Estudo aponta maior lucro com desmatamento zero

‘Equação do uso do solo’ reúne estratégias que reduzem o desmatamento na Amazônia e fazem com que o País acabe lucrando mais do que com o modelo econômico atual predatório

São Paulo – Um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos desenvolveu uma ‘equação do uso do solo’ para mostrar como estratégias que reduzem o desmatamento na Amazônia podem fazer com que o País acabe lucrando mais do que com o modelo econômico que hoje se expande sobre a floresta.

O estudo é do Ipam e do Centro de Pesquisa Woods Hole (Foto: Arquivo/ABr)

O trabalho, que foi divulgado na semana passada na Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em Madri, propõe estratégias para terras em diferentes condições fundiárias na região e calcula quanto é possível aumentar em termos de produção de carne e grãos. A ideia é mostrar como promover o desenvolvimento sustentável com desmatamento zero.

Os pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Centro de Pesquisa Woods Hole elaboraram um plano de ação em quatro categorias fundiárias: terras públicas não designadas, que hoje estão à mercê da grilagem; propriedades particulares com vegetação nativa além da prevista pelo Código Florestal; propriedades privadas de médio e grande porte; e áreas de produção familiar.

“Olhando os dados históricos da evolução da fronteira agrícola, percebemos que entre 1985 e 2017 abrimos uma área equivalente à da França. O Brasil se tornou um grande player da agropecuária mundial, ocupando a Amazônia e o Cerrado. Cresceu o PIB, o Brasil responde por 7% do mercado mundial de commodities, muita gente come no mundo porque o País produz alimento, mas dentro desse pressuposto que hoje ninguém aceita mais”, disse ao Estado André Guimarães, diretor executivo do Ipam e um dos autores do estudo. “Agora precisamos continuar crescendo, suprindo alimento, mas não mais dentro desse antigo paradigma de abrir fronteira. Então elaboramos esses quatro pilares para aumentar a renda no campo sem mais desmatamento”.

O primeiro pilar é sobre as áreas públicas sem destinação – o principal foco de grileiros. Um estudo anterior do Ipam estimou que há cerca de 65 milhões de hectares nessas condições na Amazônia. “Enquanto estiverem disponíveis, serão alvo”, diz. A primeira proposta do trabalho é que elas sejam destinadas para a conservação – transformadas em parques, por exemplo. A ação dependeria de governos federais e estaduais, que de maneira coordenada poderiam eliminar o acesso de grileiros e permitir formas de desenvolvimento, como o turismo.

A segunda ação é incentivar o aumento da produtividade das áreas já abertas na Amazônia. Os pesquisadores calcularam que a produção da carne poderia subir dos atuais 60 quilos por hectare/ano para 150 quilos em 21% da área de pastagem já existente (cerca de 11 milhões de hectares). Isso liberaria 4 milhões de hectares, o que, pelo cálculo, seria o suficiente para que o Brasil atinja suas metas de crescimento até 2030 de gado (43%) e grãos (33%). “Se o País precisa produzir mais, a ideia é canalizar as políticas públicas”, diz Guimarães. “O Plano Safra deveria virar um grande Plano ABC”, afirma, referindo-se ao recurso que hoje existe para a ‘agricultura de baixo carbono’.