Especialistas condenam alteração que reduz alcance de notícias, no Facebook

A alteração, justificada, oficialmente, pelo interesse em aumentar a interação entre as pessoas, é apontada como uma tentativa de combate ao fenômeno das notícias falsas (fake news)

Estadão Conteúdo / redacao@diarioam.com.br

São Paulo – Ao calibrar seu algoritmo para priorizar postagens de amigos e família no feed de notícias, a rede social Facebook fez a sua maior mudança em anos. A alteração, justificada, oficialmente, pelo interesse em aumentar a interação entre as pessoas, é apontada por especialistas como uma tentativa de combate ao fenômeno das notícias falsas (fake news). A nova diretriz, contudo, provocou um importante efeito colateral: vai reduzir o alcance de conteúdo distribuído pela imprensa no site. Na prática, os mais de 2 bilhões de usuários vão ler menos notícias na rede social.

Fazer a notícia chegar ao público, via Facebook, se tornará uma tarefa mais árdua — e mais cara também (Foto: Pexels)

O anúncio gerou forte reação de veículos de comunicação, nos Estados Unidos. “O Facebook está redesenhando radicalmente seu negócio em resposta ao seu primeiro grande risco existencial (as notícias falsas)”, disse o editor executivo global da Vice Media, Derek Mead, no Twitter. “E a mídia é o efeito colateral”.

“Eu mal posso dizer como o Facebook está prejudicando nossa operação e a democracia, repetidamente”, afirmou a editora-chefe do jornal norte-americano San Francisco Chronicle, Audrey Cooper, em seu perfil, também no Twitter.

Hoje, grande parte dos veículos de imprensa tem no Facebook um dos principais canais de distribuição das notícias publicadas em seus sites. Com a mudança promovida por Zuckerberg, captar a audiência presente na rede social deve ficar mais difícil — e mais caro. “A mudança é um esforço legítimo e louvável do Facebook em reparar o dano causado pelas notícias falsas”, diz, ao jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista brasileiro Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas, da Universidade do Texas. “Mas é irônico que isso vá prejudicar o jornalismo, que é justamente o antídoto contra essa doença”.

Para Caio Túlio Costa, professor de Comunicação Digital da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e fundador da plataforma de monitoramento digital Torabit, o efeito das mudanças é perverso para empresas jornalísticas. “Ao mesmo tempo em que a mudança coíbe notícias falsas, ela pune as empresas que publicam notícias corretas”.

Tempo ao tempo

Ambos os especialistas, porém, consideram que só o tempo vai mostrar os efeitos práticos da medida. “Ainda não está claro se isso vai inibir as notícias falsas”, diz Costa, “porque sua disseminação está ligada ao comportamento dos usuários, não às notícias em si”.

Para Alves, os publishers terão de mudar para se adaptar à nova realidade. “O jornalismo que herdamos da era industrial é focado no consumo passivo”, diz ele. “Vamos ter de buscar estratégias para fazer um jornalismo mais interativo, que provoque essas interações entre usuários que o Facebook vai priorizar agora”.

Mais dinheiro

Ainda não está claro se o Facebook vai conseguir mitigar as notícias falsas. Do lado da receita, porém, a perspectiva é mais clara. Ao reduzir o alcance das publicações de páginas, a rede social ‘obriga’ seus administradores a investir mais dinheiro para impulsionar publicações.