Lázaro Ramos exibe ponto de vista sobre discriminação e formação de identidade

'Na Minha Pele' fala sobre tomada de consciência e afeto

Estadão Conteúdo

Na Minha Pele é um caldeirão no qual se misturam autobiografia e diário (Foto: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo)

São Paulo – Foram dez anos de maturação, período marcado por muitas dúvidas, algumas certezas, mas uma convicção: estabelecer um diálogo franco com os leitores sobre pluralidade cultural, racial, étnica e social. Um trânsito de gêneros que também marca a carreira de seu autor, Lázaro Ramos – aos 38 anos, ele não só se consolidou como um dos principais atores brasileiros como também solidificou a imagem do artista preocupado com questões da sociedade. É o que marca Na Minha Pele, livro que a Companhia das Letras lança na próxima semana e no qual Lázaro convida o leitor para uma conversa franca, mas agradável, na qual compartilha suas experiências pessoais e, principalmente, suas reflexões sobre temas caros, como a importância que se dá à pele que nos habita.

“Quando comecei, nem sabia qual era o assunto sobre o qual iria escrever”, comenta Lázaro, convidado há dez anos por Isa Pessoa, então editora da Objetiva, para publicar um livro. “Primeiro, busquei dados oficiais (do IBGE, Ipea), mas o livro ficou duro. Voltei então à ilha do Paty, onde nasci, na Bahia, para conversar com amigos de infância e parentes mais velhos, a fim de buscar inspiração. Começou a surgir uma costura de assuntos, mas a ordem cronológica me incomodava – parecia uma palestra.” O clique surgiu a partir da experiência com o programa Espelho, que Lázaro apresenta há 12 anos no Canal Brasil e no qual assuntos pertinentes são tratados por meio de uma boa conversa.

Na Minha Pele, portanto, é um caldeirão no qual se misturam autobiografia e diário, costurados por uma escrita sincera, que impressiona por tocar em assuntos delicados de forma direta, por falar de intimidades que incomodam e emocionam. Lázaro conta que o nascimento dos filhos João Vicente e Maria Antônia, além de seu casamento com Taís Araújo, atriz que cada vez mais conquista respeito pela solidez de seus argumentos, foram momentos que o ajudaram a consolidar a forma de pensar questões urgentes para sua vida e para o Brasil, país cada vez mais desigual. Sobre a obra, Lázaro conversou com o jornal “O Estado de S. Paulo”, na quinta-feira, 8, em São Paulo.

O livro ora se parece com uma biografia, ora um diário, mas muitos fatores foram decisivos na sua escrita, como o nascimento de seus filhos, não?

Se esse livro tivesse ficado pronto antes, não seria o mesmo. O nascimento dos meus filhos mudou minha narrativa, a maneira de eu contar o mundo, as dores que sinto, as alegrias, as expectativas. E, do meio para o fim, o livro foi escrito no último ano e sem nenhuma expectativa de ser uma verdade absoluta – é uma conversa em andamento. Principalmente porque apareceram assuntos que me fizeram pensar, como um movimento na internet que estimula o pensamento. Há uma juventude hoje que fala do empoderamento e também sobre o próprio feminismo que me faz pensar em muita coisa.

Você e Taís causaram comoção nos diversos teatros em que apresentaram a peça No Topo da Montanha, sobre Martin Luther King. O espetáculo também mexeu com vocês?

A peça mexeu pelo contato com as pessoas, pelas histórias que a gente ouviu e pelo exercício de narrativa. É um jeito de se comunicar e uma estratégia, quando se fala em público-alvo, para se ter um público muito diverso – a peça nos deu algumas pistas

Mas, no livro, quando trata da peça, você descreve um debate com o público que não foi bom, com questões ruins.

Eu não precisava fazer um elogio, lembrando que a peça transformou um público de mais de 80 mil pessoas. Isso a imprensa, as redes sociais já fizeram. No livro, prefiro falar sobre o que pensei e que não foi acessado pelas pessoas. A alegria que tenho ao fazer a peça é super acessível, nos números de público, nos vídeos que fazemos na rede social. A escolha foi a de compartilhar um sobressalto existente mesmo em um momento de celebração. Porque isso descreve um comportamento de vida que é meu e eu não gostaria de ter, mas que está só aqui.

O livro é rico em citações, que contribuem para o debate. O pensador Muniz Sodré, por exemplo, comenta sobre a presença do negro na publicidade como uma questão de reconhecimento mercadológico, baseado no politicamente correto.

E agora já existem dados estatísticos sobre isso. Há um instituto brasileiro, do qual ainda não recebi uma pesquisa, que faz uma associação direta do crescimento econômico de uma empresa que tem maior diversidade, não só ética. Minimamente, as empresas que adotaram essa política cresceram 43% no mercado, o que gerou mais renda, conseguiu atingir um público novo e descobriu como falar melhor com esse público. A publicidade já vem percebendo isso.

Faltariam no Brasil movimentos negros como os americanos Black is Beautiful e Black Power?

É difícil falar porque pareceria que estou recorrendo a uma solução efetiva. Acredito que o problema de desigualdade e preconceito no Brasil é tão grave que todas as medidas são necessárias e eficientes à sua maneira. É preciso encontrar o que é possível para cada indivíduo – às vezes, pode existir uma cartilha de correção que aponta como correta determinada militância. Não é fácil encontrar um modelo. Somos seres humanos e cada um vai ter uma possibilidade e um caminho. E, às vezes, surgem caminhos novos que não experimentamos nem sabemos se são possíveis. Temos que avaliar ainda a cultura na qual estamos inseridos. Vivemos em um país capitalista? Sim. Como colocar a questão da igualdade nesse país? O que atacar primeiro? Vivemos em um país onde discursos conservadores têm permanecido e onde a religião católica não é mais a única voz. O que fazer? Não dialogar com outras correntes religiosas? Estamos em um momento de nova alfabetização. Intuo que estabelecer diálogos, incluir pessoas nessas conversas, é um caminho. Por isso, tenho me colocado como um provocador de diálogos. O Topo da Montanha é isso: provoca diálogo e mostra que não se deve abrir mão de falar sobre as coisas. Assuntos não são sonegados. Falamos do genocídio do jovem negro, do silenciamento da mulher, mas por meio de uma narrativa que fomos encontrando.

Entre os negros, ainda há uma parcela que tem dificuldade de assumir sua cor de pele.

É natural. Toda ação provoca uma reação. Quando você assume sua negritude, pode ter alguma consequência. Há benesse, benefícios. Mas não vivemos em uma sociedade que permite cada um se assumir e viver bem. Há muitos homossexuais que não se assumem. Vou recriminar? Não. A gente pensa muito em militância, em atitude política, algo isolado do ser humano, das nossas dores e da psicologia. Precisamos dar conta disso também. É muito importante ter uma boa saúde mental.

 



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