Casal ganha fôlego de vida após os sessenta

Seu Asfalto chegou à vida da dona Dina em um momento de solidão e tristeza e hoje vivem um romance especial

Manaus – Camisa social azul, gravata e boina foi o look escolhido por seu Asfalto Antônio Olimpio, 66, para contar ao D24am a história de amor que vive há seis meses com dona Dina da Costa Sanchos, 75. O namoro é recente, mas é cheio de promessas e dedicação. No dia dos namorados, o casal compartilhou como o amor surgiu e se tornou um vínculo especial.

Asfalto chegou à Fundação de Apoio ao Idoso Dr. Thomas (FDT), onde reside junto com Dina, após procurar por muito tempo uma vaga. Ele morava sozinho e frequentava quase todos os dias a fundação para pedir moradia, até que conseguiu uma vaga e está há dois anos na instituição.

Já dona Dina sempre viveu sozinha. Ela contou que tem primas, irmãs, mas foram criadas separadas e não tem muito vínculo.

Seu Asfalto chegou à vida da dona Dina em um momento de solidão e tristeza. Era um momento delicado em que Dina não via sentido em continuar vivendo.

Durante a pandemia, eles passaram por momentos difíceis, alguns idosos adoeceram e dona Dina teve que ir para um lugar seguro, fora da Fundação. Ela não gostou muito de precisar sair de lá, mas mal sabia que após retornar encontraria um amor.

A Fundação conta com várias atividades voltada para os idosos e em uma dessas atividades o casal começou a se aproximar.

“Começaram a fazer a gente de casal na época do natal. Uma amiga que faz atividade com o esposo dela conversou comigo e me convidou para ser a Nossa Senhora [Maria] e ele ia ser o José. Eu não sabia quem era seu Asfalto, minha amiga disse que ele era um homem muito bonito que andava arrumado. Eu falei: o que eu tenho a ver com isso? Caindo na gargalhada. Na verdade eu estava desesperada, para viver ou morrer não tinha muita coisa, eu não tinha outra saída”, contou.

“Depois desse tempo a gente começou a se conhecer, foi se chegando, se chegando, até que chegou a história da vacina [campanha de vacina dos idosos] e colocaram de novo a gente como casal. Durante o dia da vacina, as pessoas se aproximavam e perguntavam: Vocês são um casal? São um casal? E a gente dizendo ‘não, não, não’. Até que Asfalto se enfezou e disse: ‘Não! A gente é namorado!’. Eu fiquei olhando pra ele e perguntei: ‘A gente é namorado?’ Ele disse: ‘E tu, não quer não?’. [respondi] ‘Se você disse que a gente é namorado não sou eu quem vai dizer o contrário’. Ai pronto, agora é casal pra todo lado”, conta Dina.

A história de Dina com relacionamentos não é longa. Ela nunca se casou, sempre foi solteira e não tem filhos. Por outro lado, seu Asfalto foi casado quatro vezes e em todos os casamentos terminou viúvo.

Ele conta que já tentou se casar com dona Dina, mas agora que ela finalmente achou nos braços dele um sentido para viver, ficou com medo de deixá-lo viúvo pela quinta vez.

“Quando eu era mais nova, tive a oportunidade de ter casado, mas não casei, não vai ser agora que vou casar, só quero curtir, ele já foi viúvo quatro vezes, não quero morrer agora”, disse dona Dina gargalhando, levando seu Asfalto também a rir.

Perguntado se ainda ia enrolar muito a dona Dina para casar, ele disse que ela quem não queria, só queria saber de curtir.

Depois, eu um tom mais sério, dona Dina disse:

“Ele quer casar, mas quer ir embora daqui, eu não quero ir embora daqui, eu quero continuar aqui” revelou dona Dina.

“Ela quer morrer por aqui”, disse seu Asfalto.

“Eu já vivi muitos anos sozinha, era muito difícil eu tinha que lutar pela minha sobrevivência, pra ser respeitada, pra não passar fome, pra não andar pedindo nada de ninguém, não ir dormir na rua, então eu tinha isso comigo que eu tinha que ter um estilo de vida pra me manter sem ter que tá pedindo”, disse Dina.

“Eu trabalhava a semana toda, mas a noite eu ia pra casa, uma kitnet que eu alugava, lá tinha tudo que eu precisava, do jeito que eu sonhava ter um cantinho meu. Então era o meu cantinho. Eu dei todas as minhas coisas pra vir pra cá”, completou Dina.

Primeiro beijo

Questionados sobre quem deu o primeiro passo para o beijo, o casal ficou tímido. Dona Dina passou a bola para seu Asfalto e ele devolveu a pergunta para ela. No final, acabou sendo bem incisivo: “Foi ela!”, os dois caíram na gargalhada.

Perguntados se já tiveram uma D.R, desentendimentos que casais têm em relacionamentos, seu Asfalto disse que isso não existe entre eles.

“A gente vive um relacionamento mais maduro e isso é a base para manter uma relação independente da idade. Na idade que eu estou não adianta eu arrumar uma mulher mais nova e nem ela também, a pessoa não me querer, só vai querer saber do nosso dinheiro”, disse seu Asfalto.

“Minhas filhas ficaram com um pouco de ciúmes da relação, não falaram nada. Mas, eu percebi que ficaram com ciúmes, mas isso não abalou a nossa relação”, concluiu.

Quando falaram sobre o convívio, Dina disse que vivem em quartos separados.

“A gente vive em quartos separados, passamos o dia juntos, mas a noite vai cada um vai para o seu quarto”.

Perguntados se algum deles dá uma fugidinha para o quarto do outro durante a noite, dona Dina diz às gargalhadas: “Não! Porque tem câmeras”.

Especialista fala sobre importância de relacionamento na terceira idade

Segundo a psicóloga Tais Fernandes, do Grupo Said, junto ao envelhecimento vem o amadurecimento e crescimento pessoal, novas maneiras de enxergar a vida e os relacionamentos. Assim, as conexões e vínculos estabelecidos pelo idoso ao longo de sua existência são de grande valor e precisam ser reconhecidas.

Além disso, o namoro inspira o cuidado, tanto consigo mesmo quanto com o outro, dessa forma, os cuidados com a saúde, com a estética e a vontade de fazer atividades mais ativas aumenta, estimulando a produção de endorfina, hormônio da felicidade.

“A busca por relacionamentos amorosos é algo natural na terceira idade, novas possibilidades de construção de relações devem ser validadas e aceitas como parte desta etapa da vida. Um relacionamento saudável, assim como a vivência da sexualidade, são positivas ao idoso e podem contribuir para o bem-estar, autoestima, apego, comunicação e afetividade. Lembre-se sempre que ser idoso não é sinônimo de impotência, incapacidade ou dependência”, finaliza a psicóloga.

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