Morre criança internada com raiva humana, em Manaus; Lacen e FVS confirmam doença

A menina de 10 anos, do município de Barcelos, iniciou o tratamento no dia 22 de novembro e teve a morte confirmada neste sábado. O irmão dela, de 17 anos, também morreu vítima da doença

Manaus – A Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) informou, neste sábado (02), o falecimento da menina de dez anos que estava internada na unidade desde o dia 17 de novembro, com diagnóstico de encefalite viral. O Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), também informou que recebeu a confirmação de diagnóstico para Raiva Humana, feita pelo Instituto Pasteur, de São Paulo (SP), laboratório de referência para o Ministério da Saúde.

FMT-HVD utilizou como tratamento da menina de 10 anos o protocolo de ‘Milwaukee’ (Foto: Eraldo Lopes)

A suspeita de Raiva Humana foi levantada desde o início, por conta do histórico dos pacientes para mordida de morcego. Familiares relataram que os irmãos haviam sido atacados pelo animal na comunidade Tapira, no Rio Unini, zona rural de Barcelos, onde residiam. O irmão dela, um adolescente de 17 anos, morreu no dia 16 de novembro, vítima da mesma doença.

Um terceiro caso da mesma comunidade, um homem de 44 anos, que também está no hospital da Fundação, teve o quadro de raiva humana descartado.

Uma equipe do Ministério da Saúde (MS) está no Amazonas desde sexta-feira (1º), para acompanhar o trabalho que vem sendo feito pelas autoridades de saúde local. Na manhã deste sábado, eles estiveram na FMT-HVD, com o diretor-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Bernardino Albuquerque. Também vão acompanhar os trabalhos preventivos, de profilaxia  e de investigação que estão sendo comandados pela FVS-AM na área da Resex do rio Unini, onde a criança morava. Ela é irmã do adolescente que também foi a óbito em decorrência da doença, causada pelo vírus rábico.

Investigação

De acordo com o diretor de Doenças Transmitidas da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), órgão do MS, Márcio Garcia, a equipe de saúde do Amazonas interviu na interrupção do surto de raiva humana no município de Barcelos, enviando equipes ao local para coletar dados. De acordo com a FMT-HVD, apesar de todos os esforços no atendimento à paciente, incluindo a adoção do Protocolo de Milwaukee, indicado pelo Ministério da Saúde, com uso dos medicamentos Biopterina e Amantadina, as chances de sobrevivência eram mínimas desde o início. O tratamento é responsável pelos três únicos casos de cura de raiva humana registrados no mundo.

“O estado dela, desde que deu entrada na unidade, era gravíssimo. Todos os cuidados e procedimentos foram cumpridos, mas não houve involução no quadro. Infelizmente, a letalidade da doença é de 99,9%”, destacou o médico infectologista da FMT-HVD, Antônio Magela, que, junto com uma equipe de pediatras e intensivistas, cuidou da paciente. Ele informou que a paciente apresentou pela manhã instabilidade hemodinâmica, com parada cardio-respiratória não responsiva à reanimação.

“É uma doença rara no País, assim como não é comum a transmissão por morcegos, o que deve ser investigado. O Ministério da Saúde tem feito esse trabalho de acompanhamento sempre que detectado algum caso com o intuito de evitar novas transmissões”, declarou o diretor-presidente da FVS-AM, Bernardino Albuquerque. Ele ressaltou que  os casos mais significativos aconteceram em cidades da fronteira entre o Pará e o Maranhão, entre 2004 e 2005, com 44 pessoas infectadas que foram a óbito. No Amazonas, dois casos foram detectados em 2002, também com óbito.

Segundo o diretor-presidente da FVS-AM, por ser uma situação nova, a transmissão por morcegos vem sendo estudada nos últimos casos. “É preciso saber por que os morcegos estão buscando o homem para se alimentar. Uma das linhas de investigação aponta para fatores naturais, como o desmatamento e a seca, que fazem com que a fonte natural de alimentos desses mamíferos, no caso os animais silvestres, se esgote”, disse.

Vacinação é indicada

A FVS-AM esclarece que a prevenção contra raiva humana, através do uso do soro e vacina está indicado aos pacientes com risco de desenvolver a infecção seja por mordedura de animais suspeitos ou no caso pela agressão de morcegos. O tratamento é feito em quatro doses. De acordo com as informações da Secretaria Municipal de Saúde de Barcelos, a equipe do órgão encontra-se na região do rio Unini, para realizar a sorovacinação profilática nas pessoas agredidas por morcegos nos últimos doze meses.

As ações de vacinação, humana ou animal, são municipalizadas, ou seja, a responsabilidade da execução é das 62 Secretarias Municipais de Saúde do Amazonas, que devem realizar anualmente as campanhas de imunização de cães e gatos em todas as comunidades de seu território e também os esquemas de sorovacinação de profilaxia da raiva humana nas pessoas agredidas por animais.