Especialista alerta para os riscos da depressão infantil e como identificá-la

Entre as principais causas estão: a falta de apoio social; desestrutura familiar, quando há muitos conflitos; pais que estão apenas voltados ao trabalho; e a escola, por conta dos bullyings

Brasília – A depressão na fase infantil ainda é um assunto pouco comentado, apesar de os casos serem cada vez mais frequentes. Segundo o psiquiatra Leonardo Maranhão, no Brasil, não há estatísticas que definem o número de casos já registrados. Porém, há uma estimativa de que a incidência do distúrbio seja de 1% a 3% da população entre 0 a 17 anos, o que significa, aproximadamente, oito milhões de jovens.

A médica de família e comunidade com habilitação em saúde mental, Maraísa Frota, explica que a depressão infantil, assim como em adultos, não tem embasamento científico comprovando que ocorre devido a um problema biológico. De acordo com a médica, os distúrbios estão ligados às questões externas, que acabam mexendo com o psicológico da criança ou adolescente.

Entre as principais causas externas que podem influenciar na depressão infantil, a médica destaca a falta de apoio social; desestrutura familiar, quando há muitos conflitos; famílias numerosas, quando há um filho que recebe mais atenção, o “preferido”; pais que estão apenas voltados ao trabalho; e a escola, por conta dos bullyings.

“A estrutura familiar ainda continua sendo o principal fator. Quando a criança não possui estabilidade familiar, ela fica mais vulnerável aos fatores externos que causam a depressão, pois é na família que ela pode encontrar o apoio necessário”, explica a médica.

Existe, ainda, a tendência genética, quando a pessoa já tenha tido qualquer transtorno mental ou histórico familiar. Em alguns casos, estes fatores podem influenciar e causar depressão, conforme Maraísa.

Para a médica, a falta de direcionamento espiritual, de ter uma conexão com Deus ou entidade que a pessoa acredite ser superior, também é um fator que contribui com que a criança se torne depressiva.

“A criança fica mais frágil, pois não há um acompanhamento espiritual, não tem algo em que acreditar. Nessa fase, talvez ela ainda não tenha noção de elo. Em alguns casos, em que há o suicídio, por exemplo, algumas pessoas, já na fase adulta, desistiram de cometer por conta da mãe ou algum familiar. A criança, muitas vezes, ainda não consegue pensar dessa forma”, acrescenta.

Na fase infantil, a depressão torna-se um pouco mais difícil, pois a criança ainda está em processo de formação. De acordo com Maraísa, a criança ainda não tem condições de lidar com os eventos traumáticos da vida, pois ainda não teve tempo para aprender a lidar com determinadas situações.

Maraísa é médica de família e comunidade com habilitação em saúde mental (Foto: Divulgação)

Como identificar

Para identificar a depressão, a médica alerta que os pais precisam observar melhor seus filhos. Crianças que ficam isoladas por muito tempo e preferem lugares escuros, que ficam muito tempo na internet e preferem jogos virtuais a brincar com outras crianças, são as mais vulneráveis.

“Geralmente, são crianças que não possuem vida social ampla, que preferem o isolamento, deixam de ser ativas e muitas vezes não querem comer. Os pais precisam observar, ainda, o comportamento, que, muitas vezes, passa a ser agressivo”, afirma.

A médica destaca, ainda, que muitas crianças, apesar de agitadas, podem apresentar características da depressão. Ou seja, nem sempre o isolamento será um fator de identificação da depressão. Há crianças que apresentam, também, dificuldade de aprendizado na escola, somado a falta de atenção.

Como evitar

A presença constante da família, cuidando, dando apoio, amor e orientação, é uma das formas de evitar o estado depressivo, conforme Maraísa. A tecnologia também precisa ser racionalizada e usada como aliada.

“Os pais precisam acompanhar o que o filho está consumindo na internet e usá-la como aliada para evitar o estado depressivo. Além disso, é importante que os responsáveis acompanhem a criança na vida escolar, na questão do aprendizado ou se ele passa por algum tipo de bullying”, ressalta a médica.

Tratamento é feito com terapia e pode envolver os pais

O primeiro passo do tratamento é o acompanhamento psicológico, por meio de terapias, além da inclusão de atividades complementares que ajudem a superar a depressão. A princípio, não há prescrição de medicamentos, mas, caso seja preciso, a médica afirma que os remédios são necessários para controlar o estado depressivo.

Nos casos em que é necessário o uso de medicamentos, a médica alerta que o uso de remédios, ainda na infância, pode trazer consequências, como o atraso no desenvolvimento cognitivo da criança. “Para um cérebro que ainda está se formando, os medicamentos podem atrapalhar no crescimento. Mas o tratamento é importante, pois uma criança depressiva tem mais chance de se tornar um adulto depressivo”, disse.

Para que o tratamento obtenha o resultado esperado, em alguns casos, os pais também são introduzidos na terapia. “Não adianta mandar apenas a criança para o psicólogo. Os pais também são chamados para conversar, principalmente, quando é identificado o problema dentro da família”, esclarece Maraísa.

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