‘Entrega’ de voluntários ressocializa presos do sistema penitenciário do AM

Um dos projetos formados por voluntários, o grupo Missão Amigos de Cristo, trabalha com a ressocialização há oito anos e já recuperou mais de 380 ex-presidiários, inserindo eles no mercado de trabalho

Manaus – Apalavra voluntário no dicionário define algo feito “sem constrangimento ou coação”, de forma espontânea. Na vida real de algumas pessoas essa palavra pode vir carregada de um significado: humanidade e doação. É dessa forma que, em Manaus, o grupo Missão Amigos de Cristo trabalha com a ressocialização de ex-detentos. Em oito anos de acolhimento, mais de 380 internos já foram ressocializados, e inseridos no mercado de trabalho. Desse número, apenas 15% voltaram a cometer crimes.

Conseguir um trabalho, reconstituir um lar, ter o próprio negócio, tudo que é normal para a maioria das pessoas se torna extremamente difícil para os ex-presidiários. A sociedade não costuma dar muitas oportunidades a eles. “São pessoas que precisam de atenção e amor, eles muitas vezes não tiveram uma base familiar”, explicou o coordenador da Capelânia Carcerária da Igreja Batista, Rogério Evangelista, sobre as pessoas que recebem auxílio do projeto.

O centro de ressocialização Amigos de Cristo fica em uma casa simples no Bairro da Redenção, na zona centro-oeste de Manaus. Hoje, com 10 moradores, o centro de ressocialização funciona como uma grande família para quem ainda busca oportunidades na vida.

Há oito anos o projeto foi fundado com base nos altos índices de criminalidade na capital. Criado sob a polêmica perspectiva de que presos não são capazes de ressocializar, o projeto é uma lição de vida até para quem o idealizou.

“Tudo começa com o descaso das famílias, muitos deles tem traumas de paternidade, nosso voluntariado têm um trabalho muito árduo. Eu acredito que o amor de Cristo me levou a esse trabalho, hoje conseguimos transformar vidas, depois que eles saem do centro tem outra cabeça, eles começam a sonhar com o futuro”, afirmou Evangelista.

No centro de ressocialização as horas dos dias são distribuídas em devocional, reflexões, tarefas domésticas e na busca pela ressocialização, que pode vir por meio de um curso, ou um emprego como aconteceu com Bruce.

Vida recuperada

Há quatro anos e meio Bruce William, de 30 anos, deixou para traz a vida de usuário de drogas e assaltante. Mas a mudança de vida só começou depois que ele aceitou participar da casa de ressocialização. Bruce foi preso duas vezes. Onze dias após deixar o Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM), na zona rural de Manaus, ele voltou a cometer assaltos e foi preso novamente.

Bruce William, de 30 anos, deixou para traz a vida de usuário de drogas e assaltante para virar empreendedor (Foto: Divulgação)

“Eu fiquei preso por sete meses, cometi diversos crimes, entre eles assalto a mão armada. Eu vivia em um mundo de trevas, precisei perder minha irmã para cair na realidade. Entrei no mundo do crime por conta droga, o meu vicio me levou ao crime. Cheguei a passar três meses desaparecido, até que conheci o amor de Deus e tudo mudou”, disse William.

A história do ex-presidiário é motivadora. Bruce mudou completamente de vida. Hoje ele é dono de um varejão, uma borracharia e uma loja de roupas todos no Coroado, zona leste de Manaus. “Quando eu sai do centro de ressocialização, emprestei R$150 da minha mãe e comecei a vender salgados com suco na Avenida Grande Circular. Logo transformei aquela quantia em R$ 500 de lucro, foi quando montei uma pequena mercearia, e tinha apenas meia saca de cebola, alguns tomates e alho. Meu padrasto me ajudou a alugar o ponto. Hoje construí esse hortifruti, e tenho outros dois negócios. Atualmente sou casado, tenho um filho e levo uma vida digna, posso dormir tranquilo, dando orgulho pra minha mãe”, afirmou Bruce.

O projeto Amigos de Cristo já atendeu mais de 380 pessoas dentro e fora dos presídios. Hoje conta com 11 voluntários que mantém a casa alugada que é base do projeto na capital. “Os irmãos da Igreja Presbiteriana são fundamentais nesse trabalho, muitos deles abrem as portas e dão um oportunidade pra essas pessoas. São pessoas que precisam de ressocialização, de direcionamento, de oportunidade de emprego e de amor”, acrescentou Rogério Evangelista, coordenador do projeto.

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