ela ia ter normal mesmo”, disse a acompanhante.

O marido da adolescente relatou que os funcionários da maternidade chegaram a colocar Eunice em um leito sujo (Foto: Raquel Miranda)

De acordo com a família, o quadro de saúde de Eunice começou a se agravar neste domingo (7). A cunhada da jovem conta, ainda, que a adolescente começou a se queixar de dores fortes na barriga, que estava muito inchada. “A barriga dela estava doente tanto que ela não queria nem que tocasse. Chamei a enfermeira e ela disse que poderia ser gases e pediu que ela caminhasse. Depois, veio outra enfermeira e disse “eu sei que você está emocionada, mas não pode fingir”. Eu respondi dizendo que ela não estava fingindo e que, de fato, estava passando mal”, contou Beatriz.

Após a aplicação de medicamentos, as enfermeiras resolveram chamar a médica, já que, segundo Beatriz, o remédio não estava fazendo efeito. “Chamaram a médica e ela já veio com toda ignorância perguntando o que ela tinha. Ela pediu para que todos se retirassem do local e fecharam a porta. Quando sai do quarto, só conseguia escutar os gritos da Eunice. Eu não sei se a médica tentou amassar ela para o sangue descer, porque nós suspeitamos de hemorragia”, relatou a cunhada da jovem.

“Ela ficou muito inchada depois de tomar muito remédio. Era tanto medicamento que eles tiveram que usar dois suportes para colocar os medicamentos, um de cada lado”, completou Beatriz.

O marido da adolescente, Marcos Silva de Anunciação, informou que ao chegar à maternidade, na manhã de segunda-feira, percebeu que Eunice estava debilitada. No mesmo dia, ele recebeu a notícia da morte da mulher. “O médico me disse que ela não tinha resistido. E ela (quando estava viva) pediu que eu a tirasse de lá, pois iam acabar matando ela”, afirmou.

Segundo a família, o laudo médico aponta que uma bactéria causou a morte. “Não sabem se foi da maca, da cadeira de rodas ou da queda. Ela caiu no banheiro, depois que foi liberada para ir ao leito. O maqueiro pediu que ela fosse tomar banho, e ela estava muito fraca, pois não tinha comido nada”, acrescentou a cunhada.

Leitos sujos

O marido da adolescente relatou que os funcionários da maternidade chegaram a colocar Eunice em um leito sujo. “Passaram ela para outra maca, que estava suja, pois outro paciente estava deitado lá e eles não fizeram a troca de lençóis”, disse.

Estado de saúde do bebê

A família afirma  também que o bebê também sofreu complicações na hora do parto. Como precisou fazer muito esforço, Eunice não teria conseguido respirar e mandar oxigênio para o filho. Segundo Beatriz, a criança nasceu com o cordão umbilical enrolado no pescoço, o que teria agravado ainda mais o quadro de saúde.

“Por volta das 16h, ela já iria subir com o bebê. As ‘mãezinhas’ que estavam lá falaram para mim que ela estava tendo febre e que ela dormiu. O bebê passou mal e ela não viu, ele foi levado para o oxigênio”, acrescentou.

De acordo com a família, o bebê ainda está internado na maternidade recebendo medicação. Segundo o pai da criança, a previsão é que em dois dias ele receba alta médica. O velório de Eunice aconteceu, nesta terça-feira, na Igreja Santuário dos Milagres, localizada na Rua Socorro Dutra, 15, bairro Armando Mendes, zona leste. O enterro ocorreu na tarde do mesmo dia, no Cemitério Parque Tarumã (Tarumã).

Em nota enviada à REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) diz que a jovem deu entrada na maternidade “com queixa de perda de líquido, o que os médicos consideram um sintoma de possível quadro infeccioso”.

Conforme a secretaria, a direção da unidade informou que nos dias seguintes à internação, a adolescente teve palidez e dor abdominal. “Foram realizados exames laboratoriais e ultrassonografia, que indicaram endometrite, uma inflamação do endométrio causada por infecção. Foi iniciado tratamento com antibióticos. O quadro da paciente foi agravado e ela foi encaminhada à UTI Materna, onde veio a óbito no dia 8, às 6h35”, diz trecho da nota.

A Susam conclui a nota afirmando que a direção da Maternidade Ana Braga “não compactua com situação de maus tratos aos pacientes, principalmente por se tratar de uma maternidade de referência em parto humanizado” e que a unidade “cumpre todas as normas de higienização e a regularidade na troca de lençóis dos leitos”.