Comunismo sem segunda

É de ditadura que se trata quando o inconformismo com o resultado das urnas pede o desconhecimento da vontade popular

Como todas as coisas sem sentido, as manifestações golpistas dos bolsominions estão descambando para a ridicularia mais desprezível. Pedir o que eles chamam de “intervenção federal” é um apelo pouco sutil ao desfazimento do estado democrático de direito, com a falência de todas as instituições democráticas tão duramente reconquistadas depois da ditadura militar.

Porque é de ditadura que se trata quando o inconformismo com o resultado das urnas pede o desconhecimento da vontade popular, buscando alguma solução de força que, por certo, não se acha no quadro de medidas constitucionalmente asseguradas. Impressionante é a passividade com que as autoridades estão encarando esse chamamento ao golpe, assim como se fosse a coisa mais natural do mundo. Não é e está longe de ser, na medida em que, numa democracia, não existe vontade que se possa sobrepor à da maioria.

As consequências da patacoada se fazem sentir nas expressões coletivas e individuais, em que o bom senso está ausente, traduzindo apenas bizarros inconformismos, cuja exibição poderia ser evitada até como formo de poupar seus atores da chacota geral.

Assim é que, numa dessas concentrações de despeitados, viu-se uma cena inusitada e digna de uma película surreal. Colocados nas bordas da rodovia, os manifestantes centravam sua atenção em um pneu de caminhão equilibrado no centro da pista, isolado como compete às personagens principais. Pois bem, as bandeiras nacionais eram agitadas e o hino brasileiro entoado, tudo em reverência (pasmem) ao pneu… Claro que as pessoas normais não puderam entender nada, por maior que tenha sido o esforço para vislumbrar algum simbolismo na papagaiada.

Outra odisseia: está lá a já conhecida algazarra, com alto falantes ecoando palavras de ordem e um infeliz tentando marchar com uma bandeira nacional colocada sobre o ombro direito. A marcha em si mesma, da forma como estava sendo feita, já valia como espetáculo de picadeiro. Mas eis senão quando o repórter delibera entrevistar uma senhora, devidamente caracterizada com a camisa da seleção. Compenetradíssima, ciente da importância do momento que lhe era concedido, a dama, com voz soturna e grave, lança a terrível advertência: “Só quero dizer a vocês que no comunismo não tem segunda-feira”. E reforçou: “Essa é a verdade cruel: no comunismo não tem segunda-feira”. Depois de revelar coisa tão apocalíptica, a boa senhora se afastou do microfone e foi se misturar aos seus parceiros de desocupação, por certo implorando a Deus para nos livrar do comunismo, já que neste não tem segunda-feira.

Sempre achei a segunda-feira um dia insuportável. Digo mesmo que uma segunda não presta nem para quem está de férias em Paris. Agora, com essa revelação extraordinária da ausência desse dia da semana no comunismo, estou procurando onde é que o regime está implantado para ver se consigo uma vaga e me mudo para lá.

O que, de tudo, me permite concluir que a ignorância quando se alia com a estupidez forma dupla imbatível. O par está correndo solto nos arraiais bolsomínicos.

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