Imigrantes ‘invadem’ o comércio e Centro de Manaus vira Torre de Babel

‘Buenos días’, ‘Gracias’ e algumas palavras em mandarim e japonês estão entrando no cotidiano de quem compra ou trabalha na região central da cidade. ‘Boom’ imigratório iniciou há dez anos

Manaus – O Centro de Manaus está falando outros idiomas. Só de passar pela região, os clientes já percebem a mudança – são haitianos, venezuelanos, chineses e até dominicanos que tomam espaços na principal área de comércio formal e informal da capital amazonense. De acordo com a Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) o ‘boom’ imigratório foi iniciado há dez anos. Só da Venezuela, já passaram pela capital amazonense cerca de 15 mil pessoas, segundo o órgão.

‘Buenos días’, ‘Gracias’ e algumas palavras em mandarim e japonês estão entrando no cotidiano de quem compra ou trabalha na região central da cidade. Segundo o último relatório de vistos publicado pela Polícia Federal (PF), em 2017, Haiti, Colômbia, Peru, Japão e Cuba lideravam as autorizações de entrada no País, pelo Amazonas, naquele ano.

No comércio informal, imigrantes vendem, no Centro de Manaus, de água a diversos tipos de roupas. (Foto: Reprodução/Record News)

A onda imigratória, segundo a Polícia Federal, é maior entre os homens. Em 2017, 63% dos imigrantes que receberam autorização do órgão para entrar no Brasil pelo Estado eram do sexo masculino. Ao todo, no período, 1.134 imigrantes foram registrados pela Polícia Federal.

Há oito meses, o vendedor de salgados Alans Mata, 23, disse que o fracasso na busca por um emprego formal e a necessidade do sustento da família vinda da Venezuela o levaram ao Centro da cidade. A maioria dos venezuelanos, segundo o governo federal, tem entrada autorizada na condição humanitária.

Hoje, o venezuelano já considera que domina grande parte do português, mas não deixa de falar espanhol em casa. O sotaque do ‘portunhol’ também é percebido por quem compra com o venezuelano. “Só tenho dificuldade quando vocês (brasileiros) falam muito rápido”, disse.

E lábia para venda mesmo no ‘portunhol’ tem funcionado para Alans. De acordo com ele, por dia, 40 salgados são comercializados ao preço de R$ 3.

Em meio aos salgados locais como o folheado e a tradicional coxinha, às 10h da última quarta-feira (23) um salgado já tinha acabado primeiro: a empanada, de receita típica da Venezuela. “Tem muitos venezuelanos morando ou trabalhando no Centro que compram a empanada comigo. Na verdade, brasileiros também, mas são poucos, a maioria é da Venezuela. Eu mesmo faço”, relatou ele.

Já pensando na dificuldade de se adaptar ao idioma, o administrador venezuelano Kleber Gonzalez, 28, disse que procurou cursos para aprender pela internet. Mesmo assim, com apenas um mês na capital amazonense, ele disse que tem dificuldade de entender o idioma.

“É a principal barreira. Para ajudar, tô aprendendo pela internet, mas tenho colegas que ainda não conseguem, aí a gente se ajuda. Como não consegui emprego na minha profissão porque para estrangeiro é mais difícil, estou vendendo artesanato”, disse.

‘Bicos’

Apesar de ter o Ensino Superior, segundo a Polícia Federal, em 2017, a maioria dos imigrantes não tinha uma profissão baseada na graduação, quase sempre no mercado informal. Vendedores e trabalhadores do comércio, além dos estudantes, foram os que mais receberam um visto temporário, permanente ou de residência pela Polícia Federal do Amazonas.

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