‘Mais que rachado, eu vejo o PSDB petrificado’, diz Arthur Virgílio Neto

 Prefeito de Manaus diz tentar quebrar a polarização interna entre os apoiadores dos projetos presidenciais do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do prefeito paulista João Doria

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Em entrevista ao UOL, o prefeito de Manaus e ex-senador Arthur Virgílio Neto, 71 anos, voltou a dizer que quer disputar a Presidência pelo PSDB. Na entrevista, disse que o senador Aécio Neves não tem mais condições de continuar na presidência do PSDB, que Alckmin é “paulistocêntrico” e que Doria não tem “legitimidade” para ser candidato à Presidência da República. Sobrou até para o deputado federal Jair Bolsonaro (PSCRJ), que, segundo o tucano, é “fascista” e “homofóbico”. Veja os principais trechos.

Arthur: O Alckmin precisa ser beliscado e acordar para as regiões Norte e Nordeste (Foto: Sandro Pereira)

 

UOL –  Seu partido está rachado e marcado por denúncias de corrupção. Por que o senhor quer ser candidato à presidência pelo PSDB?

Mais que rachado, eu vejo o PSDB petrificado. É um partido que ainda vive certos mitos como o de que as denúncias sobre corrupção atingiram os partidos ao redor, mas não ele mesmo. É um partido que não trabalha com ares vitoriosos em relação às eleições. Vi que o Doria vai ao Círio de Nazaré, em Belém, neste ano. É uma festa imperdível, mas ele vai lá pra fazer aquele show… Isso é uma coisa velha, caduca. Será que ele vai andar com os fiéis no Círio? Será que ele vai tocar na corda?

 

UOL – Por que, diante do racha entre Alckmin e Doria, o senhor decide se lançar como a terceira via dentro do partido?

Em primeiro lugar, eu tenho o objetivo de prestar serviço ao País. Prestar serviço à Região Norte, uma região relegada ao quinto plano na visão desse pessoal que governa a partir de São Paulo. A mesma coisa com o Nordeste. Não vejo empecilho em entrar no Rio de Janeiro. Quando a gente falar a sério sobre segurança, a gente esvazia o (Jair) Bolsonaro. Há um espaço enorme para crescer na medida em que a gente explicar tudo o que se pensa de verdade.


UOL – O senhor faz críticas a Doria, mas também se coloca como alternativa a Alckmin. Por que o governador de São Paulo, na sua avaliação, não poderia ser um bom candidato à Presidência?

Ele é uma pessoa que tem serviços prestados ao partido, mas também precisamos mostrar quais são as fragilidades do governador Alckmin.


UOL – E quais são?

Essa visão ‘paulistocêntrica’ dele. Ele já fez Adins (Ações Diretas de Inconstitucionalidade) para retirar incentivos fiscais e prejudicar a economia do meu Estado, de Goiás. Ele não entende de Amazônia. É cafona não entender de Amazônia. É out, pra usar linguagem de colunista. O Brasil sem a Amazônia seria um Chile mais gordinho. Um País sem grande expressão. O Alckmin precisa ser beliscado e acordar para as regiões Norte e Nordeste. Eles não olham. Eles tentam impedir a descentralização da indústria automobilística como se Moisés tivesse dito que a terra prometida desse setor fosse São Paulo.


UOL – Qual o peso das revelações da operação Lava Jato em relação a Aécio para a situação do PSDB?

Acho que o PSDB causou essa decepção como um todo. No caso do Aécio isso acontece porque ele foi protagonista de uma eleição em que ele terminou com 48% dos votos. Óbvio que ele virou uma esperança. Em 2014, ele veio a Manaus. Levei ele a um shopping. Fiquei com medo da reação das pessoas em relação a ele, mas, ao chegar lá, ele foi ovacionado. As pessoas saíram das lojas para cumprimentá-lo. Havia muito entusiasmo. Hoje, ele não teria condições de repetir essa visita ao shopping.


UOL – O senhor ficou surpreso em relação ao que foi revelado? O senhor acredita na versão dele?

Fiquei. Pedir empréstimo não é crime juridicamente, mas politicamente não é uma coisa positiva. E por lidar com uma pessoa como aquela (Joesley Batista), é um preço que ele vai pagar e vai pagar de maneira amarga. Agora, se você me perguntar sobre a situação dele, eu vou dizer que um senador que não foi condenado, não foi julgado, ser preso e com a restrição de não sair à noite… eu  acho que não foi a melhor decisão que o Supremo tomou e acho que o próprio Supremo vai acabar se entendendo com o Senado. Tanto o Senado quanto o Supremo estão muito desprestigiados. Agora, o fato é que ele (Aécio) perdeu densidade política.

UOL – O senhor acha que ele deveria deixar a presidência do partido?

Acho que já é uma coisa inevitável. O partido deveria se reunir e escolher um novo presidente. Alguém agregador, capaz de unir as pessoas. Que se dispusessem a cumprir esse trabalho. Não o vejo mais dirigindo o partido.

UOL – O PSDB erra ao compor o governo do presidente Michel Temer?

A questão não está em ter o ministro ou não ter. Está em se dispor ou não a efetivamente apoiar a agenda das reformas que o governo tem tentado fazer.  Mas, em nome das reformas, vale apoiar um governo com tantos integrantes investigados por crimes de corrupção? Então… Eu nem sequer discuto isso… Não há dúvidas de que o governo está mal politicamente. Mas o que nós vamos fazer? Vamos adiar as reformas, fazer oposição ao Temer, aceitar a denúncia e colocar o Rodrigo Maia no governo? E ele, por acaso, também não vai virar alvo? A gente vai passar este tempo todo até 2018 perdendo a oportunidade de fazer o crescimento econômico? Como é que faríamos essa travessia?

UOL – O senhor acha que Temer é a pessoa correta para fazer essa travessia?

Eu não acho que ele seja a pessoa correta. Ele está lá por acaso. Como foi acaso o Itamar (Franco), o (José) Sarney, o próprio Fernando Henrique. Mas a questão é política. Então, a gente deveria derrubar o Temer, depois derrubar o Rodrigo Maia, depois a gente derruba o Eunício (Oliveira), sei lá quem… E vamos chegar em 2018 com que Brasil? Essa é uma pergunta que eu me faço. A situação é muito grave. No dia em que o (Henrique) Meirelles acordar e pensar que já está de saco cheio, for embora e levar a equipe econômica embora, o que vai acontecer? Eu olho pro Brasil e vejo um cenário muito grave. Com a minha experiência, eu não posso deixar minha sensatez de lado.


UOL – Jair Bolsonaro está em segundo lugar na pesquisa de intenção de voto do Datafolha. Ele aparece como segundo colocado nas principais pesquisas sobre 2018. Qual sua opinião em relação a ele?

É um sujeito de caráter fascista, homofóbico e que solta os jargões e faz piadas sobre o Lula e a Dilma para ganhar voto. O que é pior, quando ele veio a Manaus, foi buscado no aeroporto por 2.000 pessoas. Elas foram lá espontaneamente. Jovens. E ele fica justificando tortura… Isso é a falência de todos os partidos. O Bolsonaro não aguenta um peteleco num debate com ninguém. Pelo menos, não comigo. Ele é uma pessoa que não merece ter 18% de votos, não terá e, se depender de mim, não vai ter nem 1% porque eu levo todos os votos dele de maneira sensata.

UOL – Como é que o senhor viu a aliança entre PT e PSDB em relação à salvação do Aécio?

Tem duas coisas aí. A primeira é que realmente soa como uma aliança espúria para proteger uma pessoa. Por outro lado, é preciso se discutir em profundidade sobre se foi correta ou não a decisão do STF, sobre se os poderes são independentes ou não. Agora, é uma pena que os atores estejam tão desacreditados.

UOL – Como o senhor avalia a postura de João Doria em relação ao MBL?

Eu acho que ele não deveria ser candidato. Acho que ele não tem legitimidade para ser candidato, não tem preparo. Ele vai dizer o quê? Que administrou a empresa dele? A empresa dele nunca produziu nada. A empresa dele produzia eventos com empresários e propunha algumas benemerências. E sempre com auxílio de governos de Estados e municípios. Não dá pra compará-lo com um Antônio Ermírio de Moraes, com um Abílio Diniz. Ele não tem vivência. Não tem cacife do plano privado e nem vivência pública para pleitear a Presidência da República. Está pleiteando por pura vaidade pessoal. Se embebedou com o poder. Em São Paulo, as pessoas já começam a reclamar. Ele tem nove meses de governo e o que ele fez muito foi mexer no Twitter, no Facebook e no Instagram.



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