Desmatamento em ‘terra de ninguém’ na floresta amazônica sobe mais de 10%

Devastação em áreas não designadas na Amazônia chegou a 194.601 hectares entre agosto de 2016 e julho de 2017, ou 28% de toda derrubada registrada na região no último ano pelo governo federal

Manaus – O desmatamento nas áreas não designadas na Amazônia, que somam 70 milhões de hectares, chegou a 194.601 hectares entre agosto de 2016 e julho de 2017, ou 28% de toda derrubada registrada na região no último ano pelo governo federal. No ano anterior, o desmatamento nessas áreas foi de 174.585 dectares, o equivalente a 22% do registrado. O cálculo foi apresentado, na última semana, em um evento organizado por entidades de defesa do meio ambiente que discutiu estratégias para se obter desmatamento zero na região com benefícios para o País.

Taxa de derrubada nas áreas não-designadas coloca em xeque a capacidade de o Brasil cumprir metas autoimpostas, como zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. (Foto: Divulgação)

Essas áreas são públicas mas não têm um uso claro, e todo desmatamento que ali acontece é ilegal. “O Brasil aprendeu a reduzir o desmatamento, mas continuou a desmatar. Só diminuímos a velocidade. E é mais do que necessário dar uma destinação clara às nossas ‘terras de ninguém’, para coordenar o uso e a preservação da terra”, disse o pesquisador sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Paulo Moutinho. Segundo ele, esses 70 milhões de hectares podem ser utilizadas de forma coordenada, gerando uma economia sustentável na região – seja pela criação de áreas de preservação ou de atividades extrativistas regulamentadas.

Moutinho é um dos autores do relatório ‘Desmatamento Zero na Amazônia: como e por que chegar lá’, apresentado pela primeira vez em São Paulo em um evento que reuniu especialistas no tema. O documento detalha perdas e ganhos com uma política que privilegie a conservação, escrito também por Greenpeace, ICV, Imaflora, Imazon, ISA, TNC e WWF-Brasil.

“De acordo com a nossa legislação, o desmatamento é permitido. Podemos desmatar, mas não precisamos”, afirma o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad, coordenador do projeto especial ‘Riscos na agricultura’. “Dos 75 milhões de hectares de corte raso de floresta que existem na Amazônia (equivalente a duas vezes o território da Alemanha), pelo menos 27 milhões estão em situação muito ruim: são áreas em regeneração, pastos degradados e pastos improdutivos que, se recuperadas, entram no sistema econômico”, completou.

O argumento de Assad ecoa em um dado do relatório: o desmatamento registrado entre 2007 e 2016 (7.502 km2 por ano, em média) teve potencial de adicionar anualmente somente 0,013% do PIB brasileiro. Desmatamento, concluem os autores do estudo, não significa crescimento.

A taxa de derrubada nas áreas não-designadas também coloca em xeque a capacidade de o Brasil cumprir metas autoimpostas, como zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030, compromisso assumido na Convenção do Clima, e reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 36,1% até 2020, como determina a Política Nacional de Mudanças Climáticas.

Desde a publicação dessa lei em 2009, o desmatamento na Amazônia chegou a diminuir, atingindo sua menor taxa em 2012: 4.571 quilômetros quadrados. Porém, a taxa média de desmatamento voltou a crescer e, entre 2013 e 2017, foi 38% maior do que a daquele ano. Segundo o relatório, sem controle e políticas que estanquem a derrubada de florestas, a taxa pode atingir patamares anuais entre 9.391 quilômetros quadrados e 13.789 quilômetros quadrados até 2027.

“Reduzir a derrubada de florestas tem uma resposta muito mais rápida no impacto climático do que reduzir a emissão de CO2 por outras fontes. É a forma mais barata de controlar as emissões de gases que causam o efeito estufa”, explica o professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, Paulo Artaxo, no evento.

Em 2016, as mudanças no uso da terra representaram 51% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil e mantiveram o País como o sétimo maior emissor do mundo, segundo o SEEG (sistema independente do Observatório do Clima). Se a redução não vier pela diminuição do desmatamento, a meta nacional terá de ser cumprida pelo corte drástico de emissão em outros setores, como energia.

Os dados do relatório ‘Desmatamento Zero na Amazônia: como e por que chegar lá’ estão disponíveis no site: ipam.org.br/bibliotecas/desmatamento-zero-na-amazonia-como-e-por-que-chegar-la-relatorio-completo/.