Levantamento aponta fraude no sistema de cotas da Ufam

Segundo levantamento do jornal ‘O Estado de São Paulo', 72% das denúncias de fraude nas matrículas de estudantes no sistema de cotas raciais, da Região Norte, partiram de Manaus

Gisele Rodrigues e Agência Estado de São Paulo / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Um levantamento do jornal ‘O Estado de São Paulo’ mostrou que 72% das denúncias de fraude nas matrículas de estudantes no sistema de cotas raciais, da Região Norte, partiram de Manaus. No Brasil, 1/3 das universidades federais abriram sindicância para apurar as denúncias, a maioria já teve a matrícula indeferida, mas parte conseguiu retornar aos estudos por liminares, contrariando as decisões administrativas.

Ao todo, oito suspeitas de fraudes na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) foram identificadas, conforme a publicação, que obteve acesso aos dados do processos administrativos instaurados pelas instituições, todos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

Ao todo, oito suspeitas de fraudes na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) foram identificadas, conforme a publicação (Foto: Divulgação)

Em toda a Região Norte, 11 denúncias foram informadas ao jornal. As cidades de Rio Branco, Palmas e Boa Vista tiveram uma denúncia cada. A maior parte das denúncias vem de movimentos negros, segundo o Estado. Para reduzir as fraudes, o governo federal quer formatar uma comissão para orientar análise visual dos alunos.

Das 63 federais no País, 53 responderam aos questionamentos. No total, há 595 estudantes investigados em 21 instituições de ensino.

A REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC) entrou em contato com a Ufam questionando, por exemplo, quantos voltaram a estudar na instituição, por força de liminar judicial após terem a matrícula indeferida. Em reposta, via telefone, a universidade afirmou que precisa realizar levantamento junto aos setores responsáveis pelo assunto.

A Ufam ainda não se posicionou, também, sobre o número de processos de investigação que seguem em investigação.

Acusações

Nos documentos analisados, segundo o jornal, foram encontrados estudantes que se autodeclararam quilombolas mesmo sem nunca ter vivido em uma comunidade e alunos acusados por movimentos negros de serem brancos. O caso mais comum, no centro da polêmica, é o dos pardos, que muitas vezes são identificados – e denunciados – como “socialmente vistos como brancos” e, portanto, não deveriam utilizar o sistema, segundo os movimentos sociais.

Os suspeitos alegam que tiveram poucas informações sobre o indeferimento. “Me senti um lixo, sendo analisada pela aparência, como um objeto. Achei que haveria pelo menos uma entrevista. Acredito que tem fraudadores mesmo, mas no edital que participei era autodeclaração. Eu não fraudei nada”, diz uma aluna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que buscou advogada para manter a vaga.

Pelo mapeamento, cursos mais concorridos são o principal alvo de denúncias. Os mais recorrentes são Medicina e Direito, com casos em praticamente todas as instituições que têm ou já tiveram alguma sindicância.

Comissão

O governo federal decidiu reativar um grupo de trabalho, encabeçado pelo Ministério de Direitos Humanos e incluindo secretarias do Ministério da Educação (MEC) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), que deve finalizar um documento para dar base a comissões de aferição de autodeclaração da etnia dos estudantes em todas as universidades federais do País.

O Estado obteve a informação que o modelo, que está sendo desenhado pelo governo federal, prevê bancas com cinco pessoas, formadas de maneira diversificada tanto em gênero quanto em etnia dos avaliadores. Só novos alunos seriam avaliados, antes da matrícula, e o único critério seria a aparência do candidato.

“O fenótipo (aparência) deve ser o primeiro aspecto a ser considerado. A questão do racismo no Brasil é de marca, e não de origem. As pessoas são reconhecidas socialmente enquanto negras pelos traços fenotípicos”, avalia Juvenal Araújo, secretário nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, órgão vinculado ao Ministério de Direitos Humanos (MDH).



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