Maioria dos partidos no Amazonas está atrelada ao governo Dilma

Estado vive cenário em que, na prática, existe apenas o partido do governo federal.

Manaus – Com a iminente criação do PSD, nasce no País mais um grande partido de apoio ao governo federal, cenário com reflexo no Amazonas, onde a maioria das legendas é da base aliada. O PSD, assim como a maioria das siglas de expressão da política nacional, permanecerá ao lado da presidente da República, Dilma Rousseff (PT), segundo o seu fundador, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

Para estudiosos, a fundação de mais um partido de base do governo federal prejudica o debate de ideias, causando uma “banalização da política”. Eles defendem o pluripartidarismo de situação e oposição como forma de ampliar as discussões.

Dos 28 partidos políticos com representação no Amazonas, conforme lista da Seção de Controle e Registro de Partidos do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), 19 compõem a base aliada de Dilma: PT, PMDB, PRB, PRTB, PDT, PSL, PTN, PSC, PR, PTC, PHS, PSDC, PRP, PSB, PCdoB, PP, PTB, PMN e PTdoB.

A oposição é constituída de sete partidos: PSDB, DEM, PPS, PSOL, PSTU, PCB e PCO, sendo que os quatro últimos não possuem representantes parlamentares. O PV é considerado independente, uma vez que não apoiou Dilma nem seus candidatos majoritários no Estado.

Dos oito deputados federais do Amazonas, apenas Pauderney Avelino (DEM) pode ser considerado de oposição por ser do DEM. Os três senadores do Estado – Eduardo Braga (PMDB), Vanessa Grazziotin (PCdoB) e João Pedro (PT) – estão ao lado da presidente. Durante o lançamento do PSD, Gilberto Kassab afirmou que a sigla vai comportar políticos da base e de oposição à Dilma Rousseff, mas prometeu apoio a ela. O governador do Amazonas, Omar Aziz, eleito pelo PMN, declarou filiação ao PSD na última semana. Omar também pertence à base aliada do governo federal.

Para o cientista social Fernando Vieira, a criação do novo partido remete a uma cultura adquirida da década de 80, que associa o “adesismo (tendência ou hábito de aderir interesseiramente a situações vantajosas) à lógica do veto”. “Para muitos políticos, há a compreensão de que fazer política é antes vetar do que fazer propostas”, explica.

De acordo com o especialista, Dilma precisará renegociar os acordos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Não estamos mais em 2005, quando Lula precisava atrair gente para o seu lado. O excesso de adesão acabará prejudicando a presidente e a própria democracia. E dentro disso, há dois confrontos distintos, com o mercado e com os partidos de base da presidente. Ela terá que mostrar que não há espaço para todo mundo”, alerta Vieira.

Banalização

O sociólogo Luís Santos diz que a escassez de espaço político reservado a partidos de oposição e a adesão em massa dos “gigantes” ao governo federal consistem na “banalização da política brasileira”. “Cada vez mais os partidos se distanciam de suas reais ideologias, perdendo a consistência. Querem apenas defender seus interesses, atrelados ao governo federal, sem posição ideológica definida”.

O estudioso alerta que a criação de legendas apenas  para contornar vetos e evitar confrontos distorce o real sentido da política. “Política é debater ideias e projetos de grupos diferentes. Não há sentido em todo mundo ser igual, tem que haver o diferente para contrabalancear. Surge aí uma pobreza de debates e o real sentido da palavra política se perde. Quem sai perdendo é a democracia”, explica.

A mestranda e pesquisadora de movimentos sociais Ynês Morais defende o pluripartidarismo como forma de ampliação dos debates políticos. “Os partidos de oposição ao governo, a maioria pequenos, vivem da persistência de uma pessoa ou pequeno grupo de pessoas. Aproveitam qualquer oportunidade para marcar posição de protesto. Eles necessitam de uma maior oportunidade para difundir suas ideias. O Brasil precisa ampliar o pluripartidarismo”, diz.

Para ela, é necessária mudanças na Lei Eleitoral, para que seja reduzida a desigualdade de tempo entre coligações de situação e de oposição em períodos de eleição, e uma reforma política que proporcione o ingresso de parlamentares que possam fazer oposição.