Empresários e eletricistas usavam pessoas pobres para aplicar golpes na Eletrobras

Moradores de comunidades carentes recebiam cerca de R$ 300 para assumir dívidas milionárias na concessionária. Operação também identificou instalação de medidores adulterados

Stephane Simões / redacao@diarioam.com.br

Manaus – A operação ‘Luz para Poucos’, da Polícia Civil (PC), resultou na prisão de 21 pessoas, na manhã desta quinta-feira (11), envolvidas nos crimes de estelionato, peculato e corrupção ativa e passiva, além de falsificação de documentos. A organização criminosa era formada por eletricistas, empresários e funcionários da Eletrobras Amazonas Energia, segundo a PC. O prejuízo estimado, em balanço inicial, é de R$ 30 milhões.

Eles são acusados de aplicar um golpe na concessionária de energia elétrica. Além dos envolvidos, foram apreendidos equipamentos e materiais elétricos, como contadores.

Mais de 20 pessoas foram presas durante a operação ‘Luz para Poucos’, da Polícia Civil (Foto: Raquel Miranda)

Dentre os presos estão os eletricistas Márcio Ribeiro, Charles Lima, Mário Rangel, Paulo Lino, Paulo Ribeiro e Paulo Roberto, os técnicos eletricistas terceirizados Francisco Moreira, Marcello Coelho, Raimundo Iranildo, Adolfo Castro, e os empresários Pedro Paulo e Valdir Campelo. Além deles, foram presos uma funcionária terceirizada do Centro de Operações, Sarah Viana, dois atendentes da Central da Eletrobras da 10 de julho, Patriciane Oliveira e Alexsander Lopes. Também foram presos funcionários da Eletrobras que prestam serviços em PACs, são eles: a supervisora Lizanette Beckman, os atendentes Daniel Jakminutt e Raphael Walbert, Cairo Luiz, Cinthya Neves e Armindo Vital.

Além do material apreendido, a PC também apreendeu armas, drogas e R$ 6,7 mil, que estavam em posse do eletricista Márcio Ribeiro. O valor apreendido é proveniente de um serviço realizado, na última quarta-feira (10), segundo o delegado titular da Delegacia Especializada em Combate ao Furto de Energia, Água, Gás e Serviços de Telecomunicações (DECFS), Felipe Vasconcelos.

O caso estava sendo investigado há 10 meses. Segundo o presidente da concessionária, Tarcísio Rosa, um balanço inicial apontou um prejuízo no valor de R$ 30 milhões, só nos meses em que a investigação estava sendo realizada. “Nosso prejuízo anual, com desvio e fraude de energia, é da ordem de R$ 500 milhões”, acrescentou o presidente.

A Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc) esclareceu, por meio de nota, que os funcionários da Eletrobras Amazonas Energia que foram apreendidos nos guichês de unidades dos Prontos Atendimentos ao Cidadão (PAC) durante a deflagração da operação ‘Luz para Poucos’, não são servidores da Sejusc, sejam efetivos, comissionados ou terceirizados. A secretaria informou, ainda, que os espaços cedidos a Amazonas Energia dentro dos PACs são de responsabilidade da empresa, bem como os funcionários que atuam nos guichês.

Como funcionava o esquema

Empresários e donos de estabelecimentos pagavam pessoas de baixa renda para que elas fossem até um posto de atendimento da Eletrobras Amazonas Energia e assumissem a dívida em seu nome. Segundo o diretor-adjunto do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), Thomás Vasconcelos, essas pessoas, usadas como ‘laranjas’, recebiam o pagamento de R$ 200 a R$ 300 para realizar o serviço.

“Essas pessoas já foram identificadas e serão indiciadas. São pessoas de baixa renda, até mesmo analfabetas. Foi identificado um indígena, entre eles. Em torno de 40 pessoas foram identificadas”, disse.

A diretora comercial da Eletrobras, Andressa Oliveira, afirma que estas pessoas que procuravam a concessionária, e assumiam a dívida pelos empresários, realizavam a negociação da dívida, efetivavam apenas o pagamento do valor de entrada e depois abandonavam a negociação, ficando inadimplentes. “Por serem pessoas de baixa renda, nós desconfiamos e resolvemos procurar a Polícia Civil”, acrescentou a diretora comercial.

Conforme o delegado titular da DECFS, Felipe Vasconcelos, estas pessoas eram moradoras de bairros carentes, como Campos Sales e União da Vitória, e tinham renda baixa de até um salário mínimo. “Essas pessoas recebiam valores baixos pelo serviço e ficavam com uma dívida de R$ 70 mil a R$ 100 mil, esta foi a primeira modalidade criminosa. Outra modalidade criminosa que nós descobrimos durante a investigação foi da fraude de medidores”, afirmou.

Segundo o diretor-adjunto do DRCO, a quadrilha realizava a instalação de medidores adulterados, que eram furtados de residências, algumas delas desocupadas. “Eles subtraiam esses medidores, levavam para alguns laboratórios, faziam a adulteração e reinstalavam em grandes unidades consumidoras, cobrando expressivos valores. Essas unidades consumidoras pagavam 90% a menos do valor que deveriam pagar pela demanda”, explicou Thomás Vasconcelos.

Instalação de medidores adulterados foram identificados pela polícia (Foto: Raquel Miranda)

O diretor-adjunto disse, ainda, que as pessoas que executavam a fraude são ex-servidores, diretos e terceirizados, da Eletrobras, e tinham o conhecimento das pessoas que tinham interesse por este serviço. “Eles montaram uma carteira de clientes e fazem isso mensalmente. Inclusive, eles fazem até serviços de manutenção da instalação”, acrescentou.

As investigações continuam em andamento para identificar e autuar todos os envolvidos no esquema criminosos. Os 21 presos identificados cumprirão o mandado de prisão preventiva, segundo a PC.

***Matéria atualizada às 19h.



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