Os estertores

Domingo, vamos ao round final

O episódio Roberto Jefferson foi a farsa mais mal engendrada do bolsonarismo nos últimos tempos. Numa tentativa de se vitimizar, o ex-deputado buscava posar de libertário, apregoando não aguentar mais tanta pressão. Menos, né? Para entendermos toda a tramoia é preciso contextualizar o acontecido. Jefferson é condenado por crimes relacionados à milícia digital. Em incidente na execução da pena, foi-lhe concedido o benefício da prisão domiciliar, por questões de saúde. Descumprindo as normas que regem esse benefício, voltou o apenado ao cometimento de crimes, inclusive proferindo, pela mídia, ofensas impublicáveis contra a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal. Diante desses fatos, houve por bem o ministro Alexandre de Moraes de revogar a prisão domiciliar, determinando a volta do condenado ao presídio comum, para cumprimento do restante da pena.

Dá para ver que não se tratava de nenhuma arbitrariedade. A polícia pura e simplesmente cumpria uma ordem judicial, consistente no mandado de prisão/remoção, expedido pela autoridade competente. Colocados esses pressupostos, é imperioso aduzir que Jefferson usou e abusou de sua intimidade com o atual presidente da República, a ponto de este determinar a ida do ministro da Justiça ao local dos fatos, para encaminhar uma negociação completamente esdrúxula.

Se de um lado os arroubos arrogantes do ex-deputado buscavam demonstrar uma coragem de beira de igarapé (sabia ele do manto protetor que o acobertava), de outro desnudou-se a face hedionda da covardia e da ingratidão de Bolsonaro. Apesar da atitude claramente parcial da intervenção do ministro da Justiça, buscou imediatamente negar seu relacionamento com o aliado de primeira hora, a ponto de afirmar que não havia nenhuma fotografia dos dois juntos. Vergonhoso. Roberto Jefferson e Bolsonaro estão umbilicalmente ligados desde antes da implantação do desgoverno em que vivemos a partir de 2019.

A negação desse relacionamento só faz pôr a descoberto a absoluta e integral falta de caráter do Bozo, o que, aliás, não é nenhuma novidade, como ele tem seguidamente demonstrado.

Domingo, dia 30, vamos ao round final. Agora não há mais como postergar. O povo vai dizer, definitiva e claramente, se quer prorrogar um reinado de intolerância, ódio, hipocrisia e ingratidão, ou se busca a tentativa de recompor a nacionalidade com um governo de união e fraternidade.

Estava eu a brincar com minhas netas de colar figurinhas no álbum da Copa, e, olhando para a inocência que tresandava daquelas duas criaturinhas, fiquei a pensar que elas e seus contemporâneos não estão a merecer que Bozo continue a agredir a educação e a cultura, enquanto passeia de moto e de jet-ski.

Minha geração foi esmagada pelo peso da ditadura militar que, por vinte e um anos, fustigou o país com um regime de exceção em que as liberdades públicas e privadas foram sufocadas pela força, pela violência e pela tortura. Livres desse pesadelo, não posso entender que como ainda há brasileiros que apoiam uma figura que não se peja de se dizer defensor da tortura e da volta dos grilhões ditatoriais.

Mas mantenho viva a chama da esperança. Lembro Castro Alves: “Não pode ser escravo/Quem nasceu no solo bravo/Da brasileira nação”. Domingo diremos não aos retrógrados e intolerantes e iniciaremos a construção de um Brasil melhor. Minhas netas e todas as netas do mundo bem o merecem.

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