Doutor Ulysses, símbolo de coragem e democracia

Nestes tempos de desalento e de valores muitas vezes duvidosos, é preciso relembrar a firmeza de caráter e as lições de um líder da envergadura de Ulysses Guimarães

Manaus – Ulysses Guimarães teria completado 103 anos no último dia 6 outubro. Mas lá se vão 27 anos de sua morte, no dia 12 do mesmo mês. Foi em outubro também, no dia 5, que ele promulgou a Constituição de 1988. Motivos de sobra para lembrar e homenagear o ‘Senhor Diretas’.

Reverenciamos muito mais que a memória de um homem público com trajetória única na história política brasileira. Reverenciamos um símbolo. Símbolo de coragem, de determinação, resistência e luta pela democracia.

Em quase meio século de vida pública, doutor Ulysses sempre foi movido pela paixão. Paixão pela liberdade, pelos ideais democráticos, pela política no seu sentido mais nobre: a busca pela justiça e pelo bem comum.

Doutor Ulysses almoçava, jantava e respirava política. Dominava, como poucos, a arte do diálogo e da negociação. Considerava a liberdade de expressão a “rainha das liberdades” e dizia que “mais miserável do que os miseráveis é a sociedade que não acaba com a miséria”.

Deputado federal por 11 mandatos, ministro de Estado na curta experiência parlamentarista brasileira, advogado, escritor e professor, Ulysses ensinou-nos, como nenhum outro mestre, o verdadeiro alcance da palavra cidadania.

No lançamento de sua anticandidatura à presidência da República, em 1973, fez um discurso memorável. Ciente dos riscos de desafiar os militares e da coragem que lhe seria necessária para denunciar os abusos da ditadura, citou Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso.”

O timoneiro da oposição, que enfrentou fuzis, baionetas e cachorros nos anos de chumbo, navegou longe. Foi a estrela maior do MDB, partido que soube unir e fortalecer em torno da luta por ideais democráticos. Sacudiu o Brasil como o ‘Senhor Diretas’, foi protagonista da redemocratização e um dos pilares que sustentaram a posse do ex-presidente José Sarney após a morte trágica de Tancredo Neves.

Nunca chegou a ser eleito para a presidência da República, como sonhava. Mas teve poder e prestígio como poucos homens públicos, ao acumular a presidência da Câmara dos Deputados, do MDB e da Assembleia Nacional Constituinte.

Doutor Ulysses foi, na verdade, a alma da Constituinte. Sua obstinação, seus ideais e sua coragem forjaram a espinha dorsal da Constituição que ele batizou de ‘Cidadã’.

Em 1988, resumiu o sentimento de uma nação inteira ao promulgar “o documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil”: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações….A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República”.

Hoje, o momento histórico é completamente diverso. Embora o fantasma do autoritarismo por vezes ainda nos assombre, a democracia já plantou raízes sólidas na sociedade brasileira. Convivemos com o pluripartidarismo e a liberdade de expressão.

Mas ainda estamos muito longe de construir o Brasil justo, ético e desenvolvido com o qual doutor Ulysses sonhava. Mesmo não antevendo risco de ruptura institucional no horizonte, vivemos sob a perigosa rotina de crises políticas, tensão entre os poderes da República e radicalismo ideológico.

Nestes tempos de desalento e de valores muitas vezes duvidosos, é preciso relembrar a firmeza de caráter e as lições de um líder da envergadura de Ulysses Guimarães. Sua capacidade de ouvir e arquitetar acordos pelo bem comum.

Foi o amor pela política, que o levou a rodar o Brasil, uma vez mais, aos 76 anos, como ‘mascate do parlamentarismo’. E foi rodando o País e fazendo o que mais sabia e o que mais amava que Ulysses nos deixou. O Brasil chorou a morte do ‘Senhor Diretas’ em um acidente de helicóptero, em Angra dos Reis, no dia 12 de outubro de 1992.

*Senador e líder do MDB

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