ONU chama a atenção para a poluição gerada pelo plástico

Para especialistas, problema precisa ser atacado tanto na produção quanto no consumo, no reaproveitamento e no gerenciamento de resíduos

Estadão Conteúdo / redacao@diarioam.com.br

Brasília – Uma baleia-piloto morreu no domingo, 3, na Tailândia, com 80 sacos plásticos entalados em seu estômago. O jovem cetáceo, não muito maior do que um golfinho comum, foi mais uma vítima daquilo que muitos especialistas consideram ser um dos maiores desafios de desenvolvimento sustentável do século 21: a poluição plástica — tema do Dia Mundial do Meio Ambiente 2018, celebrado hoje.

Tartarugas, baleias, golfinhos, aves e outros animais marinhos morrem pela ingestão de plástico ou presas em redes de pesca descartadas (Foto: National Oceanic and Atmospheric Administration)

O problema é global e onipresente. Cerca de 75% das 8,3 bilhões de toneladas de plástico produzidas pelo ser humano, desde a invenção do plástico, já viraram lixo — e só 20% desse lixo foi reciclado ou incinerado de alguma forma, segundo um estudo publicado, no ano passado.

Os outros 80% (cerca de 5 bilhões de toneladas) estão espalhados por aí, contaminando o solo, os rios, os oceanos, a atmosfera e até a água mineral que compramos no supermercado — ironicamente, embalada em garrafas plásticas que, um dia, seguirão o mesmo caminho.

“Estamos acumulando plástico no planeta de tal forma que essa ficará conhecida como a era geológica do plástico”, disse, ao jornal O Estado de S. Paulo, a gerente de campanhas da ONU Meio Ambiente no Brasil, Fernanda Daltro. “O impacto é colossal”, ressaltou.

Derivado do petróleo, o plástico nunca se degrada por completo na natureza. O material apenas se quebra em pedaços cada vez menores, em um processo de decomposição que pode levar centenas de anos. Mesmo os plásticos chamados biodegradáveis não ‘desaparecem’ — apenas se quebram mais rapidamente.

O ambiente mais afetado são os oceanos. Cientistas estimam que há mais de 5 trilhões de pedaços de plástico flutuando nos mares, e outras 8 milhões de toneladas do material são despejadas no oceano, todos os anos, na forma de garrafas, embalagens e outros resíduos plásticos carregados pelos rios e pela chuva. Uma grande parte é arrastada para alto-mar e fica circulando durante anos, até encalhar em alguma praia ou se juntar a uma das seis gigantescas ‘manchas de lixo’ que existem nas regiões centrais dos Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.

As vítimas mais óbvias são milhares de tartarugas, baleias, golfinhos, aves e outros animais marinhos que morrem pela ingestão de plástico ou presas em redes de pesca descartadas — as chamadas ‘redes fantasmas’, que também são feitas de plástico e levam centenas de anos para se decompor.

Mas essa é só a ponta do iceberg. A parte mais problemática do lixo plástico é invisível a olho nu: são as partículas microscópicas, conhecidas como ‘microplástico’, que se misturam ao plâncton e contaminam a cadeia alimentar marinha, podendo chegar ao homem, com efeitos ainda desconhecidos sobre a saúde humana. Estão misturadas à água e à areia de todas as praias do mundo.

As pesquisas sobre o tema no Brasil são pontuais, mas uma coisa é certa: “Em qualquer lugar que você procurar, você vai encontrar”, diz a pesquisadora Monica Costa, da Universidade Federal de Pernambuco, especialista em oceanografia química e poluição marinha. “O microplástico está, literalmente, em todo lugar”.

Soluções

O problema precisa ser atacado em várias frentes, dizem os pesquisadores: tanto na produção quanto no consumo, no reaproveitamento e no gerenciamento de resíduos. Cerca de 40% do plástico produzido hoje é descartável — ou seja, feito para ser usado uma única vez, como copinhos, canudos, embalagens e sacolas.