Mulher denuncia vizinho de agressão e homofobia: ‘Vai apanhar feito homem’

Vítima diz que já sofreu outros ataques do vizinho por conta de sua orientação sexual. Mulher não pôde registrar o crime de ódio na delegacia

Manaus – “Quer ser homem? Vai apanhar feito homem então”. Foi assim que a instrutora de informática Mary Lúcia Vasconcelos, 45, que é homossexual, afirma ter sido recebida pelo vizinho, ao passar pela frente da casa do suspeito e levar um soco no rosto, no bairro Colônia Terra Nova, zona norte de Manaus. Ao tentar registrar Boletim de Ocorrência (B.O) como homofobia, na Delegacia da Mulher, a instrutora disse que não conseguiu registrar o crime de ódio, sendo registrado apenas como lesão corporal com injúria.

O suspeito, segundo Mary, é um vizinho que, em outras ocasiões, já demonstrou ações de ódio em relação a orientação sexual da instrutora.

O caso será investigado pelo 18º Distrito Integrado de Polícia (Foto: Divulgação/PC)

Ela relatou que, no final da tarde de segunda-feira (29), ao tentar desvirar a tela do smartphone, o vizinho achou que Mary estava o gravando, quando ele estava sentado próximo ao local onde ela estava.

“Eu ia passando na rua, eu fui levar flor de laranjeira para a minha amiga, pra ela dormir melhor. Daí não sei mexer no meu celular direito e estava tentando desvirar a tela e ele estava na rua sentado na frente da casa dele. Ele perguntou se eu tava filmando ele, porque se estivesse filmando ele ia me processar. Foi quando eu disse ‘quem tem processo sou eu’. Ele levantou e disse que ‘se eu queria ser homem, ia apanhar feito homem’, me dando um soco na cara”, contou.

O processo que Mary se referiu, segundo ela, é mais antigo, do ano de 2014, quando as ofensas e até agressões começaram a acontecer, conforme a instrutora. “Ele queria comprar meu terreno. Ele está construindo um prédio e eu acho que ele não tem espaço para garagem, por isso queria o meu terreno. Mas eu disse que ele não estava à venda. Não venderia nem por um milhão. Foi aí que começou”, contou ela.

Era comum a vizinha de fundo do suspeito ser agredida verbalmente, segundo informou Mary. “Sim, já me chamou de machuda, aberração. Disse que ia me estuprar para ver eu virar mulher”, contou.

Após procurar a delegacia, por conta dos ferimentos, a mulher foi informada que teria que receber primeiramente os cuidados médicos. Por volta das 22h, quando a instrutora foi liberada e procurou a delegacia, ela foi informada que o suspeito, identificado como Iraldo da Silva Vasconcelos, não poderia ser preso porque já teria passado o período de flagrante.

Ainda conforme a instrutora, ela foi informada na delegacia que o caso seria transferido para o 18º Distrito Integrado de Polícia (DIP). “É sempre assim. Eu já não acredito mais em Justiça. Da outra vez se o Fórum (Permanente de Mulheres) não tivesse ido na delegacia não tinha acontecido nada”, disse ela, afirmando que um processo já tramita na Justiça estadual.

Em consulta ao site do Tribunal de Justiça do Estado (TJAM), a reportagem não encontrou nenhum processo desta natureza em nome do suspeito ou da instrutora.

A Polícia Civil (PC) foi contatada sobre o caso. A reportagem questionou o motivo da prisão em flagrante não ter sido efetuada e pediu detalhes sobre a agressão registrada na Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher (DECCM), no conjunto Eldorado, zona centro-sul de Manaus.

A PC informou somente que, de acordo com o registro do Boletim de Ocorrência (BO), registrado na Delegacia da Mulher, a lesão corporal com injúria ocorreu na segunda-feira (29), por volta das 17h, em via pública, na Rua Êxodo, bairro Colônia Terra Nova, zona norte da capital.

Conforme o BO, uma mulher de 45 anos estava andando em via pública quando o vizinho dela, um aposentado de 45 anos, começou a agredir a vítima verbalmente, dizendo que a mesma estava filmando ele. Em ato contínuo o aposentado começou a agredir a mulher fisicamente.

A vítima foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para a realização do exame de corpo de delito. O caso será investigado pelo 18º Distrito Integrado de Polícia (DIP).