Txai Suruí, a indígena que falou na COP-26

Dezoito anos após o anúncio do seu pai, Txai Suruí discursou, na segunda-feira, na abertura da 26ª da Cúpula do Clima em Glasgow, na Escócia

Escócia – Os indígenas Paiter Suruí comemoravam o ritual Mapimaí, que festeja a criação do mundo, quando o líder Almir Suruí pôs a filha de seis anos em cima de um tronco de árvore e anunciou que ela seria uma grande líder indígena. No centro do tronco, estava Txai Suruí, na época uma criança que já acompanhava os pais nas excursões pela floresta para defender o território.

Txai Suruí, a indígena que falou na COP-26. (Foto: Reprodução/Cop26)

Dezoito anos após o anúncio do seu pai, Txai Suruí discursou, na segunda-feira (1º), na abertura da 26ª da Cúpula do Clima em Glasgow, na Escócia. Em dois minutos, ela citou os ensinamentos do pai em ouvir a natureza, disse que os indígenas possuem “ideias para adiar o fim do mundo” (título de um dos livros de Ailton Krenak) que devem ser ouvidas e encerrou o discurso com um verso de A vida é desafio, dos Racionais MC’s: “É necessário sempre acreditar que o sonho é possível”.

O discurso foi feito diante de mais de 100 chefes de Estado. Aos 24 anos, Txai foi a única indígena da América Latina e única brasileira na abertura da COP-26, ao lado de líderes como o presidente americano Joe Biden e o premiê britânico Boris Johnson. “Os líderes precisam saber que o que estamos vivendo na Amazônia também é responsabilidade deles”, disse ela.

Luta

Filha do cacique Almir Suruí e da indigenista Neidinha Suruí – duas das lideranças indígenas mais conhecidas no País -, Txai aprendeu a importância de defender o território dos povos da floresta. Desde criança, ela vê os pais ameaçados de morte por garimpeiros e grileiros que invadem terras indígenas.

Em 2012, as ameaças contra os pais de Txai se tornaram tão graves que a família precisou andar escoltada pela Força Nacional. Na época, se sentia uma prisioneira.

“Ela dizia que preferia morrer do que estar o tempo todo com a polícia, porque aquilo não era liberdade e não era justo viver assim por defender o território”, relembrou a mãe, Neidinha Suruí.

Nos últimos anos, as tensões entre indígenas e invasores de terras (em sua maioria, grileiros e garimpeiros) voltaram a aumentar. O pai de Txai, o cacique Almir Suruí, chegou a ser alvo de inquérito da Polícia Federal por causa de críticas ao governo federal – foi arquivado depois. Já o amigo de infância, Ari Uru-Eu-Wau-Wau, foi assassinado em 2020. “O Brasil precisa mudar radicalmente se quiser salvar o planeta”, disse Txai.

Atuação

A violência não intimida Txai, que costuma ir a áreas de conflitos entre indígenas e grileiros. Como estudante de Direito, atua no núcleo jurídico da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé, para povos da Amazônia.

No início do ano, também criou o Movimento de Juventude Indígena de Rondônia, que reúne mais de 1,7 mil jovens. A formação de Txai, porém, não se encerra na sabedoria dos povos indígenas. Uma das suas referências são os Racionais MCs. Na infância, ouvia artistas consagrados como Chico Buarque e Milton Nascimento.

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