Polícia Civil registra 11 crimes em menores por dia

Em dois anos, Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente registou 8.225 ocorrências de crimes, sendo abandono de lar, estupro de vulnerável e maus tratos, as mais recorrentes

Manaus – Por dia, 11 crimes contra menores de idade, em média, são registrados na Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). Conforme a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), nos últimos dois anos (2017 e 2018), a Depca registrou 8.225 ocorrências de crimes, sendo abandono de lar, estupro de vulnerável e maus tratos as situações mais recorrentes

Somente no ano de 2018, a Depca registou o total de 4.182 ocorrências. Em termos de quantidade, as ocorrências de abandono de lar compreendem a 17% deste número, 15% foram por estupro de vulnerável e 13% por maus tratos. Já em 2017, a delegacia registrou 4.043 ocorrências, conforme a SSP-AM.

Abandono de lar, estupro de vulnerável e maus tratos são os crimes mais recorrentes (Foto: Pablo Trindade/Arquivo)

Segundo o conselheiro do Conselho Tutelar da Zona Leste 1, Hildo Almeida, os casos mais atendidos na instituição são os de abandono de incapaz, estupro de vulnerável e maus tratos, que envolvem lesão corporal.

“Os casos de maus tratos são as ocorrências mais atendidas. Na maioria das vezes, são denúncias realizadas por terceiros, como vizinhos. Nós percebemos que existe, dentro do ambiente familiar, uma certa proteção e eles acabam denunciando somente quando a situação já chegou ao extremo”, disse.

O crime de maus tratos, de acordo com o conselheiro, vai desde uma simples puxada de orelha a uma lesão mais forte, que acaba deixando marcas no corpo da vítima. Geralmente, os casos iniciam desde o primeiro ano de vida da criança e vão até os 11 anos. Essa faixa etária lidera o número de ocorrências.

Conforme Almeida, o Conselho Tutelar recebe em torno de 15 a denúncias, por mês, com vítimas em situações de maus tratos. Além do mau trato físico, quando há agressão corporal, o crime inclui, ainda, o mau trato psicológico, quando a vítima recebe ameaças por parte do autor.

“Nos casos de maus tratos físicos, nós já acompanhamos vítimas agredidas com pedaço de pau, fio elétrico e com dos dedos queimados. Muitas vítimas, principalmente crianças, não denunciam por medo de sofrer novas agressões. O adolescente já sabe, de uma certa forma, se defender”, acrescentou.

Abandono de incapaz

O conselheiro contou que um dos tipos de abandono de incapaz que vem aumentando é quando as crianças são esquecidas na escola, passando do horário de saída da aula. Segundo Almeida, geralmente as escolas estipulam uma tolerância de 15 minutos para que os possam buscar seus filhos na escola. Porém, já foram registrados casos em que alunos que estudam no turno matutino ficaram na escola até o término do turno vespertino.

“Nós temos um trabalho direto com as escolas. Já acompanhamos um caso em que uma criança foi esquecida por mais de três horas na escola e isto se repetiu por três vezes. A mãe foi chamada até a escola e advertida”, contou o conselheiro.

Estupro

Os casos de estupro de vulnerável também são frequentes. Almeida relatou que, no caso mais recente acompanhado pelo Conselho, uma mulher, de 20 anos, denunciou, antes do Carnaval, que sofreu abuso sexual, por parte de um vizinho, dos sete aos 12 anos de idade.

A vítima nunca havia procurado uma delegacia ou Conselho Tutelar para relatar a ocorrência. Durante a denúncia, a mulher relatou que costumava ficar em casa, cuidando dos irmãos mais novos, enquanto a mãe ia trabalhar. Como a mãe passava o dia fora, ela pediu a um casal de vizinhos para que fossem olhar as crianças.

Na oportunidade, o vizinho se aproveitava da situação e abusava da menina. “Segundo a vítima, hoje, ela tem uma filha e não queria que a criança passasse pela mesma situação que um dia ela viveu. A mulher contou para a mãe e as duas vieram até o Conselho Tutelar relatar o crime”, relatou o conselheiro. O caso foi encaminhado para a Depca.

Acompanhamento

Após receberem as denúncias encaminharem o caso à especializada, o Conselho Tutelar encaminha, também, as vítimas para fazerem acompanhamento psicológico. Almeida afirmou que a maioria das vítimas ficam com trauma psicológico e precisam ser acompanhadas por profissionais por algum tempo.

Para Almeida, o Conselho Tutelar é a porta aberta para a comunidade realizar as denúncias por ser mais acessível. Segundo ele, as campanhas junto à comunidade têm sido determinantes e estão encorajando as vítimas a denunciarem.