Arrastões causam pânico em paradas

Usuários do transporte urbano relatam que os assaltos nos pontos de ônibus já viraram rotina na cidade. Delegado admite a ‘falta de capacidade’ da polícia para combater os criminosos e revela o produto preferido dos ladrões

Gisele Rodrigues / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Uma dupla em uma moto para em frente a parada de ônibus e anuncia assalto, um ‘arrastão’. Celulares, dinheiro e bens pessoais são levados em segundos. A cena se repete em várias áreas da cidade e é reclamação recorrente entre os usuários do transporte urbano de Manaus. No ano passado, mais de 76 mil pessoas foram roubadas ou furtadas, na capital, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).

O ponto de ônibus da Avenida Carvalho Leal, no bairro da Cachoeirinha, na zona centro-sul, que no final do ano passado estava completamente tomado por cartazes avisando sobre os assaltos, até recebeu reforço do policiamento depois de virar notícia na imprensa.

No entanto, segundo a aposentada Andréa Santana, 50, durou cerca de um mês a ronda da Polícia Militar (PM) na área. “Para de moto, saca o revólver, a faca e leva o celular de todo mundo. Toda semana é isso. No sábado e domingo é pior, de hora em hora”, reclamou.

A dona de casa Marília da Rocha, 41, conta que o irmão já foi vítima dos bandidos enquanto aguardava na frente ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) a chegada do ônibus. Apontando uma arma de fogo ele se viu obrigado a dar o telefone que havia acabado de comprar.

“A gente não tem como fugir, precisa do ônibus. Vai fazer o quê? Quando passa uma viatura aqui na frente passa direto, nem para. Às vezes, fica deserto e é quando é mais perigoso”, disse a dona de casa.
Na região central da capital, quem precisa aguardar o transporte urbano em uma das paradas da praça da Matriz também reclama da criminalidade. O autônomo José Natan, 43, foi roubado após ser encurralado, na última segunda-feira (5), por um casal enquanto aguardava o ônibus.

Esconder’ bolsas, mochilas e telefones celulares são algumas das estratégias usadas para tentar se livrar dos assaltos (Foto: Reinaldo Okita)

“Eram 11h e não tinha um policial por perto. Eles fugiram andando. Eu nem fiz BO (Boletim de Ocorrência). Do que adianta, não vale de nada, entra só para a estatística”, disse a vítima.

Na Avenida André Araújo, no bairro Aleixo, é frequente a ocorrência de arrastões. Segundo a estudante Laiz Souza, 19, há cerca de dois anos quem passava por uma das paradas de ônibus da localidade podia observar frases de alerta como: ‘Aqui você vai ser assaltado a qualquer momento’, em cartazes fixados na parada.

“Retiraram tem um tempo, mas servia de aviso para as pessoas não darem mole na parada. Eu já fui assaltada duas vezes aqui”, disse.

Alisson Peixoto, 26, também reclamou e disse que colegas de trabalho também relatam o mesmo. Segundo ele, muitas vezes o ladrão já salta do ônibus com a arma empunhada. “Assaltaram muito aqui em janeiro e dezembro, quase todo dia. Em uma semana assaltaram um mesmo colega duas vezes. Eles descem do ônibus com a arma, roubam e vão para o matagal”, disse.

Celular do bandido

O operador de caixa Alexandre Ruan, 24, disse que após ser assaltado três vezes passou a comprar e carregar consigo dois celulares. “Um é meu e o outro é do bandido”, declarou.

Segundo Ruan, na última vez que foi assaltado, em novembro do ano passado, em uma parada de ônibus na Avenida Desembargador Machado, no bairro do Alvorada, zona centro-oeste de Manaus, decidiu comprar um aparelho mais barato para sofrer um prejuízo menor.

Ele conta que da última vez, uma dupla de moto o parou enquanto aguardava o ônibus rumo ao trabalho. Em plena luz do dia, levaram um Iphone 7, recém-comprado. Para o ladrão, o operador disse que comprou o mais barato e de segunda mão.

“Nem tinha pagado a primeira parcela. Era um sonho ter esse telefone, não tinha nem um mês de uso quando levaram e nem consegui recuperar com o GPS. Fiquei revoltado”, declarou.

Para tentar evitar os roubos, os passageiros relataram que em momentos menos movimentados preferem pegar ‘qualquer’ linha.

“Quando estou sozinho pego qualquer ônibus que passe perto de casa. Nem precisa passar na frente não. Faço isso para não ser assaltado, ando um pouco mais, mas pelo menos fico seguro”, disse Peixoto.

A estudante Laura Rodrigues, 31, diz que antes de qualquer coisa se apega a espiritualidade. Ela contou que, muitas vezes se livrou de um assalto no local e prefere também pegar um ônibus para ir primeiramente para o Terminal 2.

“Aí você pensa que quando chega a moto está correndo o risco de ser roubado, mas eles aparecem até de carro. De verdade, eu me pego mesmo é em Deus. A gente fica aqui com medo, cheio de gente morrendo de graça, se a gente não tem celular é pior ainda, atiram e matam a gente”, resumiu.

Delegado civil admite falta de ‘capacidade operacional’ da polícia

Delegado do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), no Centro da capital, Marcelo Martins disse que é impossível evitar os assaltos nessas localidades. Segundo ele, a polícia “não tem capacidade operacional” para isso.

As leis brandas, na opinião do delegado, perpetuam este tipo de crime. “Eu costumo dizer que no Brasil o bandido é condenado a assinar um papel. Porque é isso que ele faz. Quando finalmente é preso ele recebe uma pena branda ou vai em regime aberto, em que toda semana precisa assinar um papel”, criticou a autoridade policial informando, ainda, que uma mesma pessoa já chegou a ser presa por ele cerca de quatro vezes, pelo mesmo crime.

Sobre o trabalho da polícia, Martins afirmou que após a área receber um aumento no registros de roubos a Polícia Militar (PM) passa a reforçar o patrulhamento na área.

“Já o trabalho da Polícia Civil é coletar imagens das câmeras, tentar chegar a uma placa da moto utilizada. A gente tem nossos informantes também que podem falar sobre o assaltante. Buscamos características como tatuagem para chegar ao suspeito e prendê-lo”, afirmou.

Os horários de 5h da manhã e do final da tarde são, segundo Martins, os mais usados pelos criminosos que cometem os roubos. Geralmente armados, o alvo principal é o furto do aparelho celular.

O telefone é o principal objeto roubado, segundo o delegado. A fácil comercialização e a dificuldade de rastreio fazem com que poucos aparelhos retornem aos donos.

“O que eu posso dizer é que as pessoas evitem usar o celular na parada de ônibus de forma ostensiva e carregar grandes quantidades de dinheiro. E sob hipótese nenhuma reagir”, finalizou o delegado.