‘O caminho do crime’: uso da tecnologia sustenta acusação contra réus

A polícia obteve informações obtidas junto a escutas telefônicas e mensagens de texto. O trajeto feito por réus do caso Oscar também foi rastreado

Manaus – O uso da tecnologia foi fundamental para o sustento da acusação dos réus do processo que julga a autoria e a motivação para a morte do delegado de Polícia Civil Oscar Cardoso, ocorrida em março de 2014. O julgamento iniciou na manhã e seguiu pela noite desta sexta-feira (13), no Fórum Ministro Henoch Reis, na zona centro-sul de Manaus.

O julgamento ocorre nesta sexta-feira, no Fórum Henoch Reis (Foto: Pablo Trindade)

São réus no processo João Pinto Carioca, o ‘João Branco’, que é apontado como um dos principais líderes da organização criminosa Família do Norte (FDN), Marcos Roberto Miranda da Silva, o ‘Marcos Pará’, Diego Bruno de Souza Moldes e Messias Maia Sodré.

Durante o julgamento, o delegado Mário José da Silva Júnior, que na época do crime atuava no setor de repressão ao crime organizado, também foi ouvido como testemunha. Mário Júnior demonstrou o caminho feito pelas investigações, da época, para refazer o trajeto dos réus, com exceção de ‘João Branco’, cujo sinal telefônico não foi localizado pelas investigações.

O rastreamento, chamado de ‘O Caminho do Crime’ pelo promotor Ednaldo Medeiros, do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPEAM), foi realizado a partir de informações obtidas junto à operadora de telefonia celular com dados que apontavam o deslocamento dos réus por Manaus.

‘O Caminho do Crime’

Na demonstração do caminho feito pelos réus, Mário Júnior demonstrou, para o plenário, os locais a partir da exposição de mapas online. A testemunha apontou que os caminhos feitos pelos réus, detectados no rastreamento, são os mesmos obtidos durante a fase de coleta de depoimentos da Polícia Civil. As investigações contaram, também, com informações obtidas junto a escutas telefônicas e mensagens de texto transferidas entre os celulares e obtidas após autorização judicial.

O delegado Thomaz Augusto Vasconcelos Dias também foi ouvido como testemunha. Durante o julgamento, Thomaz apontou que, na organização criminosa ‘Família do Norte’, os réus estão hierarquicamente abaixo de ‘João Branco’. O delegado também apontou que, em mensagens captadas pelo setor de inteligência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), na época, ‘João Branco’ era tratado pelos subordinados pelo codinome ‘Potência Máxima’.

Ainda no julgamento, Thomaz apontou que ‘João Branco’ usava, na época do crime, um aparelho cuja marca não gera localização a partir de antenas de operadoras de telefonia, de forma que não foi possível obter o rastreamento do caminho feito pelo réu, no dia da morte do delegado Oscar Cardoso.

Em frente ao presidente do júri, o juiz de Direito Rafael Cró, Thomaz acrescentou ter recebido a informação de que uma conversa, por mensagens de texto, entre ‘João Branco’ e um dos ‘soldados’ da facção havia sido captada. O assunto da conversa era a morte de um delegado, a quem se descobriu, no dia do crime, que era Cardoso.

Na época, segundo apontou Thomaz, não se sabia quem era o delegado alvo do plano e nem de onde partiria a autoria do crime, devido ao não rastreio do telefone de ‘João Branco’. Ao tomar conhecimento da morte, o delegado apontou para a necessidade de se ‘fechar’, imediatamente, o semiaberto do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), onde ‘João Branco’ cumpria pena. Já na época, Thomaz acreditava que ‘João Branco’ estava entre os autores do crime. Outras duas testemunhas foram dispensadas no julgamento.

Mário Júnior afirmou, enquanto testemunha no julgamento, que os dados obtidos pela operadora de telefonia são impossíveis de ser manipulados pela polícia e que apontam que os réus estiveram no Compaj, além do bairro São Francisco, zona sul de Manaus, onde o crime foi registrado e no Distrito Industrial, zona sul, onde o carro usado no caso foi incendiado.

Na fase de debates do julgamento, iniciada por volta de 17h30, o promotor chamou o rastreamento de ‘O caminho do crime’. “É um processo que acompanho desde o início e coloca, no banco de réus, uma organização criminosa, cujo líder é o ‘João Branco’ que nos olha dali”, disse o promotor, repetindo o que havia sido dito por Thomaz e apontando para a imagem projetada de ‘João Branco’, do Paraná, exposta na parede do Plenário do Júri, no Fórum Ministro Henoch Reis, na zona centro-sul da capital.

A fase de debates possui 2h30 para acusação e 2h30 para defesa, seguindo de réplica para a promotoria, de tréplica para a defesa e manifestação dos jurados. A previsão do juiz Rafael Cró é que o julgamento termine ainda na madrugada deste sábado (14). “Os trabalhos estão se desenvolvendo dentro da normalidade e esperamos que assim continue até o final”, finalizou o juiz.

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