O que será de ti, Amazonas? Parte 2

Temos experimentado um sentimento estranho, misto de incredulidade, felicidade e surpresa, ao vermos a ação pública federal, mesmo em tempo de pandemia, transformar promessas em obras, pelo Brasil afora e, pasmem, também no Amazonas

Manaus – Temos experimentado um sentimento estranho, misto de incredulidade, felicidade e surpresa, ao vermos a ação pública federal, mesmo em tempo de pandemia, transformar promessas em obras, pelo Brasil afora e, pasmem, também no Amazonas. Há décadas, temos recolhido três vezes ou mais do que recebemos dos cofres federais.

Pontuando em termos de Norte/Nordeste, alguns exemplos merecem destaque: na Amazônia, o sonhado asfaltamento da rodovia Santarém-Cuiabá, obra vital para o Agronegócio, e, no Amazonas, mais de 30 anos depois, o início da recuperação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. No Nordeste, a conclusão da obra de transposição do rio São Francisco, que reduzirá drasticamente a indústria da seca, alimentada pela velha política há séculos. Caminhão-pipa por votos.

O direito de ir e vir

Nessa listagem apinhada de itens, o asfaltamento da BR-319 merece atenção pelo caráter emblemático de sua “embromação”. Nós já havíamos conquistado essa primazia, nos anos 70, no Regime Militar, que nos dava
acesso rodoviário ao resto do País. Já houve época em que fazíamos a experiência de conhecer o Sul da Amazônia, podíamos ir ao Pantanal, no Centro-Oeste, variar na direção do Nordeste ou Sudeste para abraçar o mar e, depois, deslumbrar-nos com as belezas naturais e culturais do Sul do País. A BR-319, desde 1988, serviu de enganação eleitoreira para manipular o sonho do cidadão de ir e vir, como está contemplado na Constituição Brasileira.

Depredadores e hipócritas

Tão logo a obra foi anunciada, a imprensa nacional e a internacional voltaram a campo para satanizar nosso desejo, quando a cantilena habitual da hipocrisia é entoada pelos grandes predadores globais. “Essa obra vai aumentar as queimadas da Amazônia, incentivar a detonação florestal, ampliar o desmatamento…”. É curioso como ninguém quer pagar o serviço ambiental que oferecemos. Mentiroso é o discurso daqueles que detonaram as próprias reservas florestais e querem manter-nos como um grande Zoológico ou Jardim Botânico para contemplação das futuras gerações. Ora, se depredar é crime previsto na legislação, deve ser penalizado. Crime maior, porém, é impedir que uma população, considerada historicamente como de segunda classe, tenha acesso e direito de conhecer e proteger sua região e seu país.

Desde os anos 90, quando o Governo Federal asfalto a BR-174, que liga a Amazônia ao Caribe, já demonstramos capacidade de proteger nosso “ganha-pão”, que é uma floresta robusta. E não há registro de barbaridades predatórias no território amazonense. Existe policiamento rodoviário efetivo, trechos administrados por povos indígenas, cujos direitos são devidamente respeitados a par de uma lição irretocável de progresso e sustentabilidade.

O macaco e a gralha

Mais curiosa ainda é a reclamação das organizações não governamentais nacionais e estrangeiras. Houve época em que, intrometidas no Ministério do Meio Ambiente, essas Organizações alegaram a extinção de uma espécie de macaco existente no traçado da rodovia, o macaco de cheiro. Essa espécie é abundante em toda a Amazônia. Além dela, uma gralha, das milhares de espalhadas pela região, virou manchete mundial de depredação predatória. Tenha paciência! E o mais absurdo: o Órgão Ambiental indeferiu o estudo de impacto ambiental – elaborado pela Universidade Federal do Amazonas, num conceito de estrada-parque – comum nos países civilizados.

Inspiração cívica

“Não quero fazer parte de uma geração perdida. O Brasil é um País grande demais para sua gente cursor os braços (…) Eu ficaria extremamente frustrado em chegar à velhice e verificar que a nossa geração nada fez pelo País, não deixou legado, não transformou e acomodou-se com situações que são absolutamente inaceitáveis, como o caos do saneamento básico e a cultura dá corrupção”. A frase do Ministro Tarcísio Freitas interpreta de forma muito inspirada o sentimento coletivo de nosso País. Precisamos resgatar nossa capacidade de indignação e cobrar que o dinheiro público seja aplicado a favor do bem comum. Precisamos exigir educação de qualidade, combate ao desperdício em todos os níveis, especialmente dos recursos naturais. Precisamos construir ou restaurar novos valores e sacralizar uma relação saudável, não predatória, entre o homem e a natureza, bem como sermos capazes de educar nossas crianças para serem os primeiros juízes a apontar o nosso descuido com o bem comum e o bem natural.

Sonhada alegria

Nós precisamos de rodovias para escoar a produção das comunidades distantes e para oferecer ajuda em caso de emergência aos nossos irmãos do Interior. Ou estarão eles excluídos dos benefícios da civilização? Depois de 70 anos, para citar mais uma imoralidade, uma rodovia como a Manaus Itacoatiara, AM-010, continuar a ser oportunidade para acidentes, quase diários, enquanto os recursos públicos para sua manutenção e alargamento são desviados historicamente pela corrupção impune.O que será de ti, Amazonas, se reinar entre nós o Espírito público? Serás belo e próspero. quando veremos teus gestores focados no interesse público, comprometidos e competentes na defesa da cidadania. Sonhada alegria!

*Advogada
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