Vania Maria Tereza Nôvoa Tadros

Sua hospitalidade associada ao temperamento alegre, bem-humorado e expansivo contagiava a todos

No dia 9 de maio de 2020, perdi minha segunda mãe. Ela se chamava Vania Maria Tereza Nôvoa Tadros. Nome de princesa, alma de rainha. Era linda de aparência física e de espírito. Vanita, como a chamávamos todos que privavam de sua intimidade, era mulher de múltiplos talentos, cumulava as habilidades de exímia dona de casa, com um intelecto acima da média. Culta, inteligente e consciente politicamente, cuidou, como poucas mulheres de sua geração, tanto da família quanto de sua vocação profissional.

Com formação, condições e capacidade para exercer inúmeras atividades, inclusive empresariais, preferiu o sacerdócio da sala de aulas: ela passou no concurso de professora do Curso de História da Universidade Federal do Amazons (Ufam), logo após a conclusão da primeira turma desse curso no Estado do Amazonas, do qual foi aluna exemplar.

Quando, há 30 anos, entrei na vida da família Nóvoa Tadros, o que mais me impressionou foi o amor pelos livros, especialmente os da área de humanas. Vanita e Roberto mantinham em casa uma biblioteca que englobava obras desde os clássicos até os autores mais modernos da atualidade e sempre foram leitores incansáveis.

Durante o namoro com Tricia, recebi apoio de Vanita sob as bênçãos e recomendações de Vania Lustosa Sabbá, comadre de Vanita, madrinha de Tricia, o que me garantiu os bons auspícios de minha futura sogra e que me acolheu prontamente.

Depois do noivado celebrado em casa com a presença apenas da família e de amigos íntimos nossos, marcamos a data do casamento. Vanita idealizou, organizou e preparou a mais linda festa de casamento que podíamos sonhar. Ela adorava celebrar a vida, dando festas de excelente bom gosto e com um clima agradabilíssimo, sem contar os alentados banquetes.

Sua hospitalidade associada ao temperamento alegre, bem-humorado e expansivo contagiava a todos. Logo após o meu casamento com sua filha, sempre bem-humorada, escondendo uma leve preocupação de mãe, porque naquela época alguns casais se separavam pouco tempo após o casamento, fez-me apenas uma cobrança em tom jocoso: “Olha, portuga, depois dessa trabalheira toda, esse casamento tem que durar pelo menos uns dez anos, hein?!”. Ela sabia no seu íntimo que nem precisava falar, pois meu casamento com sua filha sempre foi para a eternidade.

Nosso compromisso, a cada geração, é fazer o melhor.

Tínhamos conversas intermináveis sobre inúmeros temas e ela sempre antenada com todo o que estava acontecendo aqui e no mundo. Ela adorava me chamar de ‘Enciclobunny’, em uma alusão ao apelido em inglês que Tricia e eu sempre usamos na intimidade e também de ‘Pinhobril’, quando eu me colocava para ajudar nas tarefas de casa.

Ativista política, nunca deixou de expor suas opiniões sobre assuntos políticos delicados, permitindo entrever sua alma heróica na busca de contribuir nos momentos de mudança de nossa cidade e do País.

Sempre me ajudou, em tudo o que era possível. Recentemente, em minha campanha para desembargador, em 2018, já acamada, mobilizou céus e terras para ajudar Tricia a me colocar na lista sêxtupla. Ainda no mês passado, rezou incansavelmente e formou grupos de orações, pela minha recuperação, durante o período que estive internado para me recuperar do Covid-19.

Na primeira e única cirurgia que fiz, em 1999, foi para dentro do hospital, para ficar ao lado de Tricia puxando orações pelo sucesso da cirurgia que, prevista inicialmente para durar 50 minutos, foi realizada em umas seis horas porque minha vesícula estourou durante a vídeo laparoscopia. Passado o efeito da anestesia, indaguei: “tem uma comidinha aí para mim?”. E ela respondeu: “esse é o meu português! Vai ficar logo bom!”. Adorava o fato de eu ser ‘bom de garfo’ e de me deliciar com sua comida.

Sua comida era maravilhosa. Aprendi a fazer com ela, seu inigualável bacalhau de forno à espanhola. Preparamos esse prato juntos, em família, por inúmeros natais, dos quais não esqueço. Ela nos colocava a todos para ajudar, Tricia, eu, David, Beto e Marisa nos preparativos do Natal. Todos como seus filhos e cada um dentro de suas habilidades. Ela distribuía as tarefas de casa um a um e as festas eram lindas.

Aprendi, em Cabala Judaica, que, ao contrário do que ocorre na física clássica, espiritualmente, “os iguais se aproximam e os diferentes se repelem”, sinto que nossas raízes de ibéricos que nasceram nesta parte do Novo Mundo, e principalmente, os valores e o amor pelo conhecimento e pela família, nos aproximaram nesta existência.

Nunca medi esforços para estar ao seu lado nas pouquíssimas vezes que de mim precisou, por amor e gratidão. Quando me pedia ajuda, era invariavelmente para ajudar pessoas necessitadas, qualidade transmitida à minha esposa Tricia.

Marcou meus filhos com Tricia, Bia e Dudu e os filhos de Beto e Marisa, Maria e Betinho, com o sinal do seu amor, de tal forma que criou com eles vínculos que transpõem esta breve existência. Ela nos ensinou a amar o seu espírito, sem maiores preocupações com o que é terreno.

Finalmente, à Vanita minha eterna gratidão, por haver concebido e trazido a este mundo, a mulher que me faz querer evoluir e me tornar um ser humano melhor a cada dia, sua, e em todos os sentidos, linda filha: Tricia Thereza Tadros Pinho, o amor da minha vida.

Muito obrigado, Vanita.

Do seu filho Jorge Henrique de Freitas Pinho

*Advogado e procurador-geral do Estado do Amazonas