Taquiprati: Amazonino na Ucrânia e os mistérios de Kiev

Amazonino Mendes viajou, em 1997, para a Ucrânia, numa misteriosa missão. Na ocasião, a coluna Taquiprati seguiu-lhe os passos e contratou o detetive particular Tarass Chevchenko, para o trabalho que ele considerou como o mais difícil de sua vida profissional: descobrir o que o governador do Amazonas ia fazer lá por aquelas bandas. O resultado, publicado há vinte anos, merece replay, agora que o personagem volta à ribalta.

Naquela manhã fria de maio, Chevchenko, inquieto, não desgrudava o olho do portão de desembarque do Aeroporto de Borispol, em Kiev. De repente, entre os passageiros que saíam discretamente, viu um pequeno grupo falando alto e gesticulando muito. O que parecia ser o chefe, coçou o saco e palitou os dentes. Os outros três o imitaram. Aí, Chevchenko não teve mais dúvida: “São eles”, disse baixinho.

Eram eles mesmos: Amazonino Mendes, Atila Lins, Samuel Hannan e Ronaldo Tiradentes. Os quatro procediam de região longínqua do Brasil, a Sibéria brasileira. Ninguém sabia exatamente que diabos faziam ali, já que a Ucrânia não tinha um centavo investido na Amazônia. De outro, amazonenses não tinham interesses na Europa Oriental. Não havia possibilidades de qualquer troca comercial. Afinal, o que aqueles quatro vieram fazer em Kiev, viajando com passagens e diárias pagas pelo pobre contribuinte amazonense?

O detetive, falando português com sotaque lisboeta, enganou-os apresentando-se como agente de turismo. O porta-voz do grupo, Tiradentes, perguntou onde é que podia tirar água do joelho. Ficou deslumbrado ao entrar no “banheiro inteligente” do aeroporto, todo computadorizado. Mijou. Depois, não conseguia abrir a porta. Preso no toalete, gritava desesperado: “A porta, a porta”. Chevchenko aconselhou: “Ela abre automaticamente, mas só se puxar a descarga”.

Depois da lição sanitária, todos entraram no carro. A delegação se hospedou no Hotel Dnipro, na rua Kirov. O detetive havia grampeado os quartos: um microfone no bidê, outro no telefone, um terceiro debaixo da cama e outro dentro da bíblia, na mesa de cabeceira. Instalou ainda minúsculo gravador na gravata de cada um deles. Graças a este avanço da tecnologia, os leitores dessa coluna podem conhecer o motivo real da viagem à Ucrânia.

A hipótese de missão cultural foi logo descartada. Nenhum dos quatro demonstrou o menor interesse em visitar o Museu de Belas Artes, o Conservatório Tchaikovski ou o Palácio da Cultura. As fitas registraram falas quando a delegação passou na frente do maior monumento histórico da Ucrânia, na avenida Vladimirskaia:
Tiradentes: – Parece até o Teatro Amazonas.

Amazonino: – (com riso de estadista, mostrando que havia lido o folder turístico) São cúpolas hemisféricas da Catedral de Santa Sofia (risos pseudo-inteligentes de Átila e Hanan).

O detetive Chevchenko fez sua primeira descoberta, esclarecendo mistério que intrigava os amazonenses: por que Amazonino, quando viaja, leva sempre Ronaldo Tiradentes à tiracolo? Porque desta forma ele se sente um intelectual refinado.

Mas o que é que os quatro vieram mesmo fazer em Kiev? Ouvindo as fitas gravadas, Chevchenko descobriu:

1. Tiradentes queria visitar a Universidade Pagov Passaiev.
2. Samuel Hanan buscava s dólares por ele remetidos para fora do Brasil, segundo denúncias do empresário Fernando Bonfim.
3. Amazonino planejava importar 25 deputados ucranianos, marca Ronivon, pelo preço de 50 mil cada. A intenção dele era fazer uma clonagem, produzindo ronivons em série, com as isenções fiscais da Zona Franca.
4. Átila Lins procurava o de sempre. Numa das fitas, estava gravado um grito que ecoou por toda a planície eslava. (Não sei se existe planície eslava. Mas o grito pede este cenário):
– Achei!!! Achei!!!

Era o Átila que acabava de encontrar no Consulado do Brasil em Kiev um posto de terceiro secretário para o seu sobrinho Jefferson Lins. Uma senhora mamata: 5 mil dólares por mês.

O detetive sabia, no entanto, que além do interesse individual, o grupo tinha um projeto coletivo. Qual? Buscou na internet os jornais brasileiros:

Folha de São Paulo: “Amazonino compra deputados do Acre em troca da nomeação do Superintendente da Zona Franca de Manaus. Pauderney era o intermediário: sondava quem estava disposto a negociar. Samuel Hanan levou o dinheiro”.

Estado de São Paulo: “Empreiteira da família Cameli foi beneficiada por Amazonino”.

O Globo: “Escândalo no Congresso: Ligações estreitas de autoridades com empresários não espantam ninguém no Amazonas. Poder cimentado com voto e brita: governador do Amazonas mora em casa alugada de empreiteiro e chefe do DNER, Wellington Lins, irmão de Átila Lins, que é sócio de construtora”. A notícia revela como o Amazonas foi loteado entre várias empreiteiras, incluindo a Planecon dos Lins e a Capital do Paus-derney e derley e a Marmud Camelli, do governador do Acre.

Jornal do Brasil – “Zona Franca é pivô da discórdia. Escândalo da venda de votos traz à tona disputa pelo domínio da Suframa”.

Foi aí, então, que o detetive Tarass Chevtchenko, cruzando as notícias com as gravações de Kiev, descobriu que Amazonino veio à Ucrânia para contratar um certo Picaretov Vassilinovich Korruptchev para nomeá-lo superintendente da Suframa, no lugar do honrado Mauro Costa. O presidente FHC topou, esquecendo que quem anda com porco, acaba comendo babugem.

 



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