Queimadas triplicam e sul do Amazonas contribui

Com focos concentrados no sul do Estado, como em Lábrea, os registros de queimadas triplicaram na Amazônia, em agosto, sobre igual mês de 2018, aponta o Inpe, que identificou 30.901 casos, até sábado (31)

Brasília – Com focos concentrados no sul do Amazonas, os registros de queimadas do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) triplicaram na Amazônia, em agosto, em relação ao registrado no mesmo período do ano passado. Foram 30.901 focos até o último sábado (31), ante 10.421 em agosto de 2018, uma alta nos focos de 196%..

O total de focos também supera a média histórica para o mês, de 25.853, para o período entre 1998 e 2018. É ainda o mais alto desde agosto de 2010 – ano de seca histórica severa, que teve 45 018 focos.

Os focos de queimadas estão espalhados por todo o chamado arco do desmatamento, que vai do Acre, passando por Rondônia, sul do Amazonas, norte do Mato Grosso e sudeste do Pará. A principal hipótese de especialistas é de que queimadas estão ocorrendo para limpar o que foi derrubado antes. Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que a estiagem neste ano na região é prolongada, mas só isso não explicaria o aumento. O levantamento aponta que os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndio foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento.

Outro levantamento do Inpe já mostrava que entre 1º de janeiro e 24 de agosto deste ano, o Brasil tinha o maior número de focos de incêndio em sete anos para este período.

De acordo com o Inpe, 30.901 focos de incêndio foram registrados até este sábado (31), na Amazônia (Foto: Edmar Barros/ABr)

Na última sexta-feira (30), o presidente Jair Bolsonaro alterou o decreto que proibia as queimadas em todo o País durante o período da seca e abriu uma exceção para as práticas agrícolas fora da Amazônia Legal. O novo decreto presidencial, publicado em edição extra do Diário Oficial, permite a realização de queimadas em razão de “práticas agrícolas, fora da Amazônia Legal, quando imprescindíveis à realização da operação de colheita, desde que previamente autorizada pelo órgão ambiental estadual. A medida alterou o decreto publicado pelo presidente um dia antes, na quinta-feira, 29, e que havia proibido por 60 dias a realização de queimadas em todo o território nacional.

Durante uma transmissão pela internet, na última quinta-feira, o presidente chegou a chamar de “esmola” a ajuda oferecida pelos países do G-7 para combater a crise ambiental na Amazônia Legal. “Tivemos um encontro na terça-feira com governadores da região amazônica. E ali, só um falou em dinheiro, aquela esmola oferecida pelo Macron (presidente da França). O Brasil vale muito mais que US$ 20 milhões”, disse ele. Na mesma ocasião, o presidente voltou a defender que não há anormalidade nas queimadas da Amazônia.

No dia 21 de agosto, a coordenação do Observatório do Clima, grupo que reúne cerca de 50 ONGs em prol de ações contra as mudanças climáticas, afirmou que o recorde de focos de incêndio observados neste ano é apenas “o sintoma mais visível da antipolítica ambiental do governo de Jair Bolsonaro”.

Força-tarefa revela quadrilhas por trás do desmate no sul do AM

Corrupção, formação de quadrilha, trabalho escravo, violência, grilagem, roubo de madeira. O desmatamento ilegal da Amazônia se insere em um conjunto de crimes que vai muito além do ambiental e envolve custos – e ganhos – milionários.

Investigações da força-tarefa Amazônia, do Ministério Público Federal, demonstram que há elaboradas organizações criminosas por trás do problema. Nesse processo, as queimadas são apenas a sua face mais visível.

“Não vou ignorar que existe sim o desmatamento da pobreza, que é para fins de subsistência, mas o que realmente dá volume, o desmatamento de grandes proporções, que é o objeto de preocupação, é outro. No sul do Amazonas vimos cortes de 200, 500, 1 mil hectares (cada hectare equivale a cerca de um campo de futebol) de uma só vez. E isso quem faz é o fazendeiro já com rebanho considerável que quer expandir para uma área que não é dele. É o grileiro que invade uma terra pública. Não tem nada a ver com pobreza”, disse o procurador Joel Bogo, no Amazonas.

O custo para fazer um desmatamento desses é alto. Segundo ele, é de no mínimo R$ 800 por hectare, mas pode chegar a R$ 2 mil. Em pouco mais de um ano, o esforço da Procuradoria, que envolveu o trabalho de 15 procuradores em Amazonas, Rondônia, Amapá, Acre e Pará, resultou em seis operações com ações penais já ajuizadas Só no Amazonas, 33 pessoas foram denunciadas criminalmente.