Progresso e abandono eliminam campos de futebol em Manaus

Manaus perde espaços para o esporte, que ajudariam a diminuir índices de criminalidade. Zona norte tem proporção de 12,8 mil moradores por campo de futebol na capital

Manaus – Com 1,8 milhão de habitantes, segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e apenas 131 campos de futebol nas cinco zonas da capital, conforme a Secretaria Municipal de Desporto e Lazer (Semdej), falta espaço para o lazer e a prática do futebol em Manaus. A média é de um campo para cada 13,7 mil pessoas e a tendência é que a proporção aumente com o crescimento da cidade, que consome até os espaços particulares antes usados para o esporte.

É o caso do tradicional campo do Barranco, na Avenida Constantino Nery, na zona centro-sul. O local, que já abrigou competições e escolinhas de futebol, hoje é um canteiro de obras. Nem mesmo as traves sobreviveram. O Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) informou que o terreno é particular, mas vai realizar vistoria para verificar a existência das licenças necessárias às atividades realizadas na área.

Outro tradicional espaço do futebol era o campo do Formigão, no Planalto, zona centro-oeste. O terreno público deu espaço às novas instalações da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e foi desativado em 2008. Na zona centro-sul, o campo do conjunto Morada do Sol, de propriedade particular no Aleixo, foi fechado para a construção de um condomínio.

Na Cidade Nova, zona norte, o complexo esportivo do Conjunto Manoa possui dois campos de areia, mas durante alguns meses do ano o futebol dá lugar a parques de diversão e palco para shows de festivais comunitários. A situação se repete no Conjunto Osvaldo Frota, também na Cidade Nova, e no São José 1, na zona leste.

Ainda na zona norte, o campo do Conjunto Renato Souza Pinto 1 é só barro e não tem iluminação. Apesar de ter a Escola Estadual Homero de Miranda Leão como vizinha, a área se transforma em ponto de consumo de drogas durante a noite se queixam os moradores.

O jornalista e historiador Carlos Zamith lembra de áreas tradicionais que sucumbiram ao progresso da capital. “Onde hoje é o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) era o campo dos irmãos Gorenhas. Na Avenida Leonardo Malcher (na Praça 14) tinha o campo do Ratapé no qual eu até jogava nos finais de semana”, comentou. “Onde atualmente é o Hospital Getúlio Vargas era um campo, assim como onde funciona a Escola Estadual Solon de Lucena e o Ginásio René Monteiro era o campo do Luso”, completou. 

Menos áreas de lazer, mais criminalidade

As zonas mais nobres e mais seguras de Manaus são as que apresentam menor número de habitantes e, consequentemente, menor média de pessoas por espaços de lazer e desporto. Nas zonas norte e leste, que concentram mais da metade da população da capital e onde a média é de 17,4 mil pessoas por campo, os índices de criminalidade são maiores.

O consumo e tráfico de drogas são as principais ameaças aos jovens desses núcleos habitacionais. Conforme a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Amazonas (SSP/AM), 58% das 782 ocorrências de tráfico de entorpecentes registradas de janeiro a julho deste ano nas delegacias de Manaus foram nas zonas norte e leste. Neste período, as delegacias da zonas oeste receberam 157 ocorrências e as da sul 171. O porte de drogas também é alto nas regiões com maior proporção de moradores por áreas de lazer. Houve 319 registros nas delegacias da área, de janeiro a julho deste ano. Para tentar mudar este panorama, a Prefeitura de Manaus já reformou quatro campos e deve concluir a reforma de outros 24 até o final de 2011.

Mais gente e menos esporte

Com apenas cinco bairros e aproximadamente 200 mil moradores, segundo dados do IBGE/2008, a região centro-sul de Manaus é bem provida de complexos esportivos (19 no total). Os bairros Adrianópolis, Aleixo, Chapada, Flores, Nossa Senhora das Graças, Parque 10 de Novembro e São Geraldo têm renda média de R$ 3.720,25 por habitante. Quanto aos complexos esportivos, a proporção é de um espaço de lazer para cada 10,5 mil pessoas.

Já a zona leste, a mais populosa e que concentra um terço da população da capital (aproximadamente 700 mil pessoas) em mais de 15 bairros, tem apenas 20 campos. Este total equivale a somente 15% dos espaços públicos de Manaus. Na zona norte, o maior e mais populoso bairro do município, a Cidade Nova, tem 30 campos, a maioria em situação deplorável. Nessa área vivem mais de 300 mil moradores. A proporção é de um complexo de lazer para cada dez mil habitantes.

Prejuízo social

O ex-zagueiro do São Raimundo-AM e atual coordenador técnico das categorias de base do Fast Ulbra, Paulão, garante que o prejuízo social é superior ao esportivo. “Pior que a diminuição das chances de surgimento de novos craques é o efeito social disso. Apesar de estar aqui há muito tempo, sou do Rio de Janeiro e lá observei que onde mais acabaram com os campos para construir prédios, mais a criminalidade cresceu”, exemplificou. “E aqui, por estar acontecendo o mesmo e ser uma metrópole, o destino é semelhante”, acredita.

“O pior é que os governantes incentivam essa devastação, pois ao mesmo tempo em que estimulam o desenvolvimento da construção civil, determinam a extinção dos espaços livres. Infelizmente, as questões sociais não têm a mesma atenção e o estímulo por não serem lucrativas”, lamentou o ex-jogador.

Um desses exemplos claros é o bairro da Compensa, o mais populoso da zona oeste com aproximadamente 120 mil moradores, mas que tem somente quatro campos. A média é de um centro esportivo para cada 30 mil moradores. O bairro apresenta altos índices de criminalidade.