Terror ronda a área do Amazonas onde morreu atleta britânica

Secretaria de Segurança admite que atualmente não existem operações para coibir assaltos na região

Karla Mendes e Girlene Medeiros / redacao@diarioam.com.br

Navegantes que percorrem o Rio Solimões afirmam que sentem medo de navegar na região, marcada pelos riscos de assaltos e ataque de traficantes (Foto: Agência Brasil)

Manaus – Navegantes que percorrem o trecho entre Codajás e Coari afirmam que sentem medo de navegar no local após o assassinato da britânica Emma Kelty, ocorrido no último dia 13 de setembro. Apesar de ter conhecimento dos riscos de assaltos na região, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) afirma que atualmente não existem operações para coibir assaltos no Alto Solimões, mas ressalta que planeja enviar equipes ao local.

O piloto mecânico Adonaldo Gonçalves, de 50 anos, que trabalha há 20 anos na embarcação ‘Comandante Severino Ferreira’, afirma que durante as viagens sente medo de possíveis ataques à embarcação e que, ao longo dos anos, amigos já foram assaltados durante as viagens. Em cada viagem, cerca de 80 pessoas fazem o percurso, que leva um dia para ser concluído. Adonaldo ressalta que o medo dos navegantes que trabalham neste trecho aumentou após o assassinato da britânica na região.

“Com a gente nunca aconteceu, mas sabemos que é um trecho muito perigoso. A gente se sente ‘acuado’, mas tomamos algumas providências pra se prevenir mesmo, porque, se acontecer, não tem como gritar, a gente fica no meio do nada. A cada viagem nós demoramos cerca de um dia no rio, então existem algumas medidas que podemos tomar, por exemplo, nós fazemos a comunicação por rádio entre uma embarcação e outra, sempre avisando se existe algo de risco ou algum suspeito naquela área”, contou Adonaldo.

A enfermeira Isabel da Silva, de 40 anos, que trabalha na embarcação ‘Monte Sinai 2’, que realiza viagens de Manaus a Tefé, com passagem no trecho entre Codajás e Coari, afirma que é raro ver a presença de policiais no percurso e ressalta que a comunicação existente acontece entre os rádios das embarcações. “O pessoal conta com a amizade que tem dos outros barcos para avisar sobre ladrões. Eu não vejo policiamento no local e me assusto com isso porque de quem a gente vai pedir ajuda nessas situações?” ressaltou.

De acordo com dados do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma), o trecho do Alto Rio Solimões esta entre os principais lugares onde têm ocorrido assaltos a embarcações.

O Sindarma ressalta que a Delegacia Fluvial (Deflu) está instalada desde 2006 no Porto da Manaus Moderna, mas na estrutura de segurança pública do Estado não há um grupamento especializado de policiamento ostensivo com foco nos crimes em rios. A Polícia Civil informou, por meio de assessoria, que a principal embarcação da especializada fica atracada em Manaus e se desloca para eventos populares em municípios do interior do Estado e para realizar algumas operações.

No Amazonas, o Sindarma estima que, anualmente, os prejuízos com furtos e roubos sejam de cerca de R$ 100 milhões. As cargas gerais e pequenos barcos particulares também são alvos dos criminosos no Amazonas e no Pará.

O secretário Carlos Alberto Andrade, titular da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), afirma que atualmente não existem operações para coibir assaltos no Alto Solimões, mas que tem um planejamento para enviar equipes ao local.

“Os interiores têm departamentos de polícia que são responsáveis pelo policiamento nos interiores exceto nessas áreas de fronteira. O que a Secretaria de Segurança tem, é um plano de operações para aquela região, que já estava pronto há um tempo, mas que necessita de apoio e parceiros para executarem este planejamento de combate ao narcotráfico, principalmente naquela região”, afirmou o secretário.

Viajar pela Amazônia era sonho de britânica desde os 5 anos

A atleta e educadora Emma Tamsin Kelty tinha 43 anos, e percorria, de caiaque, o Rio Amazonas, partindo da nascente dele, nos Andes peruano, em uma expedição com destino ao Oceano Atlântico. Essa viagem fazia parte do sonho que ela mantinha desde o 5 anos de idade que incluía viajar pelo hemisfério sul. Toda a expedição foi exposta na internet. A britânica esportista postou os preparativos da aventura no site que mantinha onde mostrava cada dia da expedição que fazia ao redor do mundo.

Pelos relatos da atleta, escritos no diário de bordo, Emma demonstrava ser uma pessoa aventureira e que, também, sabia dos perigos de passar sozinha em uma floresta. A viagem, que teve a preparação de meses, foi planejada para ser realizada em quatro momentos. Ao todo, Emma se planejou para percorrer 6.437 quilômetros. O planejamento incluiu, em um primeiro momento, escalar até a nascente do rio. Depois, planejou dominar as corredeiras de águas brancas em um percurso de 1,6 mil quilômetros.

Segundo o relato de Emma no blog, nessa parte, ela contratou um guia de segurança para ir com ela. “Morrer não é uma boa”, brincou a britânica. Sem saber, a viajante previa a própria morte que aconteceria nos próximos dias. Na terceira parte da viagem, Emma chegou a brincar ao escrever que iria passar por uma área conhecida pela presença de narcotraficantes e traficantes de órgãos.

A britânica não conseguiu continuar o percurso, mas o quarto estágio dessa aventura era remar ao longo de 4,8 mil quilômetros até o mar. “Eu vou aprender a viver em um local remoto e úmido em uma selvagem e perigosa vida. Tempos excitantes”, escreveu. Em uma postagem no Twitter, no dia 10 de setembro, Emma publicou que estava a cerca de 100 quilômetros de distância de Coari (a 363 quilômetros a oeste de Manaus). “Vou ter meu barco roubado perto de Coari e morrer também”, escreveu na rede social.

De acordo com o jornal britânico ‘The Guardian’, Emma é de Finchley, no noroeste de Londres, e largou a chefia da escola primária Knollmead em Surbiton, no sudeste de Londes, em 2014, para viajar. Além de relatar a expedição no site e blog pessoal, a viagem era exposta nos perfis que ela mantinha no Twitter e no Facebook. A aventura iniciou em julho e, em uma visita a Lima, capital do Peru, antes de iniciar a jornada, Emma deu entrevista ao jornal El Comercio contando como seria a expedição. Ao jornal peruano, Emma contou que havia deixado a profissão de professora há dois anos e decidiu largar a vida de trabalhadora comum após ter perdido o pai para o câncer.

Ao jornal peruano, Emma disse que era próxima do pai e que havia perdido a mãe quando tinha 15 anos. “Depois da morte do meu pai, decidi analisar-me e analisar a vida que levava. Me dei conta de quão curta que é a vida, assim que decidi cumprir este sonho que tenho desde os 5 anos: viajar sozinha ao polo sul”, disse ao El Comercio, acrescentando que estava cansada da vida de trabalhar até as 2h e levar-se às 5h para seguir trabalhando; sem feriados, nem fim de semanas.

Antes de iniciar a expedição, ela disse, ao jornal peruano, que a primeira coisa que fez foi ler histórias sobre pessoas que tinham sido assassinadas na região. No entanto, Emma desacreditou do que leu e, para ela, 99% das pessoas são surpreendentes e recebem o turista bem, além de ser carinhosos. “É isso que espero que aconteça com esta viagem, que as 99% das pessoas que eu conheça sejam fascinantes”, disse ao El Comercio.

A cada postagem nova, durante a jornada, Emma mencionava as descobertas por onde passava. Em um dos posts no Facebook, ela contou que surpreendeu uma família por enfrentar uma aventura dessas mesmo sendo uma mulher. “Uma família me parou e todo o barco em coro ‘ohhh uma mulher!!’”, publicou. Cada publicação recebia mensagens de curiosos pelo cotidiano da britânica na Amazônia. Em alguns dos comentários, internautas chegaram a dizer que ela deveria escrever a aventura em um livro ou falar sobre ela em algum programa de TV.

 



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