Apreensões dobram nos presídios do Amazonas

Principais familiares responsáveis flagrados tentando entrar com os objetos são mães e esposas, conforme informou o secretário executivo-adjunto da Seap, coronel André Luiz Barros Gioia

Gisele Rodrigues / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Mais que dobrou o número de pessoas detidas tentando entrar em presídios com objetos ilícitos. Segundo dados da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), em 2018, esse tipo de flagrante cresceu 116%, e os principais familiares responsáveis flagrados tentando entrar com os objetos são mães e esposas, conforme informou o secretário executivo-adjunto do órgão, coronel André Luiz Barros Gioia.

No ano passado, o dobro de apreensões de drogas foi realizada nas revistas de visitantes. Segundo a Seap, 16,6 quilos de entorpecentes foram impedidos de entrar nos presídios da capital e interior do Estado.

“Elas têm que ser estudadas pela Nasa”, foi o que declarou o secretário executivo da Seap ao ser questionado sobre os métodos adotados para tentar burlar a fiscalização. O secretário lembrou entre as mais curiosas a inserção de uma lata de leite em pó, recheada de entorpecente, introduzida nas partes íntimas de uma mulher. Identificado o objeto estranho no body scanner, uma espécie de raio X, os agentes penitenciários identificaram um volume estranho na candidata à visita, segundo Gioia.

O Complexo Penitenciário Antônio Jobim (Compaj) está entre os registros de túneis encontrados (Foto: Sandro Pereira/RDC/ Arquivo)

Após a identificação, segundo o secretário, a pessoa suspeita de transportar objetos ilícitos passa por uma revista íntima. “Ali ela escolhe se vai passar pela revista ou retornar e desistir da visita. Não há como fazer a entrada se for identificado que há drogas. Nós encaminhamos para a delegacia, eles fazem o flagrante e vai para a audiência de custódia”, explicou Gioia.

Foi exatamente o que aconteceu com Daniela Cavalcante Campos. Ela tentou, segundo a secretaria, entrar com um bloco de cimento de 430 gramas que envolvia pouco mais de 230 gramas de maconha, no interior de suas partes íntimas. O delito ocorreu no Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM), no quilômetro 8 da rodovia federal BR-174.

Revista não impede entrada

Mesmo com todas as etapas de triagem e revista, houve um crescimento de 50% no número de entorpecentes encontrados nas revistas dos presos e celas. Ao todo, 1.190 aparelhos celulares foram apreendidos junto aos detentos. Com os visitantes, no ano passado, foram encontrados apenas 80 aparelhos, nove a menos que em 2017.

Os bloqueadores de sinal telefônico estão entre as deficiências do sistema penitenciário. Segundo Gioia, todas as unidades estão sem o contrato para o serviço. De acordo com a secretaria, além da entrada de celulares com os visitantes, os próprios presos têm feito os modelos de telefone. “Eles se utilizam de métodos artesanais, fazem o próprio celular. Já encontramos celulares de cinco centímetros”, relatou o secretário.

A comunicação permite com que os presos tenham contato do lado de fora. Atualmente, as facções são divididas em alas diferentes, para evitar conflitos entre si, mas a Seap estuda uma maneira de não reunir os membros de uma mesma facção.

“É um ponto difícil. Eles ficam lá juntos, não sabemos se estão arquitetando uma fuga, uma rebelião. Vamos achar algum meio de acabar com isso”, disse o secretário.

Secretário-executivo da Seap se surpreende com métodos usados por esposas e mães de presos (Foto: Raquel Miranda/RDC)

Escavação de túneis ajudou na fuga de 35 presos, em 2018

O clima nos presídios é sempre tenso, nas palavras do secretário executivo-adjunto da Seap, coronel André Luiz Barros Gioia. O último túnel encontrado iria levar a fuga de 250 presos do Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM 1), em novembro do ano passado. As escavações foram feitas embaixo de um vaso sanitário e frustradas pela Seap.

A escavação de túneis que levam ao outro lado da muralha cresceu 50% em 2018 e ajudou 35 presos a fugirem no ano passado.

Três dias antes, na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), um túnel de dois metros de profundidade e quatro de extensão foi interceptado. A escavação, segundo a Seap, partiu da mata, para as galerias um, dois e três do presídio.
Tentativas de fuga por túneis no sistema penitenciário do Estado ocorreram em nove dos 12 meses do ano passado, na capital e também no interior do Estado. O Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), Complexo Penitenciário Antônio Jobim (Compaj), a UPP, os CDPM 1 e 2, além do presídio de Humaitá, estão entre os registros de túneis encontrados pela Seap.

Quase triplicou o número de ‘teresas’ encontradas nos presídios. O objeto é uma espécie de corda confeccionada com roupas, lençóis e outros tecidos, e é utilizada para escalar os muros da prisão nas fugas. Enquanto que em 2017 a apreensão de ‘teresas’ foi de 195 itens, no ano passado, 553 cordas foram apreendidas pela Seap.

O Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) foi o que mais registrou apreensão de ‘teresas’. Segundo a Seap, 246 estavam em celas do presídio. No ano anterior, apenas 32 foram encontradas no local, de acordo com os dados do órgão.

Armas brancas já levaram a mortes nos presídios do Estado

No ano passado, 1.953 armas brancas foram apreendidas pela Seap nos presídios do sistema. Cerca de 80% foram armas produzidas pelos próprios presos. Na última crise no sistema, o agente penitenciário Alexandro Rodrigues Galvão, 36, foi morto durante o dia de visitas, no dia 1º de dezembro do ano passado, com golpes de facas. Ele foi atacado por detentos dentro do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), no quilômetro 8 da BR-174 (Manaus – Boa Vista). O agente foi golpeado com uma faca artesanal em um princípio de rebelião de detentos no pavilhão três do Compaj.

Desde o episódio as visitas e os banhos de sol estão suspensos no Compaj, segundo informou o secretário executivo. Os envolvidos foram colocados em celas afastadas, após serem encaminhados para a delegacia, onde prestaram depoimento e serão investigados criminalmente por mais outra delinquência.

Após o cumprimento da medida disciplinar, o banho de sol para os presos vai ser retomado nos próximos dias, segundo o secretário executivo da Seap, Luiz Barros Gioia. E as visitas continuarão interrompidas até o término das obras que visam garantir mais segurança aos agentes penitenciários dentro da unidade.

Anteriormente, o direito aos banho de sol, que em anos anteriores já chegou a ser durante todo o dia. Agora, segundo o secretário, se limita a duas horas por dia e somente metade do pavilhão de cada vez. Anteriormente, de acordo com o secretário, todos os presos iam juntos para o banho de sol.

As medidas de segurança ainda correm para serem ampliadas com a renovação da presença de 50 homens da força nacional. Com o convênio vencido, a Seap já enviou o pedido de renovação e ainda pediu a ampliação na quantidade de agentes da Força Nacional. Segundo Gioia, são eles que fazem a segurança na entrada dos presídios e nos arredores das unidades penitenciárias.