Taquiprati: É Carnaval – o bloco que desfila em latim

Leia o artigo Taquiprati deste domingo, 11 de dezembro, assinado por José R. Bessa Freire

José R. Bessa Freire - Redacao - redacao@diarioam.com.br

Entendes, Fábio, o que estou dizendo?
– É claro que entendo!
– Mentes, Fábio, que sou eu que falo
E nem eu me entendo!
Lope de Vega (Soneto “Mientes Fabio”)

O nome do bloco é “Mater mea ego volo lactere”. Seus integrantes fantasiados de toga e beca, todos da magistratura, vivem arrotando um latinorum em suas sentenças, que é pra ninguém entender. Por isso, neste carnaval, vão desfilar cantando marchinhas em latim, com – digamos assim – “argumentos” em defesa do auxílio-moradia. Graças ao latim de missa aprendido no seminário, o Taquiprati (Ecce tibi) traduzirá aqui as letras cantadas pelos foliões togados, num serviço exclusivo a seus raros leitores, começando pelo nome do bloco: “Mamãe eu quero mamar”.

Dentro das marchinhas de carnaval cabe o Brasil inteirinho. Elas dramatizam as relações sociais, o amor, o ciúme, o puxa-saquismo, a vingança, a corrupção, a inveja, a vida política, o poder, incluindo o Judiciário com seu auxílio-moradia. Para o antropólogo Roberto DaMatta, autor de “Carnaval, malandros e heróis”, podemos “ler” o Brasil através da música de carnaval, cujas letras, num país com taxa alta de analfabetismo, funcionam como a literatura erudita na Europa. Ambas permitem que cada sociedade mostre sua cara, seus medos, desejos, preconceitos, valores.

Malandros e heróis

O desfile vai ser aberto com o hino oficial que dá nome ao bloco. Essa marchinha canalha, maliciosa, carnavalesca, desperta associações entre mamãe, mamar e mamata, o que sugere negociata, negócio escuso acobertado pela própria lei, como revela DaMatta em “O poder mágico da música de carnaval – Decifrando Mamãe eu quero”. Os foliões togados confirmam isso, cantando em latim para evitar que o populacho entenda:

“Mater mea ego volo lactere” (três vezes)
Auxilium residentia ducite (três vezes)
Ut puer judicis non lacrimare.
O bebé, o puer judicis, se mamar, não chora. O desfile prossegue com a conhecida marchinha “Me dá um dinheiro aí”, sucesso em todos os carnavais desde 1959, quando foi lançada, e que aqui reivindica descaradamente o auxílio-moradia para os juízes:
Ehem! Ubi estis! Pecuniam date me, pecuniam date me!
Ne ibitis dare. Ne ibitis dare nullus.
Ego dabo tibi magnam turbationem…

Se a pecúnia não for liberada, os foliões togados ameaçam fazer uma grande confusão (magnam turbationem). O povo está furunfado, mas eles não estão nem aí. Parece que vivem em outro país. É como se não tivessem nada com a desgraça alheia. Ora, quem mama, no caso, tira o leite da boca das crianças necessitadas e se torna corresponsável pela miséria, sacramentando a distribuição injusta de riqueza. Existe, portanto, uma relação de causa e efeito entre as mordomias de uns e a indigência de outros. Se povo está furunfado, isso não é obra do acaso. É porque existe um furunfador. Quem?

Puto putare

Cícero percebeu isso e criou jurisprudência na célebre polêmica com Catilina no Senado de Roma:
– Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra? Nulla actio furunfactorum sine homo furunfactor et sine homo furunferractus.
A frase do tribuno romano foi traduzida com precisão pelo eminente jurista mineiro Orozimbo Nonato:
– Não enche o saco, Catilina. Se não existissem os furunfadores, não haveria furunfados.

O povo está muito puto que, em latim, é a primeira pessoa do indicativo do verbo putare (pensar). Quem não pertence à magistratura está pensando: “Ego puto fioforum plus infra est”, como queria Tito Lívio, ou seja, “penso que o buraco é mais embaixo”. Os juízes que recebem auxílio moradia de forma irregular se igualam às pessoas que condenam, eles são todos, nas palavras de Virgílio,“ejusdem farinae mandiocae paneirorum” – tudo “farinha do mesmo paneiro”.

Pior ainda do que o assalto aos cofres públicos com o auxílio-moradia pago para quem tem até 60 imóveis na mesma cidade, são as justificativas xexelentas apresentadas que nos fazem pensar, data vênia, em indigência mental. Nem falando em português conseguem convencer. Podem ser ricos de dinheiro, mas são pobres de argumento.
Um diz que ele e a mulher recebem cada um o penduricalho porque é legal, sem discutir quem fez a lei. Outro jura que se trata de uma compensação salarial, o que significa então que o salário ultrapassa o teto legal. Um terceiro, dono de muitos imóveis, diz que recebe o auxílio-moradia de quase cinco mil paus e ainda debocha: – É pouco.

Pura malandragem. Se eles raciocinam assim em suas sentenças, então estamos fritos, porque não é possível que muitos cuspam sangue para que poucos vivam melhor, como na canção de Atahualpa Yupanqui “Preguntitas sobre Dios”.

– “Hic culum cotiae sibilare” – diria um dos reis vândalos, não sei se Hilderico ou Gunderico, Mas com certeza é aqui que o fiofó da cotia assovia, Para os magistrados, ávidos em acumular bens, farinha pouca, meu pirão primeiro: “farina parca caldus piscis meus primundum”. Estranha forma de administrar justiça: onde não existe justiça, não pode haver direito (Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus). O contraste escandaloso entre o povo e a magistratura exige uma reforma do judiciário. Para eles, cotocorum dabo tibi. Taquiprati. Ecce tibi.

P.S. Quanto ao latinorum, eles fazem pose de sábios e arrotam erudição, mas não entendem porra nenhuma do que falam, essa é que é a verdade. Pura enrolação.



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