Reservas de Desenvolvimento Sustentável são alternativa para ribeirinhos, no AM

Desde 2008, quando a região do Baixo Rio Negro ganhou a classificação de Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), a vida de exploração dos ribeirinhos teve que mudar

Manaus – A natureza deu um grito humano para mim, quando eu liguei minha motosserra e comecei a cortar a árvore – ela gritou”, relatou o ex-madeireiro Roberto Brito, 45, da Comunidade do Tumbira, zona rural da cidade de Iranduba (a 28 quilômetros de Manaus). Desde 2008, quando a região do Baixo Rio Negro ganhou a classificação de Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), a vida de exploração dos ribeirinhos teve que mudar.

Artesã Neide Garrido, 45, produz peças feitas a partir das sementes e juta (Foto: Gisele Rodrigues/Divulgação)

E a alternativa de aliar desenvolvimento à preservação é realidade para 9.609 famílias de outras 583 comunidades que vivem em áreas de RDS no Amazonas. A economia que era baseada na exploração ilegal de madeira na Comunidade do Tumbira deu lugar à agricultura familiar, na pesca de manejo, na retirada inteligente de madeira, além do turismo comunitário.

“Hoje, o olhar meu para a floresta é completamente diferente, essa conexão minha aconteceu quando a natureza gritou feito um ser humano, que estava doendo demais nele e quando você pega um baque você grita”, disse Roberto Brito, que hoje é dono de uma pousada e um restaurante onde recebe turistas.

O ex-madeireiro parou o ciclo que já estava na da terceira geração da família. Atualmente, Roberto é um dos apoiados em programas de apoio ao empreendedorismo da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Ser uma RDS significa, entre outros termos, ser uma área de proteção ambiental e, com isso, apresentar regras específicas na exploração econômica do local. Roberto conta que quando a notícia veio, os moradores pensaram que seriam impedidos de trabalhar.

“Naquela época não ficamos felizes, pensamos que tivessem tirado nosso sustento. As pessoas passaram a ser presas, e a gente, que vivia da floresta, ficou sem rumo. Era o que sabíamos fazer”, contou.

Por mais de 20 anos a rotina dele era adentrar a mata no Baixo Rio Negro e passar dias cortando madeira, enquanto o irmão Nelson Brito, 42, carregava as toras de árvores na cabeça. A maioria era direcionada à construção de embarcações.

O corte e retirada não seguiam qualquer tipo de critério, mas a exploração madeireira por manejo teve que virar rotina a partir da criação da RDS. Apesar de viverem principalmente do turismo comunitário, segundo Nelson, agora os moradores sabem a forma de retirar as toras, dando espaço para as novas sementes brotarem e reduzindo a agressão ao meio ambiente.

O financiamento que partiu da FAS, por meio de 200 empresas e apoiadores, permitiu a melhoria na vida da comunidade, segundo explicou o coordenador da Fundação, Carlos Bueno.

“Os núcleos de conservação e sustentabilidade estão disponíveis para a comunidade, governo, pesquisadores com sala de aula, com internet, placas solares, coletor de água das chuvas e 160 rádios de comunicação, com programas de educação, qualificação para fortalecer as atividades que a comunidade já tinha, mas de maneira sustentável”, explicou Bueno.

O crescimento na renda dos moradores da Vila ocorreu nos anos seguintes a 2010. “Eu pensava como vamos sobreviver sem a madeira? Nosso plano de manejo demorou a sair e surgiu a ideia de receber as pessoas. A primeira vez foi em 2012. No final do dia eu recebi o que eu levava um mês inteiro dentro da mata com a motosserra”, comparou Roberto.

Mergulho na Amazônia

A primeira visita de turistas foi simples, mas mostrou aos ‘forasteiros’ a importância do turismo comunitário na preservação da floresta amazônica. Roberto conta que levou o grupo de nove pessoas para as trilhas que costumava percorrer para desmatar. “Eu ouvi essa ideia: deixa essa motosserra e leva os cara (sic)”, relembrou.

A ideia de optar pela hospedagem dentro das próprias comunidades ocorreu após a entrega do núcleo da comunidade que conta com escolas, auditório, posto de saúde e gerador de energia a diesel e energia solar, além de alojamento.

Na experiência, o turista decide vivenciar de uma forma mais íntima a vida dos ribeirinhos e a própria Amazônia. O sinal de celular praticamente não chega, e as opções de refeição são basicamente restritas à alimentação dos locais, com peixes nobres como tambaqui e pirarucu e as frutas típicas, como cupuaçu e tucumã.

É possível participar, junto aos guias locais, de trilhas terrestres, observação de jacarés e pássaros, passeios de canoa, para cachoeira, além de grupos de artesanato e de produção de farinha.

A melhor época para visitar a região ainda é quando o rio está mais seco, quando pequenas prainhas contrastam a água escura do rio com a areia clara. Isso acontece geralmente a partir de setembro, período em que as chuvas são mais escassas e a visita ao arquipélago de Anavilhanas fica ainda mais bonita. O arquipélago fluvial forma um verdadeiro corredor verde em meio ao negro do rio.

Artesanato usa matéria-prima local e vira opção econômica

Artesanato, por definição do dicionário: “arte e técnica do trabalho manual não industrializado”. Há 72 quilômetros do Polo Industrial de Manaus (PIM), peças feitas a partir das sementes, juta, cor e criatividade viram artigos de decoração de qualidade e ainda promovem a sustentabilidade no meio da floresta amazônica, além do sustento das famílias ribeirinhas da Comunidade do Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS).

A artesã Neide Garrido, 45, conta que todo o trabalho precisa ser em cadeia. Segundo ela, a extração do material já é feita por outras famílias e mesmo quando não há visitantes na ilha do Tumbira, ela pede a matéria-prima para que a economia gire.

“Não está faltando material, não é todo dia que eu vendo artesanato. Mas eu pensei, tenho famílias que precisam, que dependem para comer então eu começo a fazer o artesanato e peço material antes mesmo de ter turista, assim eu sempre tenho à pronta-entrega”, disse ela.

Lustres ao preço de R$ 80, cestos, biojoias com preços acessíveis, são produzidos e vendidos na comunidade. Graças a uma parceria com o Banco Bradesco, que financia projetos da FAS, o comércio ainda possibilita o pagamento via cartão de crédito e débito.

Pesquisador alerta para os riscos à ciência no novo governo

Um dos aliados do desenvolvimento sustentável é a ciência e, na avaliação do pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, as pesquisas relativas ao meio ambiente na Amazônia estão sob ameaças. Fearnside é norte-americano e trabalha há 30 anos no Brasil em pesquisas na região amazônica.

Um artigo de Fearnside com o título ‘Why Brazil’s New President Poses an Unprecedented Threat to the Amazon’ (Por que o novo presidente do Brasil represesenta uma ameaça sem precedentes à Amazônia) foi publicado no site da Universidade de Yale, do Estado de Connecticut, nordeste dos Estados Unidos. No texto, Fearnside afirma que: “O recém-eleito Jair Bolsonaro, um nacionalista autoritário, às vezes chamado de ‘Trump tropical’, definiu uma agenda ambiental que expõe a Amazônia ao desenvolvimento generalizado, colocando em risco uma região que desempenha um papel vital na estabilização do clima mundial”.

De acordo com Fearnside, as políticas ambientais devem estar fundamentadas em fatos, dados e estudos científicos. “Se houver limitação à capacidade de pesquisas na região, é muito mais provável que se tome decisões erradas no campo ambiental. Assim como pode-se perder oportunidade de fazer coisas que possam dar certo. Assim como perder o treinamento de uma geração de pesquisadores”, disse.

Segundo o pesquisador, o presidente eleito aparenta não dá importância à pesquisa científica. “Ele aparenta ignorar milhares de trabalhos científicos que citam o problema do aquecimento global, por exemplo. Como ele tem a menor ideia, diz se tratar tudo isto de uma ‘fraude’”, disse.

O pesquisador cita, ainda, haver pessoas no campo de influência de Bolsonaro que não aceitam o conceito de evolução das espécies. “Querem que o Criacionismo seja ensinado nas escolas da mesma forma que o Darwinismo. Isto é gravíssimo”.

Questionado se eventual pressão da comunidade científica seja capaz de mudar o entendimento do presidente eleito, Fearnside opinou que grupos próximos a Bolsonaro, como os militares, podem convencê-lo da importância das pesquisas científicas.

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