Monitoramento da Qualidade do Ar alerta para chegada da Estação da Poluição na Amazônia

Dados revelam que os índices de poluição do ar apresentados nos últimos cinco dias estão comprometendo a saúde da população

Manaus – Diferentemente das demais regiões do Brasil, onde quatro estações do ano são facilmente identificáveis, a Amazônia se caracteriza pela existência de duas únicas estações, o inverno e o verão, ambas com reflexos extremos para o meio ambiente devido a intensidade das chuvas e da radiação solar. No entanto, esses dois fatores e a alteração acelerada da biosfera, acentuada sobretudo com o crescimento irresponsável e desenfreado do desmatamento e das queimadas, faz emergir na Amazônia uma terceira estação climática e ainda mais preocupante: a “Estação da Poluição do Ar”.

Dados da Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar do Acre – a maior rede de monitoramento da qualidade do ar da Amazônia – revelam que os índices de poluição do ar apresentados nos últimos cinco dias estão comprometendo a saúde da população, sobretudo das pessoas mais sensíveis, aquelas com predisposição às doenças respiratórias.

Uma das alterações mais marcantes na Amazônia é a presença de fumaça oriunda da queima de biomassa durante 3 a 5 meses por ano. Esta fumaça tem implicações para a saúde humana e dos ecossistemas, os regimes de chuvas e de secas da região.

“Estamos com valores elevados, aproximando ou excedendo o limite máximo diurno da Organização Mundial da Saúde de 25 microgramas de PM2.5 * por metro cúbico e bem acima do valor máximo para média anual da OMS, 10 microgramas po r metro cúbico”, afirmou o pesquisador e professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), Foster Brown.

As PM2,5 são um tipo de partículas inaláveis, de diâmetro inferior a 2,5 micrometros (µm) e constituem um elemento de poluição atmosférica. A partícula age encobrindo a formação de nuvens impedindo a ocorrência de chuvas.

Levantamento divulgado nesta semana pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), revela que apenas em julho deste ano, foram desmatados 2.095 km² da floresta, uma área maior que a capital de São Paulo, o pior dado para o mês de julho já registrado nesta década, uma clara evidência de que a Amazônia vem sendo devastada em um ritmo muito maior.

Entre agosto de 2020 e julho de 2021 – período em que se mede a temporada do desmatamento – a Amazônia Legal perdeu 10.476 km². A taxa é 57% maior que a da temporada passada, além de ser a pior dos últimos dez anos.

Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), agosto é o mês que registra, até o momento, o maior número de queimadas no Amazonas em 2021. A instituição monitora os focos de calor por satélite.

Segundo o órgão, nas duas primeiras semanas deste mês foram registradas 4.167 queimadas em todo o Amazonas . O número é maior que o registrado em todo o mês de julho, que foi de 1.173 focos de calor.

Somente nos primeiros sete dias de agosto, foram registradas 1.740 queimadas. Já na segunda semana de agosto, entre os dias 8 e 14, foram 2.427. O aumento de uma semana para a outra foi espantosamente de 71%.

O município de Lábrea, localizado no extremo sul do Amazonas e na fronteira com os estados de Rondônia e do Acre, é o município amazonense que registra o maior número de focos e lidera a lista das cidades que mais queimam em toda a Amazônia Legal.

Apuí, na fronteira com o Mato Grosso, vem na quarta posição no ranking dos municípios que mais registram queimadas. A cidade tem 1.248 focos no acumulado do ano.

Todo esse cenário contribui assertivamente para o agravamento dos efeitos da Estação da Poluição, que tem duração efetiva entre os meses de agosto a outubro. Uma situação que tem preocupado a comunidade científica.

“É preciso controlar agora o desmatamento e queimadas ilegais para reduzir as fontes de fumaça. A fumaça gerada no sul da Amazônia mata e incapacita milhares de pessoas a cada ano”, alertou o pesquisador.

Especialista faz recomendações
Ao projetar um cenário mais grave com a chegada do mês de setembro, Foster faz algumas recomendações para a população que poderá ter outro importante motivo para continuar usando as máscaras de proteção contra a Covid.

“É preciso reduzir quando possível o contato com a fumaça. Frequentemente, isto significa fechando janelas de casa à noite quando tiver inversões termais que concentram fumaça perto do chão. O uso das máscaras N95 para se proteger da Covid-19 pode ajudar com a fumaça, se forem bem ajustadas”, sugere ele.

O combate expressivo às invasões de terras seja de titularidade pública ou privada, aliado ao controle das derrubadas e das queimadas continuam sendo o caminho certeiro para a redução desses impactos ao bioma. Foster defende ainda que paralelo as medidas de repressão, haja a implementação de alternativas econômicas sustentáveis.

“No médio prazo, a sociedade precisa eliminar a invasão de terras públicas e privadas, controlar o tamanho de derrubadas e queimadas e implementar alternativas econômicas para um desenvolvimento mais resiliente, frente aos eventos extremos de clima que estão crescendo”, avaliou.

Boca do Acre também preocupa

Por estar localizado na região do sul do Amazonas e fazer divisa com o Estado do Acre, a Rede de Monitoramento acreana conseguiu captar a qualidade do ar do município amazonense de Boca do Acre, onde nesta quinta-feira (19) o índice ficou em 193, o que representa uma situação de alerta à saúde; em que a população daquela região poderia experimentar efeitos mais graves, colocando em risco a saúde.

Moradores do município relataram à Agência Rhisa que a cidade está sufocada pela fumaça das queimadas na região.

“Tem dias que você não consegue nem ver as nuvens porque fica o tempo todo meio nublado, tudo muito fumacento principalmente na parte mais alta da cidade, está tudo coberto por uma fumaça densa. Eu acho que é por causa das queimadas”, afirmou Flaviano da Silva, proprietário do Hotel Alice.

Governo federal diz que age para intervir nas queimadas

Na última sexta-feira (13), o Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), os ministérios do Meio Ambiente, Justiça, Defesa, Saúde; Ibama, ICMBio e Polícia Rodoviária Federal apresentaram suas estratégias de ação para o período seco e articularam esforços conjuntos para o combate ao desmatamento e as queimadas ilegais no Brasil.

A ação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), coordenada pelo CNAL, para combater ilícitos ambientais, continua em vigor até final de agosto. A partir dessa data, a previsão do Governo Federal é de que haja uma intensificação do Plano Amazônia 2021/2022, que visa dar uma resposta ampla aos diversos desafios da região em relação meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.

Segundo a Agência Brasil, o Ministério de Meio Ambiente, em outra frente de trabalho, por meio do Ibama e do ICMBio, está atuando no combate a incêndios com mais de três mil brigadistas em todos os estados, em unidades de conservação federais e terras indígenas. Brigadistas dessas instituições também foram cedidos para atuar na Operação Guardiões do Bioma, coordenada pelo Ministério da Justiça, que foca na redução de crimes ambientais nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. Bombeiros de todo o país foram capacitados, por meio da Operação, em Brasília/DF, para atuar na contenção dos incêndios em suas localidades.

Relatório do TCU aponta omissão dos Governos

Relatório do Tribunal de Contas da União sobre a auditoria no combate ao desmatamento concluiu que a meta prevista no Decreto 9.578/2018, ficou longe de ser cumprida. A taxa estimada de desmatamento em 2020 foi de 11.088km², ultrapassando em 182% o limite estabelecido no referido decreto. Com relação às metas estabelecidas na NDC, para que possam ser alcançadas, será necessário reverter vigorosamente a tendência de alta nas taxas de desmatamento na Amazônia Legal observada nos últimos anos.

A auditoria revelou ainda que o Ibama e ICMBio não estão tendo participação no planejamento do Governo Federal no que se refere ao combate do desmatamento na Amazônia, quando em anos anteriores, fora o principal idealizador e executor das ações.

Em nível de atuação dos Estados, os auditores do Tribunal contataram que três estados da região (Amazonas, Pará e Mato Grosso), por meio de suas organizações estaduais de meio ambiente, afirmaram por meio de entrevistas e respostas aos questionários enviados, que não participaram de qualquer discussão relacionada ao Plano 2020-2023.

Sobre a Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar do Acre

As informações utilizadas pela Rede de Monitoramento são coletadas a partir da transmissão dos dados gerados por uma estrutura de 30 sensores que estão distribuídos nas sedes dos 22 municípios do Estado do Acre. Os dados são disponibilizados em tempo real e de forma gratuita.

O serviço possui uma escala da qualidade do ar que varia entre 0 e 350, subdividido em seis escalas, as quais de 0-12 consideram as medições como satisfatórias sem que a qualidade do ar cause riscos a população; até >350 em que a situação é classificada como extremamente grave, podendo causar prejuízos a toda população.

A Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar do Acre está em operação desde 2019 e é uma ação realizada pelo Ministério Público do Estado do Acre em parceria com a Universidade Federal do Acre, Tribunal de Justiça, Prefeitura de Assis Brasil, Secretaria de Meio Ambiente de Tarauacá, Batalhão da Polícia Militar de Capixaba, Instituto Federal do Acre/Campus Tarauacá, Prefeitura de Rodrigues Alves, Prefeitura de Jordão, Prefeitura de Santa Rosa do Purus, Prefeitura de Porto Acre, Defesa Civil de Tarauacá, Prefeitura de Xapuri, Prefeitura de Marechal Thaumaturgo, Instituto Federal do Acre/Sena Madureira, Prefeitura de Santa Rosa do Purus, 8.º Batalhão de Educação, Proteção e Combate a Incêndios Florestais/Urbanos de Xapuri e IMAC/Núcleo de Representação em Feijó/Envira.

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