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Taquiprati: Quem é o porco do Palácio do Jaburu?

Confira a coluna Taquiprati deste domingo, 18 de junho, do DIÁRIO DO AMAZONAS

José R. Bessa Freire / redacao@diarioam.com.br

Manaus – Dizem que no bairro de Aparecida está a chave para desvendar a misteriosa identidade do porco que toda sexta-feira, à meia-noite, se alimenta no porão do Palácio do Jaburu. Ele entra furtivamente – dizem – convocado por Michel Temer, que coça-lhe a barriga e dá-lhe de comer: curé, curé, curé. Dizem que o porco rosado e enxundioso, já de barriga cheia, dorme no jardim embaixo do jequitibá, onde Michelzinho costuma brincar. Dizem que de madrugada, o suíno se dirige aos fundos do palácio, mergulha no Lago Paranoá e desaparece. Dizem.

Na sexta-feira seguinte ele volta, dizem, para comer, com sua boca de hipopótamo, a ração de soja e cereais nas mãos giratórias de Temer. Dizem que um segurança gravou a voz do presidente chamando o porco por seu nome, a primeira sílaba é inaudível, mas a última é “ar”. Será que é o tal Edgar procurado pela Polícia Federal? Temos que buscar provas em Aparecida, porque tudo o que acontece ou ainda vai acontecer em qualquer parte do mundo, modéstia às favas, já aconteceu lá, no meu bairro.

Dizem que o procurador Rodrigo Janot, por analogia, pode identificar a relação promíscua entre o porco e o palácio, se pedir aos velhos de Aparecida que lhe narrem as “suinosidades” lá ocorridas na década de 1950, quando a Manaus Tramways interrompeu durante meses a transmissão de energia elétrica, mergulhando a cidade na mais negra escuridão. Foi nesse cenário de trevas que nas noites de sexta-feira começou a aparecer um porcão enorme, que atacava as pessoas, semeando o pânico.

 

Espírito de porco

Ninguém sabia direito de onde vinha o porco. Ele atravessava os trilhos do bonde e, trotando como um javali, descia a Xavier de Mendonça, colocando em debandada crianças que brincavam de roda e velhos que jogavam dominó. Depois, invadia o pátio do Grupo Escolar Cônego Azevedo e de lá só saía na madrugada, em disparada, mordendo, enfurecido, quem encontrava pelo caminho. Descia a escadaria do igarapé São Vicente, mergulhava no bosteiro e sumia,

Havia a suspeita de que no bairro havia alguém que virava porco. Mas quem? Três moradores tinham pinta de “virador de porco”: Ceariba, vendedor de carvão, casado com dona Cotinha; Chico Procópio, solteiro, fiscal do SAPS – Serviço de Alimentação da Previdência Social, cujo jeito peculiar de andar meio saltitante lhe conferiu o apelido de “Papagaio na areia-quente”. E Chicarruda, recém-casado, vendedor ambulante de doces. Pesquisaram a vida dos três e descobriram os grunhidos do último.

Cearense de Baturité, Francisco Arruda – o Chicarruda – ficou órfão e mudou de mala e cuia para Manaus. Começou a trabalhar por conta própria, como vendedor ambulante de doces feitos por Guilhermina, dona de uma doceria na rua Lobo D ‘Almada. Os doces eram acomodados numa caixa retangular, envidraçada, que Chicarruda carregava pelas ruas, anunciando sua passagem com uma gaita de boca. A caixa tinha quatro pernas compridas de madeira sobre as quais repousava ao parar para servir a freguesia.

O vendedor de doces passou a ser o principal suspeito quando alguém flagrou de madrugada a zeladora do Grupo Escolar, dona Zeni, que lá morava, dando “lavagem” para o porco – uma gororoba com restos de comida. Havia ali um estranho conluio. Coincidência ou não, Chicarruda se tornou o único ambulante com permissão para entrar na escola na hora da merenda, em troca de propina paga à zeladora.

 

Chafurdar no chiqueiro

As suspeitas cresceram porque Francisco Arruda casou com Francesca, uma caboca afilhada do italiano Nicolau Montemurro, dono de uma sapataria, para quem sua mãe trabalhava como empregada doméstica. Ora, os entendidos sabem que todo “virador de porco” casa sempre com mulher homônima ou com quem cujo nome tem etimologicamente a mesma raiz.  As evidências e os indícios eram muitos, mas o casal Arruda e dona Zeni exigiram provas materiais. Foi aí que um ousado paroquiano, o Zeca Pinto, membro do Apostolado da Oração, decidiu produzir provas.

Numa sexta-feira de noite enluarada, armado de uma escopeta, Zeca Pinto se escondeu detrás de uma árvore, na mutuca, cantando baixinho o hino do Apostolado: “Queremos Deus, homens ingratos”. Quando o porcão desceu trotando pela Xavier, ele disparou uma bala benta lubrificada com cera de vela do altar da Virgem de Aparecida. Atingiu a pata traseira esquerda do animal que, ferido, desapareceu no meio da noite, deixando manchas de sangue no meio da rua.

Nunca mais o porco voltou. No entanto, no dia seguinte, o Chicarruda apareceu com uma úlcera na perna esquerda, uma ferida brava que nunca mais cicatrizou. Taí o Geraldão, vizinho do Chicarruda, que não me deixa mentir. Ou deixa?

Inspirado nesse exemplo, o procurador Janot pode contratar alguém para atirar no porco do Palácio Jaburu. No dia seguinte, basta ir ao TSE e observar quem está mancando: Napoleão, Tarcisio ou os dois cujos nomes terminam em “ar”:  Admar ou Gilmar. Precisa checar antes qual deles casou com mulher, cujo nome tem etimologicamente a mesma raiz

De qualquer forma, quem entrar mancando, mesmo que não se manque, esse é o que vira porco. Dizem que esse mamífero aproveita a escuridão em que mergulhou a vida política brasileira para atacar os que, como o juiz Herman Benjamin, questionam a mamada. Dizem que ele fede, enlameado por chafurdar na pocilga. É ele o porco que come na mão do Temer no Palácio Jaburu. Dizem. Só a luz pode eliminá-los. Amém.