Conversa de velhos: ‘Ai, meu Deus, só Jesus na causa!’

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Diariamente, de manhã cedo, ouço centenas de vezes essa frase na Academia da Terceira Idade (ATI), na praia de Icaraí, onde faço exercícios físicos com outros velhinhos. Lá tem uma senhora gasguita e tagarela, que fala, fala, fala pelos cotovelos, o tempo todo, fala mais do que a preta do leite. Enquanto se exercita nos aparelhos, narra sua vida, descreve cenas do cotidiano, comenta o noticiário e julga os políticos em evidência. Cada vez que muda de assunto ou faz uma pausa, usa o nome de Deus e de Jesus como um marcador, como um ponto e vírgula já em desuso: ai, meu Deus, só Jesus na causa!

É uma pena que o texto escrito não seja capaz de reproduzir aqui sua voz estridente, a melodia da frase, os tons variados, o sobe-e-desce das sílabas. Ontem, ela compartilhou com o público presente uma receita de bolo de cenoura. Fez uma advertência – anote, pode ser útil – de que a farinha de trigo deve ser mexida numa tigela ou batedeira e nunca ir para o liquidificador com as raspas de cenoura e os ovos. O forno deve ser aquecido a 220º C. Concluiu com o bordão: ai, meu Deus, só Jesus na causa.

O que ambos – Deus e Jesus – têm a ver com o bolo de cenoura, ninguém sabe. Entre uma receita e outra, entre um exercício e outro, a bola da vez é sempre o Lula por quem os “atletas” presentes manifestam ódio furibundo, sob a batuta de dona Nizete, cujo nome fiquei sabendo quando ela narrou a alegria de uma vizinha:

– Nizete, você viu os foguetes que soltaram pela prisão do Lula?

Ai, meu Deus, só Jesus na causa. Dona Nizete está tão obcecada quanto o Sérgio Moro e tem tantas provas contra o Lula como o juiz da Lava-Jato. Os parceiros de ginástica reforçam o que ela diz. Ouço calado, embora com o coração sangrando. Cansei, como o cangaceiro de Glauber Rocha, não por me faltar forças para o enfrentamento, mas porque não posso respeitar nem gastar energia com o que não evolui e nem engradece. Seria um bate-boca inútil. Ai, meu Deus, só Jesus na causa.

Acima da lei

No entanto, quem saiu para o embate foi um novo usuário, que ontem chegou arrasando. O velhinho, da minha idade, tem o physique du rôle: cara de hipponga meia-oito, rabo-de-cavalo, barba de vassoura branca e encrespada modelo Engels e bigode palha de aço tipo Nietzsche. Fez sua entrada triunfal neste seu primeiro dia, trajando camiseta vermelha provocativa com a cara de Lula, onde se lia: “Sem medo de ser feliz, Lula 2018”. O grupo ficou alvoroçado. Pisquei o olho cúmplice, enquanto o Meia-Oito se pendurava no alongador duplo.

– Ai, meu Deus, só Jesus na causa – exclamou dona Nizete, desafiadora, olhando para o intruso, depois de repetir a frase do Geraldo Alkmin e do ministro puxa-saco Carlos Marun, ex-defensor de Cunha e agora de Temer: “Ninguém está acima da lei”.

O Meia-Oito entrou de sola. Ele já se dirigia ao aparelho puxador costas com peitoral, mas parou, tirou do bolso uma página amassada de jornal, e exibiu cópia do recibo emitido pela Ibiza em 30 de março de 2015, referente a uma das prestações da reforma da casa de Maristela Temer, filha do dito cujo, com notícias sobre documentos que estavam na casa do Coronel Lima, receptor da propina de R$ 1 milhão em nome de Temer, segundo denúncias de executivos da JBS. O dinheiro era parte de um total de R$ 15 milhões de doação eleitoral repartido entre caixa 2 e repasse oficial.

– Ai, meu Deus, só mesmo Jesus na causa – ironizou o Meia-Oito, lembrando que Lula, ex-presidente da República, foi conduzido coercitivamente, enquanto já passaram 318 dias desde que a Polícia Federal chamou pela primeira vez o coronel Lima para prestar depoimento no inquérito que investiga Temer e ele permanece calado, sem ser ouvido.

Lava Jato

Começou um bate-boca, diante de um público do qual fazem parte senhoras da classe média abastada, militares reformados, algumas empregadas domésticas e um ou outro idoso sequelado que não entendia bem o que estava acontecendo, mas ouvia de quando em quando: “Ai, meu Deus, só Jesus na causa”. Parecia até alguns enfrentamentos que rolam no facebook, envolvendo muitas vezes pessoas da mesma família, sem paciência para escutar um ao outro.

Fiz um gesto para o Meia-Oito maneirar, mas ele não me deu a menor trela e prosseguiu seu discurso contundente, agora contra Aécio e Alckmin, respingando sobre o Poder Judiciário que, para ele, estava totalmente partidarizado. Já com um tom de voz elevado – ai, meu Deus, só Jesus na causa – perguntou por que a ministra do STJ, Nancy Andrighi, relatora do inquérito sobre o ex-governador de São Paulo decidiu enviá-lo para a Justiça Eleitoral de São Paulo.

Ficou sem resposta e concluiu com outra indagação relacionada ao silêncio do comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas que repudiou a impunidade na véspera do julgamento do Lula, mas permanece calado quando se trata de Temer – ai, meu Deus, só Jesus na causa – ou de qualquer político do PSDB – ai só Jesus na causa, meu Deus.