Modernidade alimentar causa paradoxo e desafia a nova geração de nutricionistas

Enquanto cada vez mais pessoas buscam alimentação saudável e manter-se em forma, o crescimento de doenças como diabetes e hipertensão mostra que a alimentação ainda é um problema

São Paulo– Nos últimos anos, o consumo de refrigerantes tem caído no Brasil, uma indicação de que as pessoas estão buscando se alimentar de maneira mais saudável e manter-se em boa forma. Contudo, doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como diabetes e hipertensão, que têm forte relação com a alimentação pouco saudável, estão em crescimento. É nesse cenário complexo – e aparentemente contraditório – que estão trabalhando os nutricionistas.

Muitas pessoas ainda não importam com a qualidade da alimentação. (Sandro Pereia)

“Embora uma parcela da população tenha aumentado o consumo de produtos industrializados e ultraprocessados, pela praticidade, também se tem notado uma preocupação dos consumidores com a qualidade, buscando alimentos que promovam saúde e benefícios ambientais”, afirma Célia Regina de Ávila Oliveira, coordenadora-geral do Curso de Nutrição da Universidade Paulista (Unip). Portanto, nas faculdades, os debates buscam entender o paradoxo da modernidade alimentar e os fatores que interferem nos sistemas alimentares, diz a professora.

“As DCNT são de etiologia multifatorial e compartilham vários fatores de riscos modificáveis, como alimentação inadequada, tabagismo, falta de atividade física, obesidade”. Segundo ela, os efeitos interligados da alimentação e outros hábitos sobre a saúde estão levando ao crescimento no número de profissionais da área, já formados, a cursar Nutrição.

Outra contradição com a qual os nutricionistas precisam lidar é o crescimento do mercado fitness, setor que movimenta mais de R$ 8 bilhões só nas academias, segundo a Associação Brasileira de Academias (Acad). Apesar da promessa de uma vida saudável, a busca de um corpo dentro de certos padrões acaba levando muitas pessoas a adotar hábitos alimentares até perigosos.

“Existe uma diferença entre alimentação fitness e saudável. Eles não são conceitos equivalentes. Um dos papéis do curso de Nutrição, e do nutricionista no exercício da profissão, deve ser desmistificar certos conceitos”, afirma Claudia Bogus, uma das coordenadoras do Curso de Nutrição da Universidade de São Paulo (USP). “As lojas de produtos fitness estão cheias de opções pouco saudáveis. Saudável é comida de verdade, natural”.

Assim como a busca por um corpo perfeito pode ir na contramão de bons hábitos alimentares, o glamour de programas de gastronomia pode afastar as pessoas da cozinha. “Os alunos também estão expostos a essa visão. Mas insisto que cozinhar é algo do dia a dia. Se apenas exemplos de preparos difíceis são mostrados na TV, as pessoas se distanciam da cozinha. Por mais que nem todos cozinhem, todos devem estar atentos ao que consomem”, afirma a professora da USP.

Relação com pacientes

Perceber que mais pessoas buscam conhecimento para escolher como se alimentar é algo que Semíramis Domene, coordenadora de curso de Nutrição da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), recebeu bem. “Nosso curso, assim como deve ser em todos os cursos de Nutrição, forma profissionais para a promoção do direito humano a uma alimentação adequada. Acompanho com alegria a tendência de as pessoas buscarem se informar para ter um padrão alimentar que promova saúde”, afirma.

A tendência de a população em geral buscar mais informação pode provocar embates entre as pessoas atendidas e o nutricionista. No entanto, segundo Semíramis, isso não é novidade. “Todo mundo tem uma receitinha de um chá poderoso, todos entendem mais que o nutricionista: o vizinho, a TV, o padre. Uma receita traz um conforto. As pessoas gostam desse modelo, mas ele é irreal. É da natureza do nosso trabalho lidar com essas questões”.

A vontade de propagar informação de qualidade, com bases científicas, e ajudar a população a adotar hábitos de alimentação que promovam saúde tem feito crescer o interesse pela chamada nutrição social, diz Semíramis. “Muitos dos nossos alunos querem trabalhar em unidades básicas de saúde. A ideia é mostrar como aproveitar bem os alimentos, as formas de preparo”.

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