Diversidade marca nova geração da literatura juvenil

Personagens 'reais' que quebram estereótipos ganham força e espaço em obras voltadas para essa faixa etária

Gabriel Machado / plus@diarioam.com.br

Manaus – Em ‘Quinze dias’, Felipe é um adolescente acima do peso e gay. Ele é, também, o protagonista do livro escrito pelo mineiro Vitor Martins — lançado pela editora Globo, em junho deste ano. O personagem se encaixa na (ainda) escassa lista de mocinhos e heróis que conduzem narrativas voltadas para o público juvenil, no Brasil. Com a boa recepção de ‘Quinze dias’ e outros títulos que exploram a diversidade de seus protagonistas, seja étnica ou sexual, a tendência é que muitos Felipes ainda surjam neste segmento literário.

A escassez de personagens de outras etnias e orientações sexuais em livros juvenis é uma preocupação que tem gerado debate no meio literário (Foto: Sandro Pereira)

Para a escritora, tradutora e editora Sofia Soter, a importância da representatividade em livros juvenis é óbvia. Afinal, os jovens brasileiros — e do mundo — possuem experiências e identidades diversas. “É importante dar a todos eles a oportunidade que jovens brancos-heterossexuais-cisgêneros-ricos costumam ter na literatura. Isto é, a oportunidade de ver em um personagem um reflexo, uma conexão”, diz a escritora, em entrevista à revista PLUS.

A diversidade na literatura nada mais é que um retrato da realidade, aponta a jornalista e autora Olívia Pilar. “Por muito tempo, essa realidade foi esquecida dos livros juvenis, muitas vezes, por não ser considerada atraente. O fato de que autores que trazem essa representatividade para suas histórias estejam conseguindo reconhecimento, muito pequeno ainda, a meu ver, mostra que não somente os leitores estão procurando por esse tipo de história, como, também, o mercado pode estar se tornando mais receptivo”, destaca Olívia.

Em se tratando de jovens leitores, essa pluralidade se torna ainda mais importante, como expõe o escritor e artista visual Alliah: “A importância (da diversidade) é dobrada com este grupo, porque eles estão em processo de formar sua identidade, descobrindo a si mesmos e experimentando muita coisa nova. Se um jovem negro bissexual, por exemplo, está em conflito porque não encontra ninguém similar a ele na escola ou onde vive, ver-se representado de forma positiva num livro pode ser um divisor de águas”, frisa.

Receptividade

Se, antes, havia dúvida se o público-alvo consumiria esses tipos de história, essa incerteza não existe mais. ‘Quinze dias’, por exemplo, figurou durante semanas entre a lista dos mais vendidos da Amazon. ‘O ódio que você semeia’, de Angie Thomas, também teve uma venda expressiva e encabeçou o renomado guia de best sellers do The New York Times.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A obra aborda um tema bastante polêmico. A partir do ponto de vista de sua protagonista, uma jovem negra, o leitor acompanha arcos que retratam a violência policial contra a população afrodescendente nos Estados Unidos.

“Esses (‘Quinze dias’ e ‘The hate u give’) são apenas alguns exemplos mais recentes e que, claramente, fazem parte de um movimento bem maior. Leitores que não costumam se ver representados na literatura — ou potenciais leitores que não se animam com a oferta — são atraídos por obras escritas por pessoas como eles e sobre pessoas como eles”, explica Sofia.

Plataformas de publicação

Outro fator que tem contribuído para o crescimento de livros e contos que abraçam essa diversidade dos personagens são as plataformas em rede para autores (independentes, principalmente) publicarem suas obras — casos da Amazon e do Wattpad, que permitem que escritores divulgem seus trabalhos nos formatos de e-books e histórias on-line, respectivamente.

“Penso até no fenômeno de autores publicados que escreveram fanfic como ligado a essa questão, pois a escrita dessas histórias de fãs é uma forma de transformar o material narrativo tradicional em algo que represente outras realidades, seja destacando uma personagem mulher que, no filme, é secundária ou tornando personagens supostamente brancos de um livro em negros, por exemplo”, ressalta Sofia.

 

Olívia, que publicou os contos ‘Entre estantes’ e ‘Tempo ao tempo’, pela Amazon, e escreve uma história pelo Wattpad, é prova viva dos benefícios que essas plataformas trouxeram a novos autores. “Infelizmente, o mercado editorial ainda é muito complicado, então, novas formas de publicação independente fazem essa ponte entre autor e leitor. Acho que isso possibilita que autores consigam colocar no mundo histórias que eles querem muito contar e que talvez não tenham abertura ou uma forma de chegar até as editoras”, acrescenta a jornalista.

As formas on-line de publicação também são vistas com bons olhos por Alliah. De acordo com o artista visual, elas facilitaram, diversificaram e baratearam o acesso a esses trabalhos que exploram a pluralidade de seus personagens.

“Muitos autores adolescentes, por exemplo, gostam de experimentar publicar histórias em capítulos no Wattpad para ter o prazer e as vantagens da interação direta com o público ao responder comentários e, talvez, fazer alterações nas narrativas, conforme sugestões e críticas dos leitores. É uma dinâmica bem diferente de sentar, escrever 80 mil palavras e ir à caça de uma editora. Há tantos caminhos que passam pelo independente e pelo digital. Tudo isso facilita a entrada de novos autores no mercado e a oferta de novas histórias para os leitores”, resume.



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