Taquiprati: Recolhendo os passos numa casa bem-assombrada

Confira o artigo Taquiprati deste domingo, 16 de julho, do Diário do Amazonas

José R. Bessa Freire / redacao@diarioam.com.br

Rincão das Jaboticabas, na Serra das Araras (RJ), onde me escondi da polícia, em 1967. Nunca mais havia voltado lá. Retorno agora, meio século depois, para conferir as lembranças, numa operação que no Caribe – nos diz Garcia Márquez – é denominada de “recoger sus pasos”, quando o velho, regressa aos lugares de suas querenças, catando vozes, cheiros, risos e queixumes, imagens e cenas que por lá ficaram. Conto aqui como os passos foram dados e como foram recolhidos. Foi assim.

Sonhos alados

Policiais do DOPS andaram me buscando, em 1967, na redação do jornal O SOL, por entrevista feita com o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, um dos articuladores civis do golpe de 1964. Ele queria obcecadamente ser presidente da República e, quando os generais lhe deram uma rasteira suprimindo a eleição direta, passou a fazer oposição à ditadura. Criou, então, a Frente Ampla e buscou aliança com dois ex-presidentes cuja vida infernizara: Jango exilado no Uruguai, e Juscelino, em Lisboa.

A entrevista foi feita por acaso. Eu tinha 20 anos, era um obscuro foca de um diário que inicialmente saía como encarte do Jornal dos Sports. Fui escalado para cobrir a noite de autógrafos do livro “Recordações de um Desterrado”, do diretor da Tribuna da Imprensa, Hélio Fernandes, preso um mês em Fernando de Noronha por publicar artigos contra a ditadura. Dispensaram-me de voltar ao jornal na segunda, porque a matéria só seria publicada na quarta.

Eis que, de repente, chega na Livraria Eldorado, Carlos Lacerda, ovacionado ali como “o futuro presidente da República” pelas “candocas”, as senhoras da CAMDE – Campanha da Mulher pela Democracia. No meio do burburinho, arranquei uma entrevista exclusiva. Lacerda, que abicorava o Palácio do Planalto, disparou a metralhadora giratória e mandou bala como se estivesse no palanque de um comício:

– “Quero derrubar o regime fascista do Brasil, porque ele está podre e não aguenta dois anos. A baioneta e o dólar que o sustentam também cairão”.

Corri eufórico para a redação. Os editores Ana Arruda e Reynaldo Jardim interromperam a impressão do jornal e encaixaram na primeira página toda a entrevista. “VOU DERRUBAR ESSE GOVERNO – berrou a manchete. A matéria assinada, a polícia me procurou no dia seguinte “para averiguações”. Amigos recomendaram que eu me escafedesse por um tempo.

Eu me escafedi em direção ao sítio da família de Núria, uma amiga da faculdade, com quem compartilhava sonhos alados. Seu pai, o psicólogo Emilio Mira y Lopez, falecera três anos antes. Quem organizou minha estadia foi a mãe, dona Alice. Quando desci a serra duas semanas depois, O SOL, fechado, entrara em ocaso. A baioneta e o dólar permaneciam firmes e fortes, quem caiu em seguida foi o próprio Lacerda, cujos direitos políticos foram suspensos.

Espaço de porão

Cinco décadas depois. Reencontro Emílio, irmão de Núria, agora médico formado pela UFRJ. Retrocedemos a uma passeata, em 1967, na qual sua irmã teve a perna ferida por bomba da polícia. Na correria, perdi meus óculos, ficando como cego em tiroteio. Emílio retornou para recuperá-los, num gesto solidário que ligou para sempre nossas lembranças.

Cada um foi recolhendo os próprios passos. Emílio preso, em 1971, acusado de militar no MURD – Movimento Universitário de Resistência à Ditadura. A faculdade, a formatura, a residência médica, os cursos na Califórnia, a acupuntura, a medicina chinesa. Da minha parte, resumi andanças por vários países, o exílio, o retorno, a prisão, as amizades, os amores, a vida acadêmica, os alunos, os índios, as três netas.

Caminhamos 50 anos por uma estrada até chegarmos hoje na encruzilhada do “Fora Temer”, onde nos encontramos. Soube, então, que o Rincão das Jaboticabas continua com a família. Não resisti ao convite para revisitá-lo. Fui. Subi a serra com o coração aos pulos, levando por precaução, como escudo, duas netas na visita de três dias àquela casa bem-assombrada.

Na lembrança, o que ficou da casa se resumia à biblioteca construída com pinho de Riga, tendo ao fundo uma lareira. Foi lá onde eu me encafifei em 1967. De lá só saía para as refeições compartilhadas com o caseiro. Passava o dia lendo e ouvindo músicas da guerra civil espanhola cercado por fotos de dona Alice e do velho Emilio.

Fotos e livros continuam lá. Mas cadê os discos de vinil? O gato comeu. Posso jurar, no entanto, que de noite, enquanto minhas netas dormiam, eu ouvi a voz da Carmela, cantando com o punho levantado:

– El Ejército del Ebro / rumba, la rumba la rumbabá / una noche el rio pasó / ay Carmela, ay Carmela.

Fui em busca de rastros antigos e acabei dando novos passos. A companhia das netas me permitiu ver o que a memória apagara: a vida fluindo, um jardim ensolarado com árvores frutíferas, plantas, flores, uma piscina, passarinhos, tucanos, montanhas, além de algumas sementes de esperança renovada. Os passos das minhas netas deixaram marcas recentes no chão.

A casa, que abrigou tantos sonhos, não tem porão. Talvez lá o poeta Ernesto Penafort (1936-1992) encontraria o que recolher, mas aí não teríamos seus versos belos e melancólicos, com os quais aqui me despeço: “Dos passos que foram dados / nem marcas restam no chão / E de seus sonhos alados? / Nem as asas restarão/ Pois foram todos sonhados / No espaço de um porão”.