Pacientes morrem sem oxigênio no interior

O Hospital Regional de Coari registrou a morte de sete pacientes internados com a covid-19 por falta de oxigênio, nesta terça-feira (19), segundo divulgou a prefeitura do município

Manaus – Um dia após o governador do Amazonas, Wilson Lima, falar, em Brasília, que havia conseguido estabelecer controle na distribuição de cilindros de oxigênio em unidades de saúde do interior do Estado, o Hospital Regional de Coari (a 362 quilômetros de Manaus) registrou, ontem, a morte de sete pacientes internados com a Covid-19 pela falta do insumo, segundo divulgou a prefeitura do município.

Segundo a nota divulgada, a cidade deveria ter recebido 40 cilindros de oxigênio às 18h desta segunda-feira (18), mas o voo que levaria o insumo foi direto para o município de Tefé e ficou impossibilitado de retornar, já que, no momento, o aeroporto não opera voos noturnos. Os cilindros chegaram a Coari apenas às 7h desta terça-feira (19).
Cilindros retidos

Pandemia No Amazonas, crise de oxigênio começou na última quinta-feira (14), em Manaus (Foto: SES-AM/ Divulgação)

A prefeitura disse na nota que a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas está lidando com a saúde do interior de “forma irresponsável”. “Desde a semana passada, em torno de 200 cilindros do Hospital Regional de Coari estão retidos pelo patrimônio da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas. A maioria aguardando abastecimento, enquanto a outra parte foi distribuída para as Unidades Básicas de Saúde da capital”, diz a nota.

Um morador de Coari disse que uma família que estava com dois parentes internados no hospital teve que escolher quem iria sobreviver, pois só tinha um cilindro disponível.
O aumento no número de internações de pessoas infectadas pelo novo coronavírus levou à lotação dos hospitais e a uma crise no sistema de saúde do estado. Uma força-tarefa em parceria com o governo federal está realizando a transferência de pacientes internados para outros estados para diminuir a lotação desses hospitais públicos.

A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) disse, em nota, que, nesta segunda-feira (18), por um atraso por parte da empresa White Martins em liberar os cilindros que seriam enviados de Manaus para Coari, não foi possível levar o oxigênio em voo direto, considerando que o aeroporto da cidade não opera à noite. Os 40 cilindros foram enviados então em voo para Tefé, para que de lá a carga fosse transportada de lancha para Coari.
Dados da pandemia

A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) registrou, ontem, 1.537 novos casos de Covid-19, totalizando 233.971 casos da doença no Estado.
O boletim, confirma ainda, 142 óbitos por Covid-19, sendo 51 ocorridos na segunda-feira (18) e 91 óbitos encerrados por critérios clínicos, de imagem, clínico-epidemiológico ou laboratorial, elevando para 6.450 o total de mortes.

Na capital, de acordo com dados da Prefeitura de Manaus, nesta segunda-feira (18), foram registrados 83 sepultamentos por Covid-19. O boletim acrescenta ainda que 29.468 pessoas com diagnóstico de Covid-19 estão sendo acompanhadas pelas secretarias municipais de saúde, o que corresponde a 12,59% dos casos confirmados ativos.

Entre os casos confirmados de Covid-19 no Amazonas, há 1.768 pacientes internados, sendo 1.159 em leitos (484 na rede privada e 675 na rede pública), 590 em UTI (266 na rede privada e 324 na rede pública) e 19 em sala vermelha, estrutura voltada à assistência temporária para estabilização de pacientes críticos/graves para posterior encaminhamento a outros pontos da rede de atenção à saúde.

Há ainda outros 618 pacientes internados considerados suspeitos e que aguardam a confirmação do diagnóstico. Desses, 484 estão em leitos clínicos , 93 estão em UTI e 41 em sala vermelha.
Enterros na capital

Ainda nesta terça-feira (19), a Prefeitura de Manaus informou que um total de 177 sepultamentos foi registrado nos cemitérios da capital do Amazonas.

Juiz quer devolução de cilindros de oxigênio em até 48 horas

O juiz de Direito Fábio Alfaia, titular da 1.ª Vara da Comarca de Coari, deferiu ontem, pedido de concessão de Tutela de Urgência Provisória, determinando que o Estado do Amazonas libere o envio de 155 cilindros de oxigênio medicinal, devidamente reabastecidos, para Coari, no prazo de 48 horas.

Conforme os autos, os cilindros teriam sido enviados para abastecimento, mas foram “retidos”. Enquanto isso, o Município informa que a rede pública municipal de saúde de Coari “encontra-se operando com apenas quatro cilindros de oxigênio, sendo que há 15 pacientes internados fazendo uso contínuo de oxigênio”, de acordo com a petição.

Em caso de descumprimento, o juiz fixou multa diária no valor de R$ 100 mil, com limite máximo de R$ 10 milhões, com base no art. 297 do Código de Processo Civil, a ser suportada pelo Estado, pelo secretário de Estado de Saúde e pela empresa requerida, no caso a White Martins Gases Industriais do Norte, cada um respondendo individualmente pela sanção processual, conforme a decisão.

O juiz Fábio Alfaia também determinou que fosse pautada uma audiência de conciliação (art. 334, CPC), por meio de videoconferência.

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