Sem grilhões, com liberdade, fraternidade e respeito

No dia 10 de julho de 1884, foi assinada a abolição da escravidão no Amazonas, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel

O dia 10 de julho, nos remete a um dos mais importantes momentos históricos de nosso Estado e da construção da moderna sociedade. Em 1884, há 137 anos, portanto, o governador da Província, Theodoreto Souto, assinava a abolição da escravidão no Amazonas, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, que se deu em 13 de maio de 1888. Não se trata de um gesto de extrema bondade e benevolência do então governador, embora não se possa retirar-lhe o mérito do ato histórico.

A liberdade de, aproximadamente, mil negros que habitavam o Amazonas foi fruto de luta, muita luta de comunidades negras e abolicionistas do Norte e Nordeste. Manaus já não confabulava com a escravidão desde o dia 24 de maio do mesmo ano, se tornando a segunda cidade brasileira a quebrar os grilhões.

Isso nos enche de orgulho pela importância histórica e pelo marco civilizatório que o fim da escravidão representa.

Mas, não nos enganemos. Após 137 anos, ainda vivemos afundados em outros grilhões, de ódio, de racismo, de preconceitos. A escravidão acabou, mas ficaram resquícios que camuflam a relação de patrões e empregados em um vínculo quase familiar, onde um lado toma tudo e outro entrega, sem direito a nada. O trabalho escravo ainda está presente no mundo e também no Brasil. Pessoas que exercem trabalhos forçados, com restrição de liberdade. Devemos vigiar, nos posicionar, exigir e lutar para o fim desses abusos.

Ficaram sequelas culturais e de identidade. Ainda hoje no Amazonas, índios e negros debatem entre omitir e negar suas raízes ou exibir orgulhosamente o seu legado. Devemos, antes de tudo, exibi-los, jogar pelo ralo os prejuízos e esse sentimento de inferioridade que assola os que foram colonizados e dominados por séculos. Antes, devemos ostentar, orgulhosos, os valores de Ajuricaba e dos tantos quilombos espalhados ao longo do Rio Andirá, do Pará e Ceará, sem se entregar, sem dobrar os joelhos, sempre erguidos em busca dessa liberdade tão sonhada.

A escravidão está presente ao longo de toda a história da humanidade e de todas as civilizações antigas. Assírios, hebreus, babilônios, egípcios, gregos e romanos, só variando as suas características. Está em sua origem as guerras e conquistas de territórios, com os vencidos sendo submetidos a trabalhos forçados. Na era moderna, está relacionada com a descoberta das Américas e as colonizações. Dessa vez, a escravidão veio a lombo da discriminação racial. Primeiro os povos originários – em sua maioria índios – dos países colonizados e, posteriormente, os negros, arrancados da mãe África, para se tornar força de trabalho.

A escravidão de outro ser humano, independentemente de cor e raça, tratado como animal e objeto, é o mais duradouro, ignóbil, vil, moralmente e humanamente inaceitável ato praticado pela humanidade. Suas sequelas econômicas, culturais e sociais são do mesmo calibre. As desigualdades sociais, o racismo, o preconceito, ainda presentes em todo o mundo, são fruto da escravidão da era moderna e são inaceitáveis de qualquer ponto de vista.

Comemoremos a importância histórica do dia 10 de julho e do dia 13 de maio, sem nunca perder de vista os compromissos que temos para eliminar as desigualdades sociais e lutar para que os direitos às diferenças sejam permanentemente consagrados. Por mais que alguém tente, ninguém conseguirá escravizar outra vez o povo do Amazonas.

*Diplomata, foi deputado federal, senador, líder por duas vezes do governo Fernando Henrique Cardoso, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, líder das oposições no Senado ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e três vezes prefeito da capital da Amazônia – Manaus

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