Zika e crise fazem número de nascimentos cair no País

Foi a primeira queda desde 2010; IBGE registra ainda menos casamentos e mais divórcios

Estadão Conteúdo / Redacao@diarioam.com.br

Rio de Janeiro  – O total de nascimentos em 2016 no País teve forte queda – a primeira desde 2010 e uma das maiores já registradas – segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta terça-feira, 14. Foram 2.793.935 registros, uma redução de 151 mil em relação a 2015 ou 5,1%. Além do envelhecimento da população, a crise econômica e a epidemia do vírus zika são apontadas como causas do recuo de natalidade.

“Está em curso uma mudança demográfica que vai nos afetar nos mais diferentes aspectos”, explica o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Quando a taxa de mortalidade cai, é natural que, em um segundo momento, caia a de natalidade. É um movimento natural, já estava previsto.”

Mas a queda foi bem maior que o esperado, indicando que outros fatores podem ter contribuído para impulsionar o fenômeno. Embora a pesquisa não aponte as causas, os demógrafos do IBGE acreditam que a epidemia de zika que assolou o País entre 2015 e 2016 estaria por trás da decisão de muitas mulheres de adiar a maternidade. O Estado que apresentou o maior recuo (10%) foi Pernambuco, justamente um dos mais atingidos pela doença e pelo surto de microcefalia nos bebês cujas mães contraíram o vírus durante a gravidez.

“As taxas de natalidade e fecundidade vêm caindo no Brasil, mas o tamanho desse recuo no ano passado chamou a atenção” explica Klívia Brayner de Oliveira, gerente da pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2016. A crise econômica e as altas taxas de desemprego também teriam contribuído para a redução dos nascimentos. A maior variação negativa foi na Região Centro-Oeste (5,6%).

Um dos locais que apresentaram maior redução foi Pernambuco, com menos 10% (Foto: EBC.)

Uniões e divórcios

O mau momento econômico seria ainda responsável por menos casamentos. O levantamento do IBGE revela que foram registradas 1.095.535 uniões no ano passado, 3,7% a menos do que em 2015. “Com a crise, havia muita incerteza, muita gente desempregada”, afirma a demógrafa do IBGE Leila Ervatti. “É natural que as pessoas adiem os planos de casamento.”

O economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda com a colega. “Decisões menos mecânicas, que as pessoas tomam mais racionalmente, como casar e ter filhos, tendem a ser influenciadas por crises.”

Os brasileiros também se separaram mais no ano passado. De acordo com a pesquisa do IBGE, foram 344.526 divórcios no País em 2016, 4,7% a mais do que no ano anterior, a maior parte consensual.

Embora na maioria das vezes a guarda dos filhos tenha ficado com a mulher (74,4%), foi observado um aumento significativo na guarda compartilhada. Passou de 12,9% em 2015 para 16,9% no ano passado. “O número de separações vem aumentando desde 2010, quando todos os entraves legais para o divórcio foram retirados”, afirma Klívia. “A facilidade legal deixou as pessoas mais à vontade com o divórcio.”

Morte violenta de jovens cresce no Nordeste

As estatísticas do IBGE mostram ainda um contraste nas mortes por causas externas – como homicídios, suicídios, atropelamentos e acidentes – no grupo etário masculino de 15 a 24 anos. Esse número caiu significativamente em Estados como São Paulo, Rio, Espírito Santo e Santa Catarina na última década. Mas cresceu 171% na Bahia. Outros Estados do Nordeste e do Norte também registraram aumentos expressivos.

A tendência já vinha sendo apontada em outros levantamentos. A redução da quantidade de mortes no Sudeste e no Sul estaria relacionada aos ganhos sociais e à redução da desigualdade.

“Normalmente, a questão dos homicídios não está ligada à pobreza, mas sim ao desemprego e à desigualdade”, explica o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “No caso do Nordeste, há um certo mistério porque as condições de vida melhoraram. Mas é algo que já vinha sendo notado.”

A mortalidade masculina é maior do que a feminina ao longo de toda a vida, mas a diferença é mais acentuada entre os jovens. Considerando apenas os óbitos por causas externas, um brasileiro de 20 anos tinha, em 2016, 11 vezes mais chance de não completar os 25 anos do que uma mulher.

Envelhecimento

Por fim, o levantamento mostra um aumento do número de mortes em geral no Brasil. Foram 1.270.898 óbitos no ano passado, 3,5% a mais do que em 2015 e 24,7% a mais do que em 2006. Segundo a gerente da pesquisa, Klívia Brayner de Oliveira, os resultados refletem as mudanças do perfil demográfico do País, com o gradual envelhecimento da população e a redução da mortalidade infantil.

Em 1976, por exemplo, a parcela da população que mais morria era a de menores de 5 anos (34,7%). Hoje, a mortalidade infantil corresponde a menos de 3% dos óbitos. A proporção de mortes entre os maiores de 65 anos mais que dobrou no mesmo período, passando de 29,1% em 1976 para 58,5%, 40 anos depois.

Correções
14/11/2017 | 21h49

Matéria atualizada para corrigir a informação sobre a queda na taxa de nascimentos no Brasil. Em 2016, os nascimentos caíram pela primeira vez em 6 anos.



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