A hora H

Nesse pleito os nomes dos que disputam estão em segundo plano

Eu tinha acabado de completar vinte e um anos, em 1964, quando, de repente, desaba sobre minha juventude o pesado malho da ditadura militar. Tudo se fez sombrio e por outros vinte e um anos faltou oxigênio cívico, negaceado por um autoritarismo boçal e onipresente. Eram as prisões sem justificativa, os desaparecimentos inexplicáveis, a tortura praticada à sorrelfa nos porões dos organismos de repressão, tão eficientemente montados para esse mister.

A resistência, salvo um outro foco específico, se fazia pacificamente, debochando do sistema, rindo dele ou até mesmo cantando, apesar da tristeza que tudo perpassava. Veio o “outro dia” de que falou o poeta na imortal canção. E quando ele chegou não foi mais possível “abafar nosso povo a cantar”. O povo cantou. Cantou livre de peias e entoou bem alto seu grito de liberdade. As flores pareciam mais belas e a cor de chumbo esmaeceu para ceder lugar ao azul de uma esperança por tanto tempo reprimida.

Uma nova Constituição foi forjada no cadinho desse novel sentimento de liberdade. Dela emanam as diretrizes que dão suporte ao Estado democrático de direito, em tudo oposto à ditadura que o antecedeu e que foi lançada para o lixo da história. Estabeleceram-se as bases da convivência democrática, com instituições bem definidas em suas atribuições e competências. A liberdade foi erigida em valor fundamental, sendo resguardada por normas que não permitem agressões injustificadas a ela. Era o novo suplantando o velho, na eterna dialética dos tempos.

Eu, que tinha tido meus anos de juventude maculados pela ignomínia da ditadura, passei, já quarentão, a desfrutar do novo ambiente, onde, se não é possível falar de um Éden, também não deve existir lugar para a infâmia da violência incontida. E envelheci. É que os anos passaram implacáveis. De repente, vi-me na casa dos setenta, certo de que, mesmo estando na antecâmara do nada, não veria mais nenhuma turbulência política, capaz de violentar minha velhice.

Errei. E errei feio. Por circunstâncias que não vem a pelo invocar, eis que chega ao poder político no meu país uma horda de insensatos, comandada por um ex oficial do Exército, para o qual o valor moral mais elevado está na boca de um fuzil. E fez-se escuro de novo. Se não é uma escuridão tão impenetrável como a da ditadura, nem por isso deixa de ser um ambiente de terror.

De outra face, a humanidade é aterrorizada pela pandemia do corona vírus e, no Brasil, a calamidade ganha foro de surrealismo porque o Bozo, encastelado na presidência da República, faz galhofa dos atingidos pela doença, seja arremedando-os, seja tripudiando sobre a morte de quase setecentos mil compatriotas. “Não sou coveiro”, disse ele, enquanto a abertura de covas crescia em progressão geométrica para acolher os corpos inanes dos que foram vitimados pela irresponsabilidade presidencial.

Não satisfeito com a balbúrdia que se estabeleceu na compra de vacinas, a partir da inaptidão do general colocado à frente do Ministério da Saúde, o Bozo, no plano institucional, põe-se a pregar contra as instituições e, com a cara mais deslavada, defende a tortura e a volta da ditadura militar.

É a partir desse cenário que olho para o próximo domingo, quando se darão as eleições presidenciais. Não se trata de escolher candidatos. Não. Nesse pleito os nomes dos que disputam estão em segundo plano. Antes deles está a própria sobrevivência do país e de suas instituições democráticas. É dever de todo patriota lutar para que o Bozo seja derrotado. Pessoalmente, tenho o mesmo sentimento que expressou o pianista Arthur Moreira Lima: sinto que estou acordando de um pesadelo. Com o Bozo jogado para escanteio, será de fato um despertar para uma nova vida. Votemos todos pela liberdade contra a opressão. Minha velhice merece esse novo sonho.

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