Mamães que enfrentaram o ‘risco’ e venceram

Em Manaus, mães contam como é gerar uma vida à beira do perigo que é uma gravidez de risco

Maria Luiza Dacio / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Você é mãe? Conhece alguém que tenha tido um bebê? Qual seu nível de conhecimento sobre gravidez? Uma criança nasce como uma semente de amor plantada no leito familiar, mas, nem sempre o processo evolutivo para o ‘fênomeno da vida’ é agradável para mãe e bebê.

Foi o que aconteceu com Paula Gabriele Monteiro Nogueira Guimarães. A história da administradora começou no dia 2 de janeiro de 2017: um planejamento invejável, com direito a uso de vitaminas, pré-natal e realização de todos os exames, deu início a sua primeira tentativa de ser mãe.

Paula Gabriele tomou injeções durante toda a gravidez (Foto: Divulgação/Sanittas Fotografia)

“Estava tudo indo muito bem, os ultrassons tinham bons resultados. Quando fiz a ultrassom morfológica do 1º trimestre, descobri que o bebê tinha parado de desenvolver, que o coração não estava batendo mais e não tinham muitas explicações. Na época, tinham me dito que um aborto era muito comum em uma primeira gravidez, mas, eu não aceitava justamente porque eu tinha me preparado muito. Tinha parado anticoncepcional, feito todos os exames, tomado todas as vitaminas. Tive o aborto retido e, com 25 dias depois que fiz a curetagem, eu fui para São Paulo”, iniciou.

Lá, Paula se consultou com alguns médicos especialistas em genética e imunologia da reprodução. Com os resultados em mãos, ela descobriu duas mutações genéticas que a diagnosticaram com trombofilia. Não se trata de uma doença, mas de uma condição com maior propensão à ‘ocorrência de eventos trombóticos venosos’. Traduzindo: uma tendência ao chamado ‘sangue grosso’, o que, na prática, contribui para o entupimento de veias.

No caso de gravidez, a trombofilia eleva as chances de trombose venosa e/ou formação de trombos na placenta, o que impossibilita a passagem de nutrientes para o bebê. “No meu caso, são duas mutações: a mutação no gene metilenotetrahidroxifolato redutase, conhecido como MTHFR, cuja principal ação é bloquear o processamento das vitaminas do complexo B, como o ácido fólico sintético, que é o vendido nas farmácias no Brasil”, disse.

“Eu precisava tomar uma vitamina que é a forma ativa do ácido fólico, chamada metilfolato, para garantir que meu organismo fosse receber a dose diária adequada da vitamina. Essa medicação, que, na época, não tinha no Brasil, eu precisava pedir dos EUA, mas logo depois que eu comecei a pedir, alguns laboratórios iniciaram a comercialização por aqui”, explica.

Paula então precisava tomar a versão ativa do ácido fólico porque essa mutação fazia uma ‘bagunça’ nas vitaminas do complexo B, que são de extrema importância para o desenvolvimento do bebê.

A outra mutação, chamada de Mutação do Polimorfismo no Gene do Pai 1, também interfere no processo de coagulação sanguínea e aumenta os riscos de doenças cardiovasculares e trombose. Cada uma das mutações, isoladamente, representa um risco trombótico baixo — o problema é quando elas estão associadas. “As duas combinadas aumentavam muito as minhas chances para trombose. Essa mutação produzia coágulos de sangue que impossibilitavam a passagem de nutrientes para o bebê. Por conta desse diagnóstico desde o início da gravidez eu tomava injeções de anticoagulantes diárias e, depois, por mais 30 dias, após o parto. As injeções aconteciam todos os dias, no mesmo horário. Eu tomava o AAS infantil e injetava o anticoagulante. Duas semanas antes do parto, que foi programado, eu parei com o AAS para o sangue não ficar muito fino. Com o anticoagulante parei apenas 24 horas antes do parto e retornei 24 horas após o parto, tudo isso para o meu sangue estar normal e eu não ter hemorragia”, contou.

(Foto: Divulgação/Sanittas Fotografia)

“Foi uma gravidez difícil por diversas questões. A primeira foi justamente pela dor de ter que furar a barriga todos os dias, além, é claro, do fator psicológico, pois eu já tinha perdido um neném e queria muito ser mãe”, disse. “Conheci outras histórias de várias mulheres que possuem a mesma mutação que eu. A maioria delas descobriu as mutações depois de três ou quatro perdas, tinham abortos de repetição e aí é que os médicos iam investigar a trombofilia. Eu sou uma pessoa muito inconformada, curiosa. Eu fui atrás logo após a primeira perda e, por isso, me considero uma pessoa abençoada”, disse.

Muito devota de Nossa Senhora, Paula prestou homenagem à santa e sua primogênita se chama Maria Vitória. “Nossa Senhora avisou em sonho para minha tia que eu estava grávida e mandou eu ir fazer o exame. Eu não tinha a mínima noção de que eu estava grávida porque, em março, eu havia tido a primeira perda e, já em agosto, estava grávida. Muitas coisas podiam acontecer por conta das mutações, como eclâmpsia, diabetes gestacional, a bebê poderia ter baixo peso e não se desenvolver bem por conta da restrição placentária, mas não aconteceu nada. Engordei apenas 9kg. O parto foi bem tranquilo e a termo, onde o bebê nasce no tempo certo e eu não tenho dúvidas de que tudo ocorreu bem pela intercessão de Nossa Senhora”, explicou.

“Era uma batalha diária, desde o acordar até o dormir. Eu sempre estava tensa, mas muito confiante que venceria. Era uma gravidez de alto risco, mas nós vencemos a trombofilia. Acredito que tudo tenha um propósito, aprendi com a minha gravidez que diagnóstico não é destino e que tenho uma missão de alertar outras mamães para que elas possam também vencer a trombofilia”, concluiu.

Depois dos 40

No seu segundo casamento, já mãe de Amanda, 21, e Ananda, 15, a esteticista Andrea Batista de Oliveira, não esperava que aos 41 anos fosse ter que trocar fraldas novamente. Ela conta que descobriu a gravidez com quase um mês de gestação.

“Eu tive infecção urinária e fui ao médico. Lá, me passaram um medicamento e eu segui todas as ordens. Quando passaram duas semanas, eu tive novamente infecção, fiz um exame e descobri que estava grávida. Tem muitas mulheres que, quando estão grávidas, no começo, elas sofrem com essa infecção. Em nenhuma outra gravidez eu tive”, explicou.

Andrea conta que teve infecção três vezes durante a gravidez. “Essa última foi tão ruim, que eu tive dores muito fortes. Quase tive um aborto, mas repousei e fiquei sem fazer atividades domésticas. Tomava mais de três litros de água e me alimentei melhor”, disse a mãe, que também estava acima do peso e não podia engordar mais. A decisão foi cortar comidas muito salgadas e evitar doces, além de tirar o pão e ter acompanhamento nutricional.

“Fiz todos exames, cuidei muito bem tanto de mim, quanto do meu filho. Com 38 semanas, o quadro demonstrava que o bebê estava com pouco líquido e eu com glicose alta. Redobrei os cuidados, tomei muita água e o líquido regulou. Com 40 semanas, senti as contrações pela primeira vez e, quando fui ter o neném, a pressão alterou um pouco. Fiz a cesária e, na hora da cirurgia, senti falta de ar e quase desmaiei”, conta.

Hoje, a mãe e Antonio, de apenas 3 meses, estão bem e saudáveis. Com essa gravidez, Andrea deixa uma dica para as mamães com mais de 40 anos: “Façam o pré-natal. Obedeçam o médico, cuidem da alimentação tanto da mãe, quanto do bebê”, finalizou.

Alto risco: pré-natal, cuidados e acompanhamento

Uma infinidade de doenças levam a um pré-natal de alto risco. Gemelaridade (gravidez múltipla / gêmeos, trigêmeos etc.), síndromes hipertensivas na gravidez, pacientes com aborto e infecção urinária de repetição, HIV, diabetes, alterações de tireoide, alterações cardíacas, doenças autoimunes, pacientes com histórico de câncer e coagulopatias. “Em relação à idade, não classificamos como tão grave quanto as outras. Mas, os extremos, como acima de 40 anos e em adolescentes, nós tendemos a ter um pouco mais de cuidado”, explica o médico.

Cada uma dessas alterações possui tratamentos diferentes. Na gravidez de alto risco, o acompanhamento precisa ser mais próximo porque em pré-natais normais até o 8º mês, as consultas são mensais e, nesses casos, as consultas acabam sendo quinzenais e, ao final, até semanais. “Os exames de sangue se tornam mais frequentes e as ultrassons também”, disse o obstetra Antonio Manoel Pimenta (CRM 9616).

O pré-natal de alto risco tem um acompanhamento intenso, pois a proximidade entre a paciente e o médico tem que ser maior e os cuidados bem maiores. “Além dos problemas que a diabetes em si pode causar, na gravidez, os bebês podem crescer muito, ter uma produção aumentada de líquido amniótico, má formação no coraçãozinho e na coluna. Fora isso, corre o risco de, logo após o nascimento, ter hipoglicemia, que pode levá-lo a óbito”, explica.

Os cuidados com a dieta são muito importantes para essas mães. “Uma dieta com pouco açúcar, carboidratos, exames. A gente usa, nesses casos, tratamento com insulina, mas, hoje, estudos comprovam que algumas medicações orais podem ser utilizadas na gravidez”, diz.

Na gestação depois dos 40 anos, a mãe tem uma chance maior de desenvolver pre-eclâmpsia, eclâmpsia. “Tem uma chance maior de ter eventos trombóticos e alterações cromossômicas na gestação. Algumas dessas alterações são incompatíveis com a vida, pois, normalmente, essas evoluem para o abortamento”, relatou.

Inseguranças e mitos atrapalham gravidez

A erosão é a perda da estrutura dentária ocasionada por ácidos que não são de origem bacteriana. Refluxo, alimentos muito ácidos ou distúrbios que causam vômitos frequentes podem levar a esse quadro, que é comum em grávidas e crianças.

A remoção da causa é a base do tratamento, mas, em estágios iniciais, a utilização de cremes dentais com componentes específicos, como o fluoreto estanhoso e outras tecnologias, ajudam bastante.

“Doenças periodontais são doenças bucais. Elas podem ser a gengivite ou periodontite, que são inflamações que acometem a gengiva e as estruturas de suporte do dente, respectivamente. Nas que acometem os tecidos de suporte, são liberados componentes químicos no nosso corpo que funcionam como mediadores desse processo inflamatório e, nessa inflamação de tecidos de suporte do dente, não é diferente”, explica o odontologista Diego Cordeiro (CROAM 4572).

O que acontece é que, quando há a inflamação de maneira exacerbada, esses componentes são liberados na corrente sanguínea e podem chegar até a região placentária, podendo causar algumas interferências durante o processo de formação do feto, fazendo com que ele fique com baixo peso ou que a mãe entre em um quadro de prematuridade.

“Além disso, nós que trabalhamos com gestantes, nos deparamos com um problema: o medo da gestante de receber o tratamento odontológico. Por uma questão de difusão de conhecimento, elas acreditam que materiais e medicamentos usados durante o procedimento podem causar uma interferência. Mas é cientificamente comprovado que há essa possibilidade de utilização, como, por exemplo, de anestésicos, medicações para o dente etc. Existe uma classificação de medicações sem risco e são essas as utilizadas”, disse.

Outro medo comum às mamães, é em relação à submissão aos exames radiográficos. A questão é que, se utilizado o avental de chumbo, que é a proteção plumblífera, pode ser feito sem nenhum problema porque o próprio avental faz a proteção do feto ou embrião das radiações que são liberadas pelo aparelho.

Porém, é importante saber que elas podem receber o tratamento em qualquer trimestre. “O primeiro é o mais crítico e o que precisa ser visto com mais cautela porque é quando os órgãos do bebê estão começando a ser formados. Então, qualquer tipo de interferência nesse início de processo de formação pode ser prejudicial”, afirmou.

Os períodos mais seguros de realizar tratamento seriam o segundo ou terceiro trimestres. Devido às alterações hormonais, humor, enjoos pelo creme dental e mudanças de hábitos, é comum que as grávidas não procurem, evitem ou diminuam os processos de escovação e isso pode levar facilmente a um caso de gengivite ou periodontite”, explica.

Outro problema recorrente é a erosão que é provocada se a mulher tiver muito enjoo, fazendo com que cause uma desmineralização nos dentes e isso possa, dependendo da intensidade, causar maior sensibilidade nos dentes e alterações mais severas, comprometendo a estrutura dentária. “Se essa erosão for diagnosticada cedo existem alguns produtos ou até mesmo cremes dentais com componentes específicos que a gente pode utilizar para poder diminuir os efeitos que a erosão pode causar no dente”.

O ideal, para Diego, é que antes de todos os processos de gravidez que fossem planejados, houvesse um planejamento, também, em relação aos cuidados bucais, já que isso pode causar alguma alteração no processo de formação do bebê. “A questão é que nem todos o processos de gravidez são programados. Às vezes, a mulher descobre que está grávida com diversos problemas bucais e esses problemas precisam ser sanados. Por isso que a gente avisa com insistência que haja um acompanhamento de pré-natal odontológico, além do acompanhamento médico. Justamente para evitar, que esses problemas surjam durante a gravidez e por conta do medo”, finalizou.