“Relatos confirmam massacre de indígenas por militares”, diz Maria Rita Khel

De acordo com Maria Rita, os indígenas ficaram frustrados ao saber que os militares responsáveis pelo massacre não serão punidos pela Comissão.

Manaus – Após passar dois dias no município de Presidente Figueiredo, em uma aldeia Waimiri Atroari, a psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão Nacional da Verdade, afirmou que os relatos confirmam o massacre de indígenas realizado pelos militares para construir a rodovia federal BR-174.

De acordo com Maria Rita, os indígenas ficaram frustrados ao saber que os militares responsáveis pelo massacre não serão punidos pela Comissão.

Como foi o encontro com o povo Waimiri Atroari em Presidente Figueiredo?
Eu já tinha recebido dois relatórios sobre o assunto: um entregue pelo Porfírio Carvalho (coordenador do Projeto Waimiri-Atroari) e outro elaborado pelo indigenista Egydio Schwade (membro da Comissão Estadual da Verdade) e o que eles contaram não foi muito diferente, mas vale por ter sido fala deles. Tem um detalhe que acho importante dizer: eles sentem muita dor em falar sobre isto e não se alongam muito. Falam o mínimo e não dramatizam. Se você imaginar como as vítimas dos desaparecidos políticos ou as vítimas de torturas expressam seus sentimentos. A cultura indígena – não sou especialista – parece ter o orgulho como valor maior.

O que os indígenas relataram sobre a construção da BR-174?
Primeiro, eles disseram que o governo (federal) passou a estrada atropelando não só o direito das pessoas como as próprias pessoas. Isto é um pouco simbólico e um pouco verdade. Em 1981, quando a estrada tinha sido concluída, o Porfírio (Carvalho) – que era um funcionário da Funai na época – encontrou apenas 17 crianças perdidas na mata. Não tinha mais adultos. Eles estavam todos juntos escondidos e comendo o que podiam. A partir dessas 17 crianças é que recomeçou a construção desta cultura e desta etnia.

Eles mostraram interesse em saber o que a senhora iria fazer com os depoimentos?
Sim, perguntaram muito sobre a Comissão da Verdade. Queriam saber como nasceu, por que a gente se interessou por eles. Outra coisa que eles queriam muito saber era se os militares seriam punidos e eles ficaram muito chateados quando a gente disse que não tínhamos este poder de punir. Aí, isto ficou muito confuso para eles, claro, porque eu disse que a comissão foi criada pela presidente da República e, de certa forma, eu estava ali como uma enviada da presidente e eles não entendiam porque eu não podia punir. Esta discussão deve ser feita com o Congresso, apenas eles podem reverter a Lei da Anistia.

Você ouviu detalhes sobre o massacre que teria ocorrido contra os indígenas?
O general do Exército, Gentil Paes, não aceitou esperar que os indígenas se afastassem da estrada. É mais grave, porque não é que os indígenas se recusaram a sair. Não foi ‘um’ massacre, na verdade, toda a entrada na terra dos Waimiri Atroari foi uma situação de massacre. Falaram que aconteceu um bombardeio. Um índio disse que morreram 21 apenas em um bombardeio comandado pelos militares. Outros falam uma coisa meio confusa, que é uma situação de contágio por alguma doença pela aproximação com os brancos. Eles falaram sobre uma temperatura que subia muito rápido e muitas pessoas morreram nas aldeias. Eles têm, no modo de narrar, a tradição como este evento foi narrado para eles. Em um momento mais dramático, alguns narraram um ataque com o uso de embarcação que veio metralhando a margem de dentro do rio.

A Comissão pode retornar para Presidente Figueiredo para colher outros relatos?
Um problema é que eu tenho que tratar, sozinha, de todas as violações de direitos humanos contra indígenas e contra camponeses. Este é o grupo de vítimas mais numeroso, embora não se soubesse, até porque a gente sabe mais sobre as vítimas que estavam combatendo a ditadura. Essa história a gente conhece porque as próprias vítimas nos contaram. No caso dos camponeses, os índios isolados, não tem relatos das histórias, a não ser por estudos de antropólogos. Tanto que, quando a Comissão da Verdade foi instaurada, muitas pessoas questionaram porque havia um grupo de trabalho voltado para os indígenas e camponeses, como se só interessasse quem combateu a ditadura. E, na verdade, muitas vítimas estavam, simplesmente, no caminho do chamado progresso. É importante ressaltar que, entre os indígenas e camponeses, é possível encontrar violações de direitos humanos com participações decisivas de agentes do Estado, o tempo todo. Na ditadura, há uma piora, há um agravamento porque houve os grandes projetos de ocupação do interior que foram atropelando camponeses e índios. Alguns resistiram, não porque resistiam ao poder central, mas porque resistiram àquele grileiro, àquela empresa que estava ali tirando eles das terras.

O que eles disseram sobre a atual situação dos indígenas?
Para eles, a ditadura brasileira, no que se refere ao tratamento com os índios, ainda não acabou. Eles pediram para mandar um recado à presidente: parar o movimento que ameaça os povos indígenas, porque ela recebeu os povos indígenas até hoje. Eles citaram o caso do Mato Grosso do Sul, onde houve um caso de morte de um indígena (em junho um índio Guarani-Kaiowá foi morto durante a desapropriação de uma fazenda).

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