Mais de 60% das crianças da Venezuela que entram no Brasil não vão à escola

Os dados são de pesquisa realizada nas cidades de Pacaraima e Boa Vista, que mostra os desafios que os venezuelanos enfrentam quando chegam ao Brasil, em especial as crianças e os adolescentes

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Quem são as crianças e os adolescentes venezuelanos que têm chegado ao Brasil nos últimos meses? Quais são suas necessidades e vulnerabilidades? Para responder essas perguntas, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicaram uma nova edição do monitoramento do fluxo migratório venezuelano, tendo como foco a infância e a adolescência.

A pesquisa foi realizada com apoio financeiro do Fundo Central de Resposta de Emergência das Nações Unidas (Cerf, na sigla em inglês) e do Escritório para População, Refugiados e Migração (PRM) do governo norte-americano.

Do total de entrevistados, 60% afirmaram que não tinham acesso à água mineral filtrada para beber e 45% não tinham acesso regular à água para cozinhar (Foto: ACNUR/Reynesson Damasceno)

A pesquisa, realizada nas cidades de Pacaraima e Boa Vista, em Roraima, entre os meses de maio e junho de 2018, mostra os desafios que os venezuelanos enfrentam quando chegam ao Brasil, em especial as crianças e os adolescentes.

Foram entrevistadas quase 4 mil pessoas, das quais 425 estavam com seus filhos menores de 18 anos ou acompanhando algum menor de idade. Foi possível, assim, coletar informações sobre 726 crianças e adolescentes. Desses, 479 estavam em bairros de Boa Vista e Pacaraima, 171 na fronteira de Pacaraima com a Venezuela e 76 na Rodoviária de Boa Vista.

Os dados mostram que muitas das meninas e meninos que chegam ao Brasil encontram dificuldades para frequentar a escola. Um número considerável tem acesso à saúde, mas está vulnerável devido a problemas de higiene e alimentação. Também há relatos de crianças que estão expostas à violência.

Educação

Do universo de crianças e adolescentes venezuelanos analisados, 63,5% não frequentam a escola. As razões para a ausência escolar incluem falta de vagas, distância e custos.

Olhando apenas a idade escolar obrigatória, mais da metade (59%) das crianças e adolescentes venezuelanos entre 5 e 17 anos não frequenta a escola. A porcentagem para esta categoria é maior na faixa etária de 15 a 17 anos, onde 76% não frequentam a escola.

Saúde

A maioria das crianças e adolescentes (87,1%) analisados estava com as vacinas atualizadas e 70% tinham acesso aos serviços de saúde. Porém, as condições sanitárias podem criar problemas.

Do total de entrevistados da pesquisa, 60% afirmaram que não tinham acesso a água mineral filtrada para beber, e 45% não tinham acesso regular a água para cozinhar e para garantir sua higiene pessoal. Além disso, 28% das pessoas menores de 18 anos disseram ter tido diarreia no último mês.

Desde que chegaram ao Brasil, 115 crianças e adolescentes venezuelanos (16%) passaram por algum momento em que não tiveram comida suficiente.

Ao menos 128 tiveram que reduzir o número de refeições diárias; 93 sentiram fome e não conseguiram alimentos; e 84 disseram ter passado por um dia em que comeram uma vez ou não comeram.

Trabalho infantil

Desde que chegaram ao Brasil, 16 dos entrevistados responderam que, em algum momento, uma criança ou adolescente sob sua responsabilidade trabalhou ou fez algum tipo de atividade esperando obter algum tipo de pagamento.

E um total de 14 crianças e adolescentes deram resposta positiva à pergunta: “Desde que chegou ao Brasil, você já conheceu uma criança ou adolescente que estava em risco de violência sexual?”.

Programa já enviou quase 2 mil refugiados ao resto do País

O governo federal comanda o programa de interiorização, que tem o objetivo de enviar os venezuelanos que fogem da crise em seu país de origem para outros Estados brasileiros. Desde abril deste ano, quando teve início o programa, quase 2 mil venezuelanos se mudaram de Roraima para outras cidades, como Brasília, Manaus, Cuiabá, Porto Alegre e São Paulo. Estima-se que outras 800 pessoas ainda serão interiorizadas.

A Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e a Organização Internacional para as Migrações, com o apoio de outras agências das Nações Unidas, afirmaram que vão continuar a trabalhar com o governo brasileiro para promover a transferência de venezuelanos da Região Norte para outras cidades do País.

Segundo estimativas do Acnur, 75% dos venezuelanos que chegam ao Brasil e são atendidos pelo Centro de Recepção e Documentação em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, expressam o desejo de viajar para outros Estados do País. Além disso, um levantamento recente da agência mostrou que cerca de 40% dos venezuelanos em idade econômica ativa, transferidos para outras cidades, já conseguiram encontrar emprego.

Antes da interiorização, o Acnur garante que os venezuelanos tenham os documentos apropriados para viajar, como CPF e as carteiras de trabalho e de vacinação.