Pacientes em TFD estão sem o benefício há três meses

Cerca de 35 pacientes renais e acompanhantes do Amazonas que estão em Tratamento Fora de Domicílio (TFD), em Curitiba, no Paraná, relatam problemas causados pela falta de recursos

Manaus – Cerca de 35 pacientes renais e acompanhantes do Amazonas que estão em Tratamento Fora de Domicílio (TFD), em Curitiba, no Paraná, estão há três meses sem o benefício financeiro do governo do Estado que garante a alimentação, transporte, hospedagem e a passagem de deslocamento. Desde 2016, sem transplantes de rim e fígado a única esperança na fila do transplante é fazer o tratamento fora do Amazonas.

Pacientes gravaram vídeo denunciando o problema e cobrando uma solução do governo do Estado. (Foto: Reprodução)

Com insuficiência renal e fazendo tratamento há três meses, enquanto aguarda a doação e compatibilidade de um rim, a manicure Civete Quara, 47, recebeu o benefício somente uma vez e está preocupada com a falta de recursos financeiros.

“Meu outro irmão trabalha como Uber e na Prefeitura então eles estão bem, na medida do possível. Mas tem gente com diabetes, que não podem trabalhar, que não tem mais dinheiro para se manter e estão sendo despejados”, relatou o irmão de Civete, Thiago Quara.

De acordo com Thiago, quando a família contata a Secretaria de Estado de Saúde (Susam), cobrando um posicionamento com relação aos pagamentos, são informados que não há nenhuma previsão.

A portaria de número 55 da Secretaria de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde (MS), diz que o TFD é um instrumento que usado para garantir, de forma gratuita, o tratamento médico a pacientes portadores de doenças não tratáveis no município de origem, por falta de condições técnicas necessárias na localidade.

Os pacientes do Amazonas atendidos no Paraná divulgaram um vídeo pedindo a continuidade do repasse para a manutenção dos recursos. Vivendo em repúblicas, em casas e quartos alugados a maioria está se endividando para continuar mantendo o tratamento no Paraná, conforme relatou outro paciente renal, o biólogo Carlos Rocha, 50.

“Situações bem indigestas com relação ao não pagamento do TFD. A gente gostaria de saber quando esse pagamento vai estar disponibilizado novamente, para que a gente não tenha que voltar para o Estado do Amazonas e assinar a nossa sentença de morte lenta já que o Estado do Amazonas não está funcionando seu sistema de saúde”, disse Rocha.

Pacientes de Manaus e de municípios do interior estão na fila do transplante na cidade sofrendo com a situação da falta de dinheiro até para se alimentar, segundo relatou Thiago.

“Cerca de 35 a 40 famílias estão em Campo Largo, um distrito de Curitiba, fazendo hemodiálise e na fila de transplante de rim. Aqui, no Amazonas, não existe o transplante, alguns morrem na fila de espera e poucos são os

O biólogo Carlos Rocha relatou que vive, atualmente, em uma casa em que somente o aluguel custa R$1 mil, mas as despesas aumentam com as cobranças de água e energia elétrica, além da alimentação.

O paciente relata que apenas no primeiro mês recebeu a ajuda de custo da Susam referente aos primeiros 15 dias, no valor de R$ 1,5 mil, a ajuda mensal é de R$ 2 mil quando existe a recomendação para o TFD, conforme relatou o biólogo.

Segundo o biólogo, pacientes do grupo estão em tratamento no Paraná e precisam dos cuidados integrais dos acompanhantes. “Alguns acompanhantes estão buscando alternativas para tentar se manter, mas tem pacientes que não tem condições, estão transplantados e precisam do acompanhante”, disse Rocha.

Ainda no vídeo, Rocha relata que outros pacientes estão há mais de quatro meses sem receber. “Estamos passando uma situação humilhante com nossos credores”, relatou.

Em resposta à reportagem, a Susam informou que “tomou conhecimento do caso recentemente e está avaliando cada situação para verificar o encaminhamento a ser dado”. De acordo com a Susam, “a análise está sendo feita, criteriosamente, para verificar o motivo da suspensão e se podem ser retomados”.

Ainda conforme a Susam, em 2018 o TFD realizou 3.070 atendimentos, sendo 386 pacientes de primeira vez e 2.521 de retorno. Em relação a procedimentos cirúrgicos fora do Estado, em 2018 foram realizados 172 transplantes renais e 44 de fígado, já neste ano contabilizaram 31 e 16, respectivamente.

Transplantes
Em agosto do ano passado, a RDC questionou a secretaria sobre a ausência de transplantes no Estado e foi respondida, por meio de nota de esclarecimento, que a previsão era de “no máximo, até o fim de outubro, a unidade começasse a realizar transplante de rins e, em março do ano que vem, o de fígado”.

Na última semana, a Susam informou que “os transplantes de fígado pararam em 2016” e “os de rim, que estavam sendo feitos em parceria com o Hospital Santa Julia, pararam em 2017”. Já os de coração, nunca tiveram, segundo a Susam.

Em relação a ‘fila’ para transplantes, a Susam informou que “ela é considerada zero, quando tem até 50 pacientes, como é o caso do Amazonas, que tem essa média para os transplantes de córnea, o único oferecido no Estado atualmente”. “Como os outros procedimentos não são oferecidos, não existe fila, pois os pacientes são encaminhados diretamente para o Tratamento Fora de Domicílio (TFD) e entram na fila dos respectivos Estados”, afirmou a Susam.

“Uma vida de um paciente renal é muito sacrificada. Ele se separou de sua família, filho, mulher. Estamos morrendo de saudade da casa da gente, da família, mas se obriga a passar por isso porque é uma necessidade, já que não tem condições no Amazonas. E, agora, sem receber, somos forçados a voltar é ser derrotado”, finalizou Rocha.

Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) amplia vagas para hemodiálise no Estado

A construção do novo prédio está orçada em R$ 37 milhões. Foto: Sandro Pereira/Arquivo (5/10/2018)

No final do ano passado o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) anunciou a implantação do Serviço de Nefrologia no Estado, ampliando as vagas para hemodiálise. Na ocasião, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que a obra tinha 37% de conclusão e a previsão de inauguração era para setembro deste ano.

Com o projeto, seriam apenas mais outros seis pontos de hemodiálise onde, segundo o MEC, atualmente o hospital opera com 12 pontos. O Serviço de Nefrologia deve funcionar na torre dois do novo prédio do HUGV.

O MEC garante que unidade terá capacidade para até 30 máquinas, duplicando a capacidade de filtração da água (osmose). Com o início de funcionamento do novo setor, o HUGV afirma que vai “tentar viabilizar sua entrada no programa de transplante renal”.

A construção do novo prédio está orçada em R$ 37 milhões e está sendo custeada com recursos federais.