Olhar do Norte para refletir e discutir

Festival, que acontece entre os dias 25 e 29 deste mês, no Les Artistes Café Teatro e no Teatro da Instalação, explora os mais variados temas, desde a questão feminista à realidade social do País

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Entre os dias 25 e 29 de janeiro, o Les Artistes Café Teatro (Avenida 7 de Setembro, 377, Centro) e o Teatro da Instalação (Rua Frei José dos Inocentes, s/nº, Centro) se tornarão ambientes para reflexão e debate sobre temas recorrentes no Brasil e no mundo. Isso porque, neste período, esses espaços culturais receberão a primeira edição do Festival Olhar do Norte. Organizado pela Artrupe Produções, o evento contará com um total de 38 curtas-metragens.

Divididas em quatro mostras distintas (Amazonas, Região Norte, Amazonas Retrospectiva e Outros Nortes), as produções selecionadas exploram os mais variados assuntos, desde a questão feminista e de gênero à realidade social do País. “Essa foi a primeira curadoria que fizemos e um desafio extraordinário, que espero que se repita o quanto antes. Pudemos ter acesso de forma ampla à produção amazonense e a dos nossos vizinhos da Região Norte, enxergando muitas maneiras de pensar cinema”, pontuou Diego Bauer, um dos organizadores do festival.

“Desde curtas voltados para as questões da floresta, do cotidiano nas comunidades rurais, até filmes urbanos experimentais, sempre era possível enxergar uma característica própria, diferenciada. Creio que as produções selecionadas são o retrato dessas diversas abordagens e temáticas, que se mostram diversas e abrangentes”, prosseguiu.

Organizado pela Artrupe Produções, o evento contará com 38 curtas (Foto: Divulgação)

No curta ‘Leco’, por exemplo, o diretor Augustto Gomes aborda a realidade da violência urbana. Na trama, o personagem-título é um jovem abandonado pela mãe, quando criança, e que mora em uma quitinete, na periferia de Manaus. A partir deste cenário, o público acompanha a ingressão do protagonista ao mundo do crime e das drogas. “A intenção é que (a produção) faça as pessoas refletirem sobre essa realidade, ao invés de apontar o dedo e falar que ‘bandido bom é bandido morto’. Temos que questionar: como aquela criança virou bandido?”, explicou o cineasta.

A questão da identidade de gênero — reacendida com a personagem Ivana, na novela ‘A Força do Querer’ (2017) — também está presente no line-up do festival. Em ‘Meninex’, o diretor Tarcisio Gabriel instiga o público a partir do título. “O próprio nome do curta faz essa brincadeira com a questão do gênero. Ele (o título) pode ser entendido e pronunciado de diversas maneiras, depende de cada pessoa”, disse o cineasta. Na história, Cris é um garoto transgênero que, após ir a uma festa, precisa lidar com escolhas difíceis que podem mudar sua vida para sempre.

“Minha intenção (com a produção) é gerar debate e criar questionamentos. A identidade de gênero é um assunto que ainda incomoda muita gente, então, é de extrema importância que exista esse diálogo, essa reflexão. São questões que podem ser normatizadas, mas que precisam desse debate para que aconteça”, destacou Tarcisio.

Luta feminina

No amapaense ‘Carta sobre o nosso lugar – Mulheres do Vila Nova’, a luta feminina é evidenciada através da história de mulheres que trabalham em um garimpo, no interior do Estado. “Quando pensamos em garimpo, automaticamente, associamos a um trabalho feito por homens. É importante falarmos sobre esse tipo de serviço através da fala e do olhar das mulheres. Até mesmo porque, para mim, elas são referência”, frisou a diretora Rayane Penha, ex-moradora do local retratado no curta-documentário.

“Fui (gravá-lo) com uma ideia em mente e, quando cheguei lá, acabei mudando tudo, pois, também, virei uma personagem. Várias lembranças da minha infância foram revividas durante a produção de ‘Carta sobre o nosso lugar’”, revelou a cineasta. “Nós, mulheres, temos que nos afirmar em todos os espaços. Então, é de extrema importância criarmos esses lugares para que as mulheres possam falar e contar suas histórias. Fomos caladas e esquecidas durante muito tempo, principalmente, no cinema brasileiro, mas estamos em uma crescente”, completou.

Riqueza histórica

Outros curtas, como no caso de ‘O Caminho das Pedras’, desempenham um papel importante de resgate à história e à cultura dos lugares em que foram produzidos. Dirigida pela dupla Alexandre Nogueira e Fernando Segtowick, a produção revisita um antigo conto do município de Ananindeua (PA), em que um conde tem três filhas com uma de suas escravas. As meninas ficaram popularmente conhecidas como ‘As três Marias’.

“A história conta que ele (o conde) construiu uma casa para essa escrava. No entanto, para chegar lá, tinha que andar por um caminho cheio de lama. Por conta disso, o conde mandou seus escravos construírem um caminho de pedra. E esse caminho ainda existe”, ressaltou Alexandre Nogueira. “O quilombo retratado no curta existe há, mais ou menos, 300 anos e seus habitantes são descendentes dessas três Marias. Mais que para o público, o filme é para essa comunidade, em particular, lembrar da sua história e do amor que seus moradores têm por essa terra”, acrescentou o cineasta.

Novas linguagens

Não é somente na variedade de temas e gêneros que o Festival Olhar do Norte chama a atenção. As novas linguagens trabalhadas em alguns de seus curtas-metragens também merecem destaque. Em ‘Antigamente Não Existia Dia’, o diretor Mário Costa trabalha com o realismo fantástico e efeitos especiais para retratar a lenda indígena que mostra o nascimento da noite. “O filme possui poucos diálogos e é conduzido pelos sons e pela música (assinada por Leo Chermont)”, adiantou Mário.

Apesar de fugir ao tradicionalismo, o cineasta acredita que ‘Antigamente Não Existia Dia’ não causará estranhamento no público. “Por conta da globalização, as pessoas já tiveram contato com essa linguagem mais diferenciada”, defendeu. “Pegamos o que temos de mais atual e fizemos o curta, bebendo, é claro, da fonte das nossas lendas”.

Divididas em quatro mostras distintas (Amazonas, Região Norte, Amazonas Retrospectiva e Outros Nortes), as produções selecionadas exploram os mais variados assuntos, desde a questão feminista e de gênero à realidade social do País (Foto: Divulgação)

Importância

Para o diretor amazonense Lucas Martins, do curta-metragem ‘Barulhos’, iniciativas como o Festival Olhar do Norte têm um impacto importante na sociedade. “O evento é uma nova brisa para a cultura daqui. Será mais um espaço para as pessoas terem a oportunidade de assistir a produções feitas por profissionais daqui e entrar mais em contato com o cinema amazonense. Além disso, é uma chance dos próprios cineastas criarem uma ‘ponte’ com esse público”, afirmou.

‘Barulhos’ é o primeiro curta que Lucas dirigiu e, até o momento, a produção já foi exibida em cinco festivais. A história, que mistura suspense com elementos de ficção científica, acompanha um homem que, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, quer apenas uma coisa: dormir. Porém, ao se deitar na cama, o protagonista começa a ouvir barulhos no interior de sua residência. A partir daí, ele tenta fazer de tudo para descobrir quem, ou o que, esta fazendo estes barulhos. E se ele realmente esta sozinho em casa.