O clima que se pinta

Dizer que não foi isso, mas apenas interesse em combater a prostituição infantil, é de uma desfaçatez sem tamanho

Faz parte da sabedoria popular o fato de que, muitas vezes, “a emenda é pior que o soneto”. O brocardo cai como luva para a desculpa do Bozo quanto à história de que “pintou um clima”. Se já era deplorável um homem naquela idade e na posição que ocupa manifestar interesse sexual por menina de quatorze anos, dizer que não foi isso, mas apenas interesse em combater a prostituição infantil, é de uma desfaçatez sem tamanho.

Admitamos, para argumentar, que fosse verdadeira a explicação dada. O que fez, então, a figura central da história? Nada, absolutamente nada, não sendo desprezível lembrar que se tratava do presidente da República, o qual, mais do que ninguém, tinha dever e poderes para adotar medidas quanto ao fato.

Foi mais um episódio patético em que a arrogância e a irresponsabilidades bolsonaristas deram o melhor de si, para demonstrar o absoluto desprezo com que esse homem vem tratando o cargo em que se acha investido. Foi assim na pandemia. Enquanto milhares e milhares de famílias choravam seus entes queridos, Bozo não se pejava de imitar uma pessoa com falta de ar. Ridículo e ofensivo, mas perfeitamente compreensível se observamos que isso partiu de quem negava o valor científico da vacina, enquanto recomendava o uso de medicamento inócuo.

Esse é um crime de responsabilidade pelo qual ele terá que responder um dia. Porque, na verdade, foi delituoso o comportamento de Bozo e de seu ministro da Saúde, em negaceando a compra de vacina, o que, por motivos óbvios, causou atraso fatal no processo de imunização do povo. A consequência todos conhecem: setecentos mil brasileiros morreram de covid, sendo que a ciência aponta para a probabilidade de que essas mortes fossem reduzidas em mais da metade se o governo tivesse agido a tempo e a contento.

Mas nada nesse governo pode ser levado a sério. O clima geral é de deboche e desrespeito, com vocação para uma religiosidade de beira de igarapé, em que os apelos à divindade estão mais para comédia do que para manifestação de fé verdadeira. O abuso da ignorância e da ingenuidade são formas de manipulação vergonhosa que em nada depõem a favor dos que assim a usam.

De outra face, a consequência nefasta desse abuso é a intolerância no mais elevado grau, a revelar a impossibilidade de diálogo que é a base de qualquer negociação num ambiente democrático. Ocorre que falar em democracia para bolsomínions é o mesmo que clamar no deserto, pois estão eles aferrados à linguagem do armamentismo e da violência, valores primaciais na ideologia de seu chefe, que parece nunca ter ouvido falar de sensatez.

Estou torcendo para que esse reinado de trevas, de negacionismo e de terror tenha fim no próximo dia 30. Fio que o povo brasileiro pôde bem avaliar o que foram quatro anos de mentalidade medieval a nos governar. O ensino está pior do que antes, as verbas para educação e saúde são cortadas, enquanto o dinheiro do orçamento secreto é distribuído a mancheias entre privilegiados inescrupulosos.

O voto consciente é a única forma de pôr fim a esse descalabro.

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