Saúde pública do Amazonas acumula problemas e prejudica milhares de pessoas

Filas na madrugada, falta de leitos, escassez de materiais e até agressões estão entre os relatos. O Sisreg foi criado com o intuito de minimizar filas, mas usuários afirmam que o sistema não funciona como deveria

Manaus – A crise na saúde pública do Amazonas tem prejudicado milhares de pessoas todos os dias. A reportagem percorreu diversas unidades de saúde da capital e constatou os diversos problemas relatados pela população: filas na madrugada para marcação de exames e consultas, falta de leitos nos hospitais, escassez de materiais para cirurgias e até agressão por maus-tratos por parte de médicos e funcionários.

Pessoas de diferentes idades e enfermas ainda precisam chegar durante a madrugada ou até mesmo dormir em frente às unidades de saúde administradas pelo governo do Estado. A reportagem constatou, na quinta-feira (21) e sexta-feira (22), o problema em policlínicas e em hospitais de três zonas da cidade (norte, sul e leste).

Maria Alves, 36, havia chegado às 18h de quarta-feira e permaneceu na Policlínica PAM da Codajás, no bairro Cachoeirinha, zona sul, durante a madrugada para ser a primeira da fila e tentar conseguir uma consulta com um fonoaudiólogo e um psicólogo.

“Mesmo a gente vendo o aviso na plaquinha dizendo que não é preciso mais enfrentar as filas, eu só consigo marcar uma consulta para o meu filho assim, porque o Sisreg (sistema de marcação de consultas) me dá indignação”, afirmou.

“Meu filho, há quase três anos atrás, precisou de uma ressonância magnética e nunca tinha vaga no sistema, então eu tive que fazer exame particular e fora outros exames que ficaram pra trás que a gente faz particular ou então deixa pelo sistema que demora meses. Eu espero que um dia melhore esse sistema”, completou.

Pessoas de diferentes idades e enfermas enfrentam longas filas para marcar atendimentos em unidades de saúde administradas pelo governo do Estado (Foto: Alan Geissler/GDC)

O Sistema de Regulação (Sisreg) foi criado com o intuito de minimizar e até mesmo eliminar as temidas filas, mas, assim como para Maria, outros usuários afirmam que o sistema não funciona como deveria. A dona de casa Susana Macedo, 33, leva sua filha que possui necessidades especiais no mesmo médico, no Instituto de Saúde da Criança do Amazonas (Icam), também na zona sul, há 14 anos, e diz que, com o passar do tempo, ao invés de melhorar, a situação da saúde está ficando pior.

“Aqui, logo no início, não tinha essa coisa de ficar na fila. Antes era mais tranquilo. Só que, com passar dos anos, foi ficando pior e agora a gente tem que chegar de madrugada para poder conseguir marcar consulta e retorno”, criticou.

“Por esse sistema, exame demora muito e acabei tendo que fazer particular a tomografia para minha filha. Fiquei, desde janeiro de 2018, esperando por esse sistema e até hoje não me ligaram. Se minha filha tivesse com caso de vida ou morte ela já tinha morrido”, lamentou.

Além da demora no sistema, a aposentada Francisca Araújo, 69, também disse que, mesmo chegando pela madrugada nas policlínicas, as vezes não é possível marcar consultas. Mesmo doente, ela teve que voltar, pela segunda vez, para tentar um retorno para o neto de 6 anos de idade.

“Era 4h20 quando cheguei aqui na semana passada. Hoje, eu cheguei 4h, mas, semana passada, não consegui remarcar. Quando chegou o horário de entregar a ficha, eles falaram que não iam poder entregar, porque eles tinham que atender as pessoas que ficaram pendentes por conta da greve (dos médicos). Então, tive que voltar e estou aqui na esperança de conseguir marcar este retorno. Não tem outro jeito, tem que vir assim mesmo gripada, não estando bem de saúde, mas o que a gente pode fazer?”, indagou.

Éder Peixoto, 37, também enfrentava a fila pela segunda vez este mês, por não ter conseguido marcar o retorno da filha. “Essa é a segunda vez que eu estou aqui para marcar retorno. Estou a 25 dias tentando marcar esse retorno para minha filha e hoje espero que dê certo,” afirmou.

O problema com as filas, durante a madrugada, não é um caso somente das policlínicas. Grandes hospitais, como o Francisca Mendes, que é referência em cirurgias cardíacas, também possuem esse cenário. O aposentado José Silva, 73, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), há quatro anos, e enfrenta fila sempre que precisa marcar consultas ou exames.

“Desde quando eu sofri esse AVC, eu fico vindo marcar exames e é uma dificuldade, porque eu tenho que pegar dois ônibus para vir para cá. Eu moro no João Paulo e realmente é uma dificuldade para mim ter que enfrentar essas filas, mas vou fazer o quê? Tenho que vir. O jeito é ter fé de que um dia essa situação vai melhorar”, disse.

Faltam materiais e leitos

Outro problema relatado pelos pacientes é a escassez de materiais e a falta de leitos em hospitais. Walter Vale, 49, disse à reportagem que seu sogro sofre com a demora para fazer uma cirurgia no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) Dr. Platão Araújo, na zona leste da capital. Walter alega que já espera há cerca de um ano.

“O atendimento aqui é muito devagar, meu sogro tá com problema de próstata e está tentando uma cirurgia, há quase um ano, e agora que talvez ele consiga fazer essa cirurgia. Eu não sei direito o que acontece, mas a fila é enorme e acaba que não tem uma ordem porque já marcaram a cirurgia outras vezes só que quando chega uma pessoa que eles alegam ser mais urgente aí põe na frente. Isso faz com que a pessoa fique para trás e é capaz até da pessoa morrer” relatou.

Pacientes denunciam a pouca oferta de leitos no HPS Platão Araújo (Foto: Alan Geissler/GDC)

Ainda no Platão Araújo, uma acompanhante de paciente, que preferiu não ser identificada na reportagem, disse que passa a noite com sua mãe, que está internada na unidade hospitalar, e está tendo que dormir no chão, “Eu vim ficar com a minha mãe durante a madrugada. Precisava descansar um pouco, mas não tem estrutura para o acompanhante ficar e tive que me deitar no chão”, explicou.

Pacientes denunciam maus-tratos de médicos e funcionários

Maus-tratos por parte de médicos e funcionários em hospitais, principalmente em maternidades, também estão entre as queixas da população. Um caso que chamou atenção, na última semana, foi o de uma mãe que foi agredida durante o parto na Maternidade Balbina Mestrinho, bairro Praça 14 de Janeiro, zona sul da capital.

Em um vídeo divulgado em redes sociais, é possível ver o momento em que o médico ginecologista e obstetra Armando Araújo bate nas partes íntimas da vítima, que chora de dor e fala para o médico não chegar mais perto. “Não deixa ele chegar perto. Ele já me ‘malinou’ muito”, disse a vítima, durante o parto.

Depois da divulgação do vídeo, outra vítima do médico Armando Araújo, que pediu para não ser identificada na reportagem, entrou em contato com o GRUPO DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (GDC) relatando que o mesmo médico, a forçou, há quatro anos, quando ainda era uma menina de 14 anos, ter o parto normal mesmo não tendo passagem.

A jovem, atualmente com 18 anos, afirmou que, ainda hoje, o próprio filho sofre com as consequências dos maus-tratos. “Ele gritava comigo e eu não tinha mais força, mas ele insistiu para que eu tivesse parto normal. Meu filho nasceu quase morto, foi preciso fazer reanimação e ele ainda passou um mês na UTI. Ainda tive que ficar ouvindo eles falarem que meu filho ia morrer”, disse.

A Maternidade Balbina Mestrinho tem sido alvo de frequentes denúncias de negligência médica. Ainda neste mês de fevereiro, a dona de casa Ila Arantes Fernandes, 35, e a bebê dela morreram, após parto na maternidade. Segundo a família, Ila passou cerca de 24 horas para ser atendida na maternidade e morreu uma hora mais tarde, após sofrer três paradas cardiorrespiratórias. O marido de Ila, e pai da criança, registrou um Boletim de Ocorrência (BO) no 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP), alegando negligência médica.

Na última semana, a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) anunciou que vai instaurar um Procedimento Administrativo de Apuração de Dano Coletivo (Padac) para investigar casos em série de violência obstétrica nas maternidades e hospitais públicos e privados no Amazonas. A iniciativa ocorre em função do volume de casos semelhantes recebidos e acompanhados pela DPE-AM.

Ao todo, 35 ações envolvendo exclusivamente casos de violência obstétrica foram ajuizadas pela Defensoria de 2009 a 2018, na esfera cível. Destes, 12 envolvem mortes de gestantes ou bebês. Outros casos estão em fase de análise e reunião de documentação para serem ajuizados. Nas ações, a DPE pede indenização por danos morais e materiais.

Denúncias

Mulheres vítimas de violência obstétrica podem procurar a unidade da DPE-AM na Casa da Cidadania, localizada na Rua 2, casa 7, no conjunto Celetramazon, bairro Adrianópolis, na zona centro-sul, e também a sede administrativa, que fica na Rua Maceió, n° 307, bairro Nossa Senhora das Graças, também na zona centro-sul, caso queiram entrar com ação reparatória (indenizatória).

Se for o caso de um ato violento em curso – por exemplo, se a mulher estiver em trabalho de parto e enfrentar obstáculo para conseguir internação – os familiares podem procurar a unidade de Saúde da Defensoria, na Rua 24 de Maio, n° 321, no Centro, zona sul. Outra opção é o plantão cível da Defensoria Criminal, na Avenida Umberto Calderaro Filho, na zona centro-sul, em frente ao hotel Blue Tree.

Susam diz que quase 100 mil estão na ‘fila’ do Sisreg

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que a espera para atendimento no Sisreg ultrapassa 98 mil pessoas e que o problema foi herdado da gestão anterior. Segundo a secretaria, a “meta é reorganizar o sistema para reduzir em até 30% nestes primeiros 100 dias de governo”.

Sobre as denúncias de maus-tratos, a Susam afirmou que “não concorda com nenhum tipo de maus-tratos”. A nota prossegue afirmando que “sempre que obtiver conhecimento de tais fatos, (a Susam) investigará o que houve e tomará todas as providências necessárias, incluindo o afastamento dos profissionais, se for o caso”.

Com relação a falta de leitos, a Susam garante estar “empenhada em reorganizar o fluxo e aumentar a oferta de leitos”. Conforme a secretaria, os leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) foram aumentados com a entrega de dez leitos no Hospital e Pronto-Socorro da Zona Norte. A meta da Susam é colocar em funcionamento, até o fim do ano, todos os 276 leitos que ainda estão desativados no hospital.

 

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