PF faz novo alerta sobre a participação de facções nas eleições e inclui o Amazonas

Torquato Jardim diz que, caso haja algum indício, haverá investigações. Por ora, os policiais estão 'olhando com lupa' situações de risco em Estados como Ceará, Amazonas e São Paulo e Rio

Da Redação / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Um relatório sigiloso da Polícia Federal (PF), levado na última semana ao Ministério da Justiça, reafirma os riscos de parcerias entre políticos e chefes do narcotráfico para as eleições deste ano, especialmente no Rio de Janeiro. O documento foi encaminhado seis meses após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) emitir o mesmo alerta. “Além do risco de criminosos elegerem um representante direto, há o perigo destas organizações interferirem para impedir a campanha de candidatos que não sejam apoiados por traficantes e milicianos”, sustenta a PF, no relatório encaminhado ao ministro Torquato Jardim, segundo informações do jornal ‘O Globo’.

De posse do relatório, o ministro afirmou que o maior risco se dá sobre o sistema de financiamento eleitoral, concentrado hoje em doações de pessoas físicas. “Há, sim, preocupação com o crime organizado pela sua capacidade de mobilização e de inibição de conduta diversa (nas áreas comandadas por eles). Agora, qual é a quantidade de votos que isso pode mobilizar? Ninguém sabe, ainda é uma especulação. Qual a possibilidade de eficácia da ação deles? Ninguém sabe – disse o ministro, admitindo que o governo não mapeou o poder do crime nas eleições”.

José Melo foi acusado, em 2014, de negociar o apoio de uma facção criminosa à sua reeleição (Foto: Sandro Pereira)

Torquato Jardim diz que, caso haja algum indício, a PF abrirá investigações. Por ora, os policiais estão “olhando com lupa” situações de risco identificadas em Estados como Ceará, Amazonas e São Paulo, além do Rio.
O ex-governador do Amazonas, José Melo (PROS), foi acusado, em 2014, de negociar o apoio de uma facção criminosa a sua reeleição, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus. O presídio foi palco de uma guerra entre grupos organizados que resultou na morte de 56 detentos.

Um diálogo gravado entre o então subsecretário de Justiça do Amazonas, major Carliomar Barros Brandão, e o traficante José Roberto Fernandes Barbosa, um dos líderes da facção, veio à tona durante a campanha eleitoral. A gravação foi divulgada pela revista Veja e pelo jornal Folha de S. Paulo. No áudio, o traficante promete até 100 mil votos a Melo para que ele não os “prejudique”. O representante do governo diz que “ninguém vai mexer” com os criminosos. Melo exonerou o major Brandão do cargo e informou na ocasião, em nota, que iria apurar “a veracidade do conteúdo da gravação”. “A mensagem que ele (governador) mandou pra vocês, agradeceu o apoio e que ninguém vai mexer com vocês, não”, diz, no áudio, o major Brandão.

A situação do Rio é ainda mais grave em relação a outros Estados porque, na década passada, as milícias já haviam obtido sucesso eleitoral, elegendo deputados e vereadores. A investigação da CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa, levou à perda de mandatos e prisão do ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho; e de seu irmão, o ex-deputado estadual Natalino Guimarães. Filha de Jerominho, Carminha Jerominho chegou a ser afastada da Câmara, mas conseguiu derrubar a decisão no TRE-RJ e terminou o mandato, em 2012.

Políticas públicas

Segundo o documento da PF, a partir das parcerias ou da eleição de representantes diretos, as organizações criminosas tentam interferir na ocupação de cargos e até na elaboração de políticas públicas. “Uma vez infiltrados na política, criminosos poderiam influenciar decisões nas instituições públicas e participar da partilha dos cargos, eventualmente até em cargos da área policial”, diz a PF.

O ministro Gilmar Mendes, que presidia o TSE quando enviou o alerta às autoridades de investigação e inteligência, lamentou que o assunto não tenha sido tratado como prioridade. “É preocupante (que nada tenha sido feito). O Brasil perdeu a noção de prioridade. O que acontece no Rio é só um exemplo, porque há problemas nesse campo em vários outros Estados. Aquela resposta que estávamos buscando nós não obtivemos. Queríamos a relação de candidatos que foram beneficiados em determinados locais e nisso não se avançou”,- afirmou o ministro ao jornal O Globo, acrescentando: “ Na verdade, temos o crime organizado e o Estado desorganizado. E não podemos falar isso só do Rio de Janeiro”.

O relatório de dez páginas da PF entregue ao ministro da Justiça pode definir a estratégia de atuação do órgão nas eleições deste ano. Porém, os policiais até o momento dizem que não identificaram nenhuma situação de apoio direto de organizações criminosas a candidatos.

Porém, em outro trecho, a PF alerta para o risco de interferência no financiamento de campanhas. “Existe a possibilidade da utilização de laranjas para lavar doações não permitidas por lei” e de “organizações criminosas ou milícias” que possam financiar ilegalmente as campanhas.



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